Se for exótica “atire primeiro e pergunte depois”, diz Simberloff

Fernando Fernandez e Bernardo Araujo
terça-feira, 17 junho 2014 23:15

Daniel Simberloff em palestra durante a XVIII Semana da Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foto: Rafael Martins de Souza Costa
Daniel Simberloff em palestra durante a XVIII Semana da Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foto: Rafael Martins de Souza Costa

Daniel Simberloff é professor de Ciências Ambientais da Universidade do Tennessee. Depois de completar seu doutorado na Universidade de Harvard sob a orientação de Edward Wilson, Simberloff se tornou um dos mais importantes e conhecidos ecólogos do mundo ao longo das últimas décadas. Ao longo de sua trajetória, ele esteve envolvido em diversas discussões a respeito de teorias ecológicas, muitas delas com amplas consequências para a conservação da natureza. Recentemente, ele esteve no Brasil como palestrante convidado na XVIII Semana da Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e concordou em dar uma entrevista para ((o))eco.

Fernando Fernandez: É um prazer falar com você pelo ((o))eco, professor Daniel Simberloff. Você tem tido uma longa carreira e esteve envolvido em alguma das mais importantes polêmicas da ecologia, muitas delas com implicações para a conservação da biodiversidade em geral. Então, gostaríamos de fazer perguntas sobre alguns desses temas seguindo uma ordem cronológica. Em seu doutorado você testou a teoria de biogeografia de ilhas, de Robert MacArthur e Wilson. Essa teoria foi apontada por muitas pessoas como uma base importante para o planejamento e design de reservas naturais. O que você pensa sobre o uso dessa teoria hoje em dia?

Daniel Simberloff: Eu era entusiástico a respeito da teoria enquanto descrição de partes da natureza, mas nunca por suas implicações para a conservação. Quando saiu uma série de artigos em 1975, todos advogando o design de reservas baseado na teoria de biogeografia de ilhas, eu fiquei pouco convencido porque essas ideias não se apoiavam na teoria, além da história de que grandes reservas seriam melhores que reservas pequenas. A respeito de sua relevância para a conservação, essa teoria nunca foi realmente um bom modelo para o design de reservas, mas chamou a atenção para forças que podem ameaçar pequenas populações, se elas forem realmente pequenas. Uma dessas forças foi a aleatoriedade demográfica, ideia advinda de modelos do livro original de 1967, e isso não foi bem reconhecido por biólogos da conservação. Ela também chamou alguma atenção para a questão mais geral das forças que ameaçam pequenas populações, incluindo forças genéticas, o que foi um desdobramento saudável da teoria, fazendo as pessoas pensarem em ameaças a pequenas populações em geral. No entanto, a maioria das ameaças reais à biodiversidade não vem da existência de populações pequenas, mas sim de populações em declínio. Um trabalho muito importante publicado por Graeme Caughley, por volta de 1990 se não me engano [em 1994], diferencia dois paradigmas: o paradigma das populações pequenas e o paradigma das populações em declínio. Ele atribuiu a ideia a mim, e ainda que a ideia não tenha sido minha, ele percebeu bem minha visão de que o paradigma das pequenas populações não é tão importante. A visão de Caughley era de que é possível associar cada espécie ameaçada a algo específico que os seres humanos tenham feito para ameaçá-la, e não apenas ao fato da população ser pequena. Podemos apontar pequenas populações que tem sido pequenas por milênios, porque elas habitam apenas pequenas ilhas, e elas estão bem. Eu acredito que a teoria tenha feito que as pessoas pensassem a respeito de certas questões, o que foi muito importante, mas sua relevância direta para a conservação é limitada.

FF: Eu acredito que, talvez, uma das ideias mais úteis por detrás da teoria seja a relação espécies-área, que já era bem conhecida antes da biogeografia de ilhas. De qualquer forma é um padrão, sobre o qual se pode tomar decisões sobre a conservação independente do mecanismo que o gera.

