Latas de aerossol de aço agora seguem o caminho da reciclagem

Fabíola Ortiz
quinta-feira, 8 maio 2014 22:45

Ponto de coleta em supermercado do purificador Glade, produto usado no projeto Ponta a Ponta de logística reversa. Foto: Divulgação
Ponto de coleta em supermercado do purificador Glade, produto usado no projeto Ponta a Ponta de logística reversa. Foto: Divulgação

Rio de Janeiro – O consumo de produtos em latas de aerossol subiu no Brasil. Hoje o país ocupa a terceira posição na América Latina. Nós consumimos 1,8 latas de aerossol per capita, contra 10 da Argentina, líder do ranking na região.

Segundo a Associação Brasileira de Aerossóis e Saneantes Domissanitários (ABAS), em 2012, o consumo destas embalagens alcançou a marca de 1 bilhão de unidades. Um censo do Compromisso Empresarial de Reciclagem (Cempre) de 2010 indicou que, naquele ano, o Brasil produziu 33,3 milhões de toneladas de aço em seu estado bruto. Cada habitante do país, consome em média 3,67 kg de aço por ano. Do total produzido, 604 mil toneladas (ou 1,8%l) são destinadas a embalagens.

As latas de aerossóis são classificadas como resíduos potencialmente perigosos, pois contêm uma quantidade residual do gás propelente inflamável e, por isso, devem ter uma destinação correta e não serem despejadas nos lixões.

Contudo, menos de 1% desse tipo de embalagem é reciclado. No Brasil, não há um programa consolidado de logística reversa de embalagens de aço.

Multinacional resolve dar exemplo

“A responsabilidade não acaba quando o consumidor tira o produto da prateleira. É preciso ser responsável pelo reuso do produto e também de seus insumos”

A SC Johnson é uma empresa familiar, de origem americana, que, no Brasil, está entre as líderes de mercado de produtos de limpeza, repelentes e mata insetos, com marcas como Raid, Off, Glade e Cera Grand Prix. Ela resolveu apostar na logística reversa de seus produtos, algo ainda inédito no Brasil. A primeira experiência foi com embalagens de aço de aerossóis da marca Glade, usados como purificadores de ambiente.

O aço é um material que pode ser 100% reciclado e voltar ao mercado sob diferentes formas, desde carros, geladeiras, eletrodomésticos a acessórios como tesouras ou maçanetas.

“A responsabilidade não acaba quando o consumidor tira o produto da prateleira. É preciso ser responsável pelo reuso do produto e também de seus insumos”, disse Mauro Ramos, presidente da SC Johnson no Brasil, que expôs os resultados do programa na conferência Sustainable Brands Rio 2014. O evento reuniu 600 profissionais de marketing e executivos dedicados a encontrar maneiras sustentáveis de conduzir negócios.

Ramos falou a empreendedores sobre a experiência da empresa americana no Brasil de fazer toda a cadeia reversa das latas de aerossol. Ele admite que ainda é grande a dúvida sobre quando será o retorno econômico deste investimento.

“A nossa ideia é participar de todos os fóruns para impactar outras indústrias e fornecedores. Tem que ser como uma onda que se propague e traga outros parceiros para que esse movimento ganhe escala. Paga-se o preço de ser o primeiro, quem é o primeiro não tem retorno econômico”, disse Ramos.

Em sua opinião, dentro de 5 anos já será possível tornar o negócio rentável. “Toda a empresa tem que acreditar, há um custo e não é barato, ainda mais num país como o Brasil, onde a coleta seletiva de lixo é pouco difundida nas cidades”, afirmou.

Logística reversa

O Plano Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) obriga, já em 2014, não apenas a coleta seletiva em todos os municípios, mas que lixões sejam fechados até o fim deste ano. Outra meta que também faz parte do plano anda a passos lentos: a logística reversa de embalagens de aço. Para implementá-la, a SC Johnson desenvolveu um método inédito de reciclagem de aerossóis em aço. Ele envolveu uma cadeia de dezenas de fornecedores, centenas de funcionários da empresa, mudança na composição de seus produtos e ainda mobilizou uma rede de catadores para dar conta do recado.

O programa é chamado de Ponta a Ponta (uma tradução do inglês “End to end”) e, por enquanto, é aplicado apenas no purificador de ar Glade. Mesmo assim, foi capaz de evitar, desde 2013, que 7,2 toneladas dessas embalagens fossem enviadas aos aterros sanitários.

Durante a Sustainable Brands, Mauro Ramos conversou com ((o))eco para contar detalhes da iniciativa. “O pioneirismo foi quebrar barreiras e encontrar um mecanismo de fazer com que a lata de aço voltasse à cadeia produtiva. Temos a filosofia e a missão de fazer produtos melhores, que envolve o clico Ponta a ponta, do início da produção, até o produto acabar de ser usado e voltar para a cadeia”.

Aço, um reciclável nato

Mauro Ramos, presidente da SC Johnson, fala sobre o programa Ponta a ponta na conferência Sustainable Brands. Foto: divulgação
Mauro Ramos, presidente da SC Johnson, fala sobre o programa Ponta a ponta na conferência Sustainable Brands. Foto: divulgação
“Para 100 latas feitas com o metal, a reciclagem poupa o equivalente a uma lâmpada de 60 watts acesa por uma hora.”

O aço pode ser fundido à temperatura de 1.300° C e assim assumir novo formato sem perder nenhuma de suas características como dureza, resistência e versatilidade. O aço pode ser reciclado quantas vezes se quiser. Para 100 latas feitas com o metal, a reciclagem poupa o equivalente a uma lâmpada de 60 watts acesa por uma hora.

Ramos conta que tudo começou quando a rede Walmart lançou, em 2012, programa Sustentabilidade de Ponta-a-Ponta e desafiou a SC Johnson a repensar e modificar todas as etapas do ciclo de vida de um de seus produtos, o que incluía mudança da fórmula, na cadeia de produção e no pós-consumo.

“Todo ano a linha de supermercado da Walmart desafia as empresas a fazer um end-to-end. Em 2012, tivemos a ideia de repensar o Glade pela perspectiva da logística reversa. Começamos a trabalhar no projeto e aceitamos implementá-lo até 2013”, disse Ramos.

Para isso, a empresa americana dividiu o plano em etapas. A fase inicial foi encontrar