Reportagens

Drones vigiam o Parque do Cantão, no Tocantins

Numa área de florestas alagadas, de difícil acesso, dispositivos voadores não tripulados assustam pescadores ilegais e fazem censo de botos.

Fabíola Ortiz ·
7 de maio de 2015 · 6 anos atrás

Drone detecta atividade de pesca ilegal no parque do cantão. Pequeno barco de pescadores utilizando redes, o GPS ajuda a estabelecer o local exato do barco. Foto: Instituto Araguaia
Drone detecta atividade de pesca ilegal no parque do cantão. Pequeno barco de pescadores utilizando redes, o GPS ajuda a estabelecer o local exato do barco. Foto: Instituto Araguaia

Há cerca de dois anos, o Instituto Araguaia descobriu que os drones podem ajudar a monitorar áreas remotas na Amazônia. Estes veículos aéreos não tripulados e controlados por GPS ficaram famosos como ferramenta de espionagem da CIA e ataques militares furtivos. Agora, eles caíram de preço, ganharam praticidade e usos civis. Com uma câmera GoPro, estes dispositivos aéreos são capazes de alcançar 300 metros de altitude e sobrevoar áreas na mata onde o homem não consegue chegar. Os drones podem visualizar com mais detalhes espécies de botos, pirarucus ou, até mesmo, detectar a ação de caçadores ilegais.

No extremo norte da Ilha do Bananal, estado do Tocantins, correm as águas do curso médio do rio Araguaia. Lá, fica o Parque Estadual do Cantão – uma área protegida criada em 1998 e gerida pelo órgão público Naturatins (Instituto Natureza do Tocantins). O parque é próximo aos municípios de Caseara e Pium, na região centro-oeste do estado.

Nesta área de 90 mil hectares, Cerrado e Amazônia se encontram. O local abriga uma floresta de igapó – vegetação submersa típica da floresta amazônica. Visualmente é uma floresta densa e alta, com arvores de até 20 metros, com copada fechada, solo arenoso e cheias de sapopembas — raízes de sustentação em forma de tripé na base das árvores, junto ao solo, que lhes dá equilíbrio. Essas árvores ficam submersas em até 9 metros de água, com copas expostas, e é justamente nessa época que florescem e dão frutos.

Durante o período seco, a paisagem do Cantão revela um mosaico de 850 lagos, que servem como berçários naturais para a reprodução de peixes. Já na temporada de chuvas, as águas do Araguaia transbordam e reconectam os lagos.

O Cantão é rico em biodiversidade, existem 55 espécies de mamíferos, 453 de aves, 301 de peixes e 63 espécies de répteis, algumas endêmicas — que só existem nesta área protegida.

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Uso de novas tecnologias

Movido pela dificuldade de acesso e a popularização dos drones, o Instituto Araguaia apostou na tecnologia para reforçar o monitoramento deste parque.

“Como o Cantão é uma área remota e difícil de percorrer, a nossa ideia era usar o drone para detectar invasores nos lagos. Investimos em tecnologia de ponta”, disse Silvana Campello, 56, presidente do instituto, que atua em cooperação técnica com o gestor do parque estadual.

Criado oficialmente em 2010, o Instituto Araguaia também desenvolve pesquisas científicas no interior do parque. A ONG sobrevive com recursos captados por meio de doações e parcerias com instituições internacionais como a Sociedade Zoológica de Frankfurt, o zoológico de Miami, além de editais do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) e da Fundação Grupo Boticário.

Na fase piloto, a equipe do Instituto Araguaia comprou um modelo DJI Phantom, na época o mais barato e o mais simples. Acoplado a uma câmera, o Phantom, além de gravar, envia em tempo real toda a paisagem vista durante o sobrevoo. Sua limitação estava na duração da bateria: apenas 20 minutos.

Os vigias do parque

O modelo DJI Phantom decolando para mais uma operação de vigilância. Foto: Instituto Araguaia
O modelo DJI Phantom decolando para mais uma operação de vigilância. Foto: Instituto Araguaia

“divulgamos que o parque está sendo monitorado por drones, o que assusta os pescadores ilegais”

A experiência foi tão exitosa, conta Silvana, que hoje o instituto tem três drones e acabou de ganhar um quarto. Este último e mais avançado é um modelo Inspire é um quadróptero, um drone com quatro hélices, câmera integrada e com estabilizador de imagem. Transmite vídeo em tempo real Full HD, e grava em 4K, uma resolução ainda maior. E ainda tem o dobro de autonomia. Obtê-lo só foi possível porque a ONG foi um dos selecionados pelo fabricante em um concurso de imagens feitas por drones.

“Eles são os vigias do parque, a extensão dos nossos olhos e da nossa presença. O parque é uma área virgem e inacessível, devido aos seus inúmeros lagos. Hoje já divulgamos que o parque está sendo monitorado por drones, o que assusta os pescadores ilegais”, diz Silvana.

Censo de botos

Contagem de botos pelo método tradicional. Pesquisador, canoa e caderninho. Foto: Instituto Araguaia
Contagem de botos pelo método tradicional. Pesquisador, canoa e caderninho. Foto: Instituto Araguaia

Aos poucos, a equipe do instituto percebeu que, além de afugentar criminosos e inibir práticas ilegais, seria possível seguir espécies de animais. Foi aí que surgiu a ideia de fazer o primeiro censo de botos do Araguaia.

Em janeiro de 2014, o Cantão ganhou o status de lar para uma espécie nova e recém descrita, o Inia araguaiensis, no nome científico, ou boto do Araguaia. Até então, pensava-se que os botos da Bacia do Rio Amazonas eram os mesmos da Bacia do Rio Araguaia. Análises de DNA comprovaram que eram espécies distintas, mas sem que se soubesse o tamanho da população do boto descoberto.

“Vimos que poderíamos de cima acompanhar os botos nos lagos, a cada 4 ou 5 minutos eles vêm à tona respirar, pois são mamíferos aquáticos. Constatamos que o drone é mais eficiente para contá-los”, diz Silvana.

O método tradicional dos biólogos para contagem de botos é artesanal. Em uma canoa, munido de binóculo, o pesquisador anota os botos que sobem para respirar. Já com os drones, a visibilidade e o raio de abrangência se multiplica.

O próximo passo será contar quantos botos vivem no Parque do Cantão. Os drones começarão a trabalhar em junho deste ano e a pesquisa durará até o fim da estação seca, em novembro.

O censo piloto dos botos será feito diariamente em três lagos – Grande, das Ariranhas e do Estirão – onde normalmente a concentração do animal é maior. Um membro da equipe será Julia Furstenau Oliveira, pesquisadora brasileira, que está fazendo mestrado sobre boto, no Instituto Araguaia, em convênio com a Universidade de Friburgo, na Alemanha, e com a Universidade de Brasília.

Se der certo, em 2016, Silvana pretende fazer um censo de pirarucu – um dos maiores peixes de água doce do Brasil, em risco de extinção devido à pesca predatória. “A importância da preservação desses lagos é enorme, a pesca comercial está arrasando os rios da Amazônia. Como já há um declínio da pesca, os pescadores recorrem aos lagos do Araguaia”.

Video

 

*Este texto é original do blog Observatório de UCs, republicado em O Eco através de um acordo de conteúdo.

 

 

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  • Fabíola Ortiz

    Jornalista e historiadora. Nascida no Rio, cobre temas de desenvolvimento sustentável. Radicada na Alemanha.

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