DS: Claro, independente do mecanismo.

“Quando existe apenas uma população em um lugar pequeno, isso significa o fim da espécie.”

FF: Voltando à questão das populações pequenas e sobre o artigo de Caughley: Você escreveu o artigo “The Proximate Causes of Extinction” (algo como “As causas imediatas da extinção”) em 1986 no qual, pelo que entendo, você diz que os fatores ecológicos responsáveis por fazer uma espécie comum se tornar rara são muitas vezes diferentes dos fatores responsáveis por matar os últimos indivíduos da mesma.

DS: Acredito que a questão chave não seja exatamente que os fatores levem as populações a se tornar pequenas, e sim que eles levem as populações a estarem em lugares pequenos, tornando-as vulneráveis a algo que possa devastar esse lugar, como tempestades, incêndios e doenças. Quando existe apenas uma população em um lugar pequeno, isso significa o fim da espécie. Então não é tanto uma questão do tamanho da população e sim de sua restrição geográfica. Se a espécie não fosse tão comum, mas distribuída em várias áreas, a situação seria diferente. Um exemplo disso que vem imediatamente à mente é a comparação entre o papagaio de Porto Rico e o pica-pau da crista vermelha. Ambas são espécies altamente ameaçadas e o papagaio quase foi extinto quando um furacão devastou a floresta de Luquillo, que era o único lugar onde eles mantinham uma população. Felizmente, alguns deles sobreviveram. Esse mesmo furacão, o Hugo, devastou também duas das populações do pica-pau nos Estados Unidos, mas havia ainda quatro outras populações. Então, isso não foi realmente um problema. As populações atingidas declinaram, uma provavelmente se extinguiu, mas a espécie como um todo estava bem. Se houvessem apenas duas populações e elas tivessem sido atingidas pelo furacão, a história seria outra. Então, é claro, destruição de habitat e qualquer outra coisa que restrinja a distribuição e reduza o tamanho populacional, processos que estão normalmente correlacionados, torna a situação pior para a população. Mas eu acredito que a questão chave seja a distribuição.

FF: Você não acredita que os números, por eles mesmos, podem ser importantes?

DS: Apenas em populações muito pequenas, como dez ou quinze indivíduos. Se você observa os cálculos acerca da fixação da razão sexual [todos os bichos serem do mesmo sexo], quando você tem mais que dez ou quinze indivíduos essa probabilidade são nulas. Então eu acho que sim, se houverem cinco indivíduos isso é um problema, mas com um número um pouco maior a probabilidade de sobrevivência já aumenta bastante.

FF: O que você acha a respeito da genética? Você acredita que os números por si próprios seriam um problema importante para populações pequenas por causa da baixa variabilidade genética?

DS: As duas questões aqui são a depressão endogâmica de um lado e a deriva gênica de outro. E não existem dúvidas de que sob certas circunstâncias problemas genéticos já eliminaram populações muito pequenas. Mas por outro lado, a sobrevivência de uma população a tal efeito gargalo significa que os genes que causariam a depressão endogâmica foram eliminados, e isso deixa de ser um problema. O problema então se torna a deriva, e se existe uma variedade genética insuficiente para lidar com mudanças ambientais. Mas não acho que isso seja um problema tão grande quanto a maioria das pessoas dizem. Em primeiro lugar, ainda existe recombinação e sempre existe alguma variação, e é difícil apontar casos que em curto prazo, de um ou dois séculos, em que foi a incapacidade de evoluir que causou a extinção de uma população. Pessoas tentam apontar casos onde doenças devastaram populações com baixa diversidade genética, e argumentam que populações com uma maior diversidade genética tem mais chance  de possuir indivíduos com genótipos resistentes. Existem casos como esse, mas eu não conheço nenhuma população que tenha sido eliminada por conta disso ainda. Evidentemente não é bom ter baixa diversidade genética, mas em termos de sua real importância como risco de extinção, acredito que ela seja bem menos importante que fatores ecológicos.

