Lute pela existência de Barbados, ameaçado pelo nível do mar

Nádia Pontes*
quinta-feira, 5 junho 2014 19:55

Fotos: Nadia Pontes
Fotos: Nadia Pontes

Nas ruas de Barbados, é comum flagrar moradores discutindo as mudanças do clima da ilha. A maior parte da população de 273 mil habitantes se preocupa com a atual seca prolongada e seus efeitos sobre o abastecimento de água potável, convive com as obras costeiras para barrar o avanço do mar e teme o aumento das tempestades tropicais que rondam o mar do Caribe.

Barbados está na lista dos 52 países insulares mais ameaçados com o aumento do nível do mar. A pequena ilha caribenha é um dos menores Estados independentes do mundo, um pouco maior que a cidade de Belo Horizonte, e é a sede das comemorações do Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 05 de junho.

A campanha do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) de 2014, “Aumente a voz, não o nível do mar”, foca na vulnerabilidade dos pequenos países insulares. Eles estão entre os que mais sofrem com os efeitos diretos das mudanças climáticas, mas emitem menos de 1% dos gases que causam o efeito estufa no globo. Uma grande desproporção.

Mas como sensibilizar o resto do mundo para o risco que essas pequenas ilhas – muitas delas distantes dos continentes – sofrem de sumir do mapa? “Queremos mostrar que, mesmo que more em países longe da costa, você contribui para o aumento das emissões e consequentemente com as mudanças climáticas, você é responsável pelo impacto na vida das pessoas e, talvez, até pelo futuro de alguns desses países insulares”, respondeu à indagação Achim Steiner, diretor-executivo do Pnuma, durante as comemorações em Barbados.

O aumento do nível do mar pode ser devastador em vários outros cantos do planeta: 60% da população de 39 grandes metrópoles vivem a menos de 100 quilômetros da costa, calcula o IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas). No Brasil, estima-se que 40% das praias sejam vulneráveis ao aumento de 59 centímetros do nível do mar até 2100 previsto pelo IPCC.

Impactos de todos os lados

Nas ilhas caribenhas, que vivem do turismo, os recifes de corais já não são mais os mesmos. O aumento da temperatura das águas afetou 100% desse ecossistema em algumas áreas. O Pnuma calcula que serão gastos cerca de 12 trilhões de dólares com trabalhos de recuperação dos recifes nas próximas duas décadas – quase o triplo do PIB anual brasileiro.

As praias de Barbados atraem visitantes do mundo todo: 83% do PIB do país vêm do turismo. Para proteger a maior fonte de renda local, a ilha investiu 3 mihões de dólares em projetos que contêm o avanço do mar. “Vivemos numa ilha, notamos cada mínima mudança no clima e sabemos que isso afeta muito rapidamente a nossa vida”, diz Christopher, 27 anos, recepcionista de um hotel de frente para o mar em Barbados. “As nossas praias do lado oriental encolheram, o período de chuvas também está mais curto”.

Alex Ifill, diretor da agência estatal de abastecimento de água em Barbados, atesta a redução: atualmente, a média de chuvas na ilha é 1.422 milímetros, na década passada, esse número era de 1.524 milímetros. “Isso afeta diretamente o nosso fornecimento, já que usamos a água de dois aquíferos que temos em Barbados. E, se não chove, a reserva fica comprometida”, disse.

Bom exemplo da ilha

Apesar de todos os desafios ambientais, Barbados também é vista como um bom exemplo de desenvolvimento sustentável. Em 2006, o país insular traçou um plano estratégico baseado no conceito de economia verde para ser cumprido até 2025.

Um pequeno comerciante de praia instala um painel solar.
Um pequeno comerciante de praia instala um painel solar.

Uma das metas é diminuir a dependência dos combustíveisl fósseis. Atualmente, 95% da energia é gerada a partir dessa fonte, o mesmo vale para a maioria dos países insulares. Barbados gasta mais de 400 milhões de dólares com a importação de petróleo. “Isso, certamente, não é sustentável para uma pequena ilha como Barbados, em termos financeiros e nem ambientais”, argumenta Donville O. Inniss, ministro da Indústria.

A meta é produzir 30% da energia consumida na ilha a partir de fontes renováveis até 2029. Os painéis fotovoltaicos serão o maior aliado dessa mudança: em Barbados, o sol brilha 364 dias por ano. O país lançou uma série de incentivos financeiros para estimular a adoção da energia solar em empresas e residências, e a iniciativa está dando certo, avalia Willian Hinds, da agência estatal de energia.

Freundel Stuart, primeiro-ministro de Barbados, prefere que o país seja lembrado por sua longa ação contra as mudanças do clima, que começou em 1994. “Há 20 anos, sediamos a primeira conferência de pequenos países insulares para que nossas vozes fossem ouvidas”, afirma.

“Para nós, esse Dia Mundial do Meio Ambiente também é uma comemoração do legado de duas décadas de trabalho, período que instalamos sistema de monitoramento do nível do mar e articulamos políticas de adaptação às mudanças climáticas. Mas precisamos ser ouvidos por mais pessoas no mundo para assegurarmos o nosso futuro e de outros pequenos países insulares”, disse.

 

*Nádia Pontes, de Barbados.

 

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