Reportagens

Usinas nucleares viciam peixes-boi da Flórida

Animais se aquecem com a água quente que sai dos canais de descarga das usinas. Mudança de comportamento cria dependência e alterou padrão migratório da espécie.

Nanda Melonio ·
4 de agosto de 2015 · 6 anos atrás

Com água aquecida, usinas de energia da Flórida têm sido essenciais a sobrevivência dos peixes-boi durante o inverno. Foto:
Com água aquecida, usinas de energia da Flórida têm sido essenciais a sobrevivência dos peixes-boi durante o inverno. Foto:

As usinas nucleares, polêmicas e alvo dos ambientalistas, viraram uma forma de muleta para a sobrevivência dos peixes-boi na Flórida. Os mamíferos aquáticos aproveitam o escapamento de água quente que foi usada para resfriar a usina. O calor beneficia os grandes mamíferos que, no inverno, desde a década de 1990, não precisam mais nadar até o México atrás de águas mornas.

Para evitar a hipotermia, os mamíferos tornaram-se dependentes das usinas. O tempo frio enfraquece o sistema imunológico dos peixes-boi, causando uma série de problemas denominados Síndrome do “Estresse por Frio” (Cold Stress Syndrome – CSS), que pode até levar à morte dos animais. Peixes-boi de todos os gêneros e idades podem ser afetados pela síndrome.

Dentre os efeitos desta síndrome estão emagrecimento, esgotamento e atrofia da gordura armazenada pelo corpo, inflamação dos intestinos delgado e grosso e degeneração do músculo cardíaco.

Mudança nos padrões migratórios

O relatório da Comissão Americana de Mamíferos Marinhos, aponta que as usinas de energia da Flórida têm servido como refúgios de água quente para os peixes-boi e sido essenciais para sua sobrevivência durante o inverno nas últimas décadas. Cada usina abriga cerca de 500 animais.

De acordo com o professor Gregory Bossart, vice-presidente do Georgia Aquarium, “esta é uma situação difícil, que fez com que os peixes-boi alterassem seus habitats e padrões migratórios. Hoje, eles se habituaram a ir para as usinas ao invés de migrar para águas mais ao sul, aquecidas naturalmente pelo sol”.

Segundo Robert Bond, pesquisador do Southeast Ecological Science Center, “é justamente a população de peixes-boi que depende das fontes artificiais de água quente que está em maior risco”. Para ele, “todas as formas de aquecimento artificial da água não são uma fonte consistente em longo prazo”.

Como não possuem a habilidade de se adaptar rapidamente a mudanças de temperatura da água, se esses “refúgios” criados pelas usinas fossem eliminados haveria alta mortalidade e alteração na distribuição dos animais, com o risco de comprometer a atual população de peixes-boi local – estimada em 6.000 indivíduos de acordo com a última contagem da Florida Fish and Wildlife Conservation Comission.

 

 

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