“Evidentemente não é bom ter baixa diversidade genética, mas em termos de sua real importância como risco de extinção, acredito que ela seja bem menos importante que fatores ecológicos.”

FF: Outra coisa que eu estava curioso para te perguntar é a respeito da polêmica do SLOSS [single large or several small – uma única reserva grande versus várias pequenas]. Você também esteve envolvido nela.

DS: Ó Deus, você realmente enfatiza as polêmicas. (Risos)

FF: Sim, mas essa é uma muito interessante. Porque acredito que você defendeu o argumento de que reservas pequenas também podem ser importantes. Baseadas na relação espécies-área, as pessoas tendem a pensar que apenas reservas grandes são importantes. Eu acredito que em alguns casos isso pode ser até perigoso, porque alguém pode dizer que se uma área é pequena ela não tem utilidade como área de proteção.

DS: É exatamente por isso que eu me envolvi nesse debate. Uma razão pela qual eu escrevi sobre o assunto é que eu encontrei um caso em Israel onde os militares citavam a teoria de biogeografia de ilhas e os artigos de 1975 para dizer às autoridades que reservas pequenas não são úteis, e que eles queriam usá-las para outros fins. Entretanto, a maioria das reservas do país é pequena e se se situa próxima a corpos d’água, e mesmo assim essas áreas possuem biodiversidade e espécies endêmicas apenas àquela parte do Oriente Médio. Essas autoridades começaram a vir até mim, que por acaso estava em Israel em 1978 por dois meses, e perguntar o que poderíamos fazer a respeito disso. E isso foi o que me fez perceber que é perigoso agir como se pequenas reservas fossem automaticamente inviáveis, porque elas podem ser viáveis. Aquelas reservas estavam funcionando perfeitamente bem e ainda estão, porque os militares não foram capazes de removê-las e elas ainda existem com as mesmas espécies presentes nos anos 70. Eu diria que o artigo de Caughley, coloca o mesmo argumento. Não é importante que uma população ou reserva sejam pequenas, e sim que sejam bem protegidas e seus ambientes não estejam devastados.

Segundo Simberloff, nunca se sabe quais serão todas as consequências causadas por uma espécie invasora. Foto: Rafael Martins de Souza Costa
Segundo Simberloff, nunca se sabe quais serão todas as consequências causadas por uma espécie invasora. Foto: Rafael Martins de Souza Costa

FF: Um argumento que tem sido utilizado por pessoas que defendem a maior importância de reservas muito grandes, como Terborgh e Carlos Peres, é que apenas grandes reservas podem preservar comunidades completas, incluindo predadores de topo e tudo mais.

“Grandes reservas são ótimas. Meu argumento é que frequentemente um conjunto de pequenas reservas vai ter tanta biodiversidade quanto, ou até mais biodiversidade, que uma reserva grande.”

DS: Isso é provavelmente verdade em alguns casos. Eu não duvidaria. Grandes reservas são ótimas. Meu argumento é que frequentemente um conjunto de pequenas reservas vai ter tanta biodiversidade quanto, ou até mais biodiversidade, que uma reserva grande. A ideia de que existe um efeito espécies-área não significa que reservas pequenas são automaticamente inviáveis. Mas é claro que para espécies como grandes carnívoros existe um limite de quão pequena uma reserva pode ser para abrigá-los e conservá-los. O argumento é válido, mas é apenas um entre muitos que devem ser considerados quando se tenta decidir qual o sistema de reservas ideal para se pôr em prática.

FF: Talvez a mensagem que deva ser levada para casa pelas pessoas das instituições que trabalham com reservas no Brasil, por exemplo, é que grandes reservas são de fato importantes, mas que não existe motivo para não se reconhecer o valor e a necessidade de pequenas reservas também.

