A última façanha do almirante com três vidas

Eduardo Pegurier
quinta-feira, 16 julho 2015 1:11

Ibsen de Gusmão Câmara: agora se sabe que a História Natural foi seu primeiro impulso rumo à conservação. Foto: F. Boticário
Ibsen de Gusmão Câmara: agora se sabe que a História Natural foi seu primeiro impulso rumo à conservação. Foto: F. Boticário

Um pequeno grupo se reuniu no Rio de Janeiro, na semana passada, para celebrar o lançamento do livro “Visões de um passado remoto”, do almirante Ibsen de Gusmão Câmara, um dos grandes decanos do ambientalismo brasileiro. Ibsen foi longevo. Mas o tempo é implacável e ele faleceu aos 90 anos, em julho de 2014. Entretanto, isso não o impediu de publicar um livro póstumo sobre um assunto que poucos sabiam ser uma das suas paixões.

O biólogo Fernando Fernandez assinou o prefácio: “Dizem que os gatos têm sete vidas. Nós só temos uma. O que dizer então de alguém que teve o privilégio de ter três vidas diferentes, todas admiravelmente bem vividas?”

Nascido em 1924, Ibsen prestou 41 anos de serviço à Marinha brasileira, até entrar para a reserva em 1981. Começou aí sua carreira mais famosa, a de conservacionista. Nesta segunda vida, para citar alguns feitos, liderou a campanha contra a caça às baleias e sua atuação foi decisiva para criar os Parques Nacionais de Abrolhos, Fernando de Noronha e a Reserva Biológica de Atol das Rocas. A sua terceira vida entremeou-se com as outras duas e só veio a público com o novo livro. Desde jovem foi atraído por História Natural. Nas horas vagas tornou-se um culto paleontólogo, dono de uma biblioteca de centenas de livros sobre o tema.

Até que produziu “Visões de um passado remoto”, seu próprio livro de Paleontologia, que finalizou mas não chegou a ver publicado, o que foi feito com grande esmero pela Fundação Grupo Boticário de Conservação da Natureza.

O dia de céu azul e provavelmente mar de almirante do suposto inverno carioca contrastava com o ambiente do bistrô onde o lançamento do livro ocorreu. Miguel Krigsner, fundador de O Boticário e da Fundação Grupo Boticário, abriu a homenagem lembrando dos quase 25 anos em que conviveu com o Almirante: “Ele no início desconfiou que um grupo empresarial pudesse criar uma instituição com intenções genuínas de conservação. Mas depois viu que as nossas eram as melhores”, disse. “Uma das partes que eu mais gostava durante as reuniões da Fundação eram os debates acalorados entre Ibsen e Maria Tereza Jorge Pádua. Era interessante assistir”.

Direto de Lima, no Peru, ao ouvir esse relato, Maria Tereza completou: “As brigas nessas reuniões eram de brincadeirinha, mas podiam parecer reais. Ibsen foi meu irmão de alma, tínhamos uma relação de confiança mútua brutal. Ele queria, e estava no seu papel, puxar o máximo de recursos para projetos de conservação no mar”.

Entre as centenas de ilustrações feitas a bico de pena do livro "Visóes de um passado remoto" está esta de um Mesosaurus, réptil primitivo do período Permiano Inferior.
Entre as centenas de ilustrações feitas a bico de pena do livro "Visóes de um passado remoto" está esta de um Mesosaurus, réptil primitivo do período Permiano Inferior.

O cerne de “Visóes de um passado remoto” não é texto, mas detalhadas ilustrações, feitas com a técnica de bico de pena, ao longo de quatro décadas. Esses desenhos descrevem a vida na Terra, dos animais que ainda existem até aqueles que, de alguma forma, preservados por milhões de anos, permitiram à ciência traçar o curso da evolução. Desenhá-los mistura conhecimento, talento artístico e imaginação.

O livro tem capa dura, papel grosso e texturizado, lâminas de papel vegetal e páginas duplas para os grupos maiores de desenhos. Cada capítulo tem um texto curto, seguido das ilustrações feitas a bico de pena. O primeiro descreve e ilustra o que são fósseis. O seguinte fala de “Irradiação adaptativa“, com desenhos de peixes teleósteos como exemplo. São 54 temas diferentes. Entre eles “Répteis voadores – os pterossauros”; “Outros diápsidos estranhos”; “Lagartos marinhos – os mosassauros”. E assim o livro vai numa balada que desperta aquela criança interessada que o cotidiano do leitor inibe, mas que no mundo do almirante está a flor da pele.

O livro foi produzido a partir das pranchas de desenho guardadas por Ibsen desde a década de 70. É impossível lê-lo sem imaginar o autor absorto na sua biblioteca, o prazer lúdico com que perseguiu minúcias, a busca em compreender e fixar a história da evolução. Quiça por serem derivadas de um impulso tão íntimo essas ilustrações ficaram em segredo tanto tempo.

“Eu sabia do gosto e habilidade para desenhar animais que ele cultivava desde garoto, mas não conhecia a coleção sistemática de desenhos que compõe esse livro”, disse Sônia Câmara, filha do almirante. “Só os descobri arrumando a biblioteca dele, no início de 2014”.

As paixões de Ibsen e sua dedicação à conservação da Natureza já influenciaram pelo menos três gerações.

“A escala de tempo dele era diferente da maioria de nós, e acho que muito vinha de seu olhar paleontológico. Me sinto honrada por tê-lo tido como meu presidente”, diz Angela Kuczach, diretora da Rede Pró UC, uma das instituições que Ibsen liderou e que persiste na defesa das áreas protegidas brasileiras.

A curiosidade intelectual é uma chama difícil de apagar. E quando um homem estuda, reflete e coloca essa curiosidade no papel, ele nunca morre.

 

A Fundação Grupo Boticário também disponibilizou “Visões de um passado remoto” em versões eletrônicas, nos formatos ePub e PDF, acessíveis gratuitamente. É só baixar.

 

 

Leia também
Do mar se vê mais longe – com Ibsen Gusmão Câmara
O Almirante verde
Um adeus ao Almirante Ibsen, ferrenho defensor da natureza

 

 

 

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.