DS: Esse é exatamente o meu ponto.

FF: Bernardo, você gostaria de fazer uma pergunta sobre rewilding?

Bernardo Araujo: Sim, sim. Eu acredito que já saiba qual vai ser a resposta, mas…

DS: (Risos) Você pode fazer sua pergunta e respondê-la então.

BA: (Risos) Você falou mais cedo em sua palestra a respeito dos perigos da introdução de espécies. Então o que você pensa a respeito das propostas de resselvajamento do Pleistoceno [Pleistocene Rewilding] que tem sido feitas nos últimos anos?

DS: Ah, sim! E qual você acha que será minha resposta?

BA: Que você não gosta nem um pouco delas.

DS: Você está certo. Eu não gosto delas por vários motivos, mas o principal é que toda evidência sobre espécies invasoras nos mostra que existem todo o tipo de consequências não intencionais. Inclusive, por vezes, na reintrodução de espécies que são nativas, dependendo de há quanto tempo elas estiveram ausentes e de como a comunidade que persistiu se adaptou à sua ausência.  O resselvajamento envolve a introdução de espécies análogas às que não existem mais. É claro que isso é uma ideia inspiradora. Como alguém poderia não se entusiasmar com a ideia dessas grandes regiões sendo repovoadas por algo como sua fauna completa de organismos? Mas isso seria extremamente caro e passível de consequências não intencionais de introduções que não funcionariam, fazendo com que as espécies introduzidas desaparecessem e afetando espécies nativas de formas danosas e imprevisíveis. Eu não gosto da ideia.

BA: Eu concordo com você nesse ponto, e creio que o Fernando também concorde.

FF: Sim, sim.

DS: E outra coisa. É muito excitante pensar em poder ver um mamute lanoso. Mas se pudéssemos tê-lo, o que faríamos com ele? Onde o colocaríamos? Eu acredito que existam algumas espécies que, se conseguíssemos reconstruir, então poderíamos salvar, como a pomba migratória ou o periquito da Califórnia. Se conseguissem reconstituir o lobo-da-Tasmânia, ou tilacino, estaríamos mais conscientes agora, e ainda existe habitat suficiente na Tasmânia para acomodá-lo. Mas para a maior parte dos animais extintos isso seria muito, muito caro, e o melhor lugar onde eles poderiam ser postos é um zoológico. Então, a ideia não me anima. Existem entusiastas do resselvajamento no Brasil?

FF: Sim. Ele já foi proposto para o Pantanal brasileiro pelo biólogo da conservação brasileiro Mauro Galetti. Também já houve um projeto privado gigantesco no Tocantins, se me lembro bem, envolvendo uma área de dezenas de milhares de hectares onde pretendia-se liberar uma grande variedade de grandes animais africanos.

DS: Wow. Isso é um exemplo de resselvajamento de verdade com todo tipo de consequências horríveis.  Imagine o número de patógenos que eles poderiam acabar trazendo, por exemplo. Mesmo com os melhores métodos sanitários eles provavelmente já causariam problemas apenas devido a isso. Além de impactos a espécies nativas através de diversos outros meios. Não existem leis no Brasil que impediriam isso?

BA: Sim, acredito que esse projeto tenha sido cancelado.

FF: A outra coisa que gostaria de perguntar é a respeito de sua palestra de hoje, porque você falou sobre as questões sobre invasões biológicas. Eu acredito que aqui no Brasil a visão estabelecida é que espécies invasoras devem ser controladas porque trazem diversos problemas sérios para a conservação. Dessa forma, a política em reservas do Brasil tem sido sempre controlar espécies exóticas a qualquer custo. Mas agora algumas pessoas estão trazendo uma nova visão de que em muitos casos espécies exóticas podem ter efeitos benéficos para a conservação.

DS: Como o porco monteiro no Pantanal?

FF: Sim, exato, e muitos outros. Um exemplo na Austrália é o dingo, que supostamente controla a população de predadores exóticos menores como raposas e gatos, beneficiando os marsupiais e os pequenos roedores.

DS: O dingo está na Austrália há mais de quatro mil anos. Ele é uma questão diferente. O quoll [marsupial nativo] aparentemente se adaptou bem à sua presença. A introdução do dingo é muito antiga. O porco monteiro aqui é uma introdução muito mais recente.

FF: Sim, cerca de cento e cinquenta anos.

” Eu tenho uma palestra sobre isso, onde abordo todos esses exemplos de invasões que supostamente ajudam a conservação, caso a caso, e mostro que cada um deles possui desvantagens além das vantagens previamente apontadas, e algumas delas são desvantagens tremendas.”

DS: Eu li os artigos que dizem que ele protege o cateto e o queixada porque as pessoas preferem caçá-lo, mas ainda não vi nenhum dado real acerca de impactos populacionais nessas duas espécies de porcos nativos. Primeiro, é necessário que haja alguma ciência de verdade aqui. Em segundo lugar, existem tantas coisas que o porco monteiro faz: eles arrancam raízes, e atacam espécies que possuem raízes carnosas e tubérculos, frequentemente eliminando-as localmente; eles misturam camadas orgânicas e minerais no solo alterando a sucessão de plantas; eles comem fungos, e podem espalhar fungos micorrízicos que podem ser úteis para plantas invasivas como fazem na região patagônica dos Andes; e eles comem tudo, desde ovos de pássaros que nidificam no chão até anfíbios, eles são onívoros. Então, alguém teria que estudar esse caso com muito cuidado e olhar para todos os variados impactos no pantanal para dizer que os porcos monteiros de fato auxiliam na conservação. E eu diria que isso é verdade para qualquer um desses exemplos de espécies invasoras que ajudam na conservação. Eu não diria que não existe nenhuma, mas é fácil demais olhar para apenas um efeito e dizer “olhe, isso é bom”. Eu tenho uma palestra sobre isso, onde abordo todos esses exemplos de invasões que supostamente ajudam a conservação, caso a caso, e mostro que cada um deles possui desvantagens além das vantagens previamente apontadas, e algumas delas são desvantagens tremendas. Então, talvez pudéssemos dizer a mesma coisa a respeito do porco monteiro no Pantanal. Dizem que ele está ajudando as duas espécies de porcos nativos, mas eu gostaria de ver os dados reais mostrando um impacto populacional nessas espécies. Só porque os caçadores estão atirando nos porcos monteiros isso não significa que as populações de catetos e queixadas estão se beneficiando.

FF: Talvez a ideia seja que as populações de catetos e queixadas estejam melhor no Pantanal do que em outras regiões do Brasil, porque, especialmente no caso do queixada, estão se tornando muito escassas em outras regiões do país. Mas isso não significa que é necessariamente devido ao porco monteiro.

DS: Sim, esse seria meu argumento.

FF: Então, se você pudesse dar um conselho bem curto para administradores de reservas no Brasil sobre qual política adotar para espécies invasoras, o que você diria a eles?

DS: Atire primeiro e pergunte depois. O motivo disso é que muitas espécies introduzidas trazem consequências que não reconhecemos a tempo. Outras sequer se espalham. Elas se mantêm restritas e, de repente, depois de décadas, começam a se espalhar e a ter grandes consequências. Uma terceira razão é que frequentemente, logo após a invasão, quando você reconhece uma invasora, é possível se livrar dela, e esse processo não custa tanto no início. Mas uma vez que ela se espalha, pode se tornar impossível, ou ao menos extremamente caro contornar o problema. Então, por que arriscar? A política deveria ser não introduzir, e se você reconhecer o início de uma invasão, livre-se da espécie em questão. Se é uma espécie que se estabeleceu há centenas de anos, ou uma que já está amplamente distribuída, então você tem que pensar a respeito dos prós e contras e na viabilidade de manejo da mesma. Mas quando uma invasão recente é descoberta em uma reserva, não se incomode em estudar os impactos. Acredito que se deva livrar dela imediatamente.

FF: Muito obrigado, professor Simberloff. Essa entrevista nos foi muito útil.

DS: Eu que agradeço.

 

Fernando Fernandez e Bernardo Araujo, repórteres por um dia para ((o))oeco. (Nota da redação: esperamos que se tornem muitos dias)

 

Termos usados nessa entrevista

Teoria da biogeografia de ilhas: descreve os fatores que controlam a riqueza de espécies (número de espécies) em ilhas. Mais tarde, essa mesma teoria foi utilizada para investigar os fatores que influenciam a riqueza de espécies em fragmentos florestais, reservas biológicas e outros ambientes isolados.

Aleatoriedade demográfica: diz respeito ao efeito do acaso sobre características demográficas de uma população pequena que podem levá-la a extinção.

Relação espécies-área: também chamada de “curva espécies-área”, é a relação entre a área de um dado habitat e o número de espécies que ele abriga.

Aninhamento: padrão de organização de comunidades biológicas onde algumas espécies estão presentes em todas as comunidades e outras apenas em comunidades sucessivamente mais ricas em espécies.

Fixação da razão sexual: trata-se da proporção entre machos e fêmeas em uma população. Ocorre quando há a perda de todos os indivíduos de um dos sexos em uma população.

Depressão endogâmica: diz respeito à redução da capacidade de sobrevivência dos indivíduos de uma população como resultado de endogamia, ou seja, repetidos cruzamentos entre indivíduos aparentados.

Deriva gênica: alteração das frequências de genes de uma determinada população devido ao acaso.

SLOSS (do inglês “single large or several small”): a sigla SLOSS (que pode ser traduzido como “uma grande ou várias pequenas”) se refere a um longo debate travado em meio à literatura ecológica ligada à biologia da conservação, nas décadas de 70 e 80, a respeito de qual seria a melhor estratégia para o delineamento de reservas, especialmente em habitats fragmentados, para a manutenção da biodiversidade: demarcação de uma única reserva grande ou a de diversas reservas pequenas.

Estrutura trófica: diz respeito à organização de uma teia “alimentar”, que inclui todos os organismos desde sua base de plantas e outros produtores primários até o seu topo, com os grandes predadores.

Resselvajamento (ou “rewilding”, do inglês): diz respeito à reintrodução de proxies (espécies proximamente “aparentadas”) de espécies já extintas em determinada região com o intuito de restaurar paisagens ou processos ecossistêmicos existentes no passado, quando tais paisagens e ecossistemas ainda não haviam sido influenciados pela chegada do Homo sapiens. Um exemplo seria a reintrodução de elefantes no lugar de mamutes e mastodontes na América do Norte.

 

 

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3 comentários em “Se for exótica “atire primeiro e pergunte depois”, diz Simberloff”

  1. O professor Celio Valle no fim do anos 80 defendia a proteção de pequenas áreas e fragmentos e foi este o pilar das RPPNs e, a despeito de críticas ferrenhas contrárias, elas estão aí comprovando a tese destes brilhantes estudiosos !

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  2. Realmente entrevista ímpar! Infelizmente só hoje consegui ver os comentário. Eu lamento os comentários do Professo Galetti, que me parecem até um pouco `religiosos` e bastante ofensivos para com um Biólogo tão completo e erudito quanto Daniel Simberloff, que mudou a história da ecologia de biologia da conservação e já ganhou prêmios como Eminente Ecologist e Ramon Magalef. Até ler esse comentário, que deve ter certamente sido motivado por questões emotivas ou algo parecido. Realmente acho que ele deveria reler a reportagem e refletir sobre o tom e a elegância de seus comentários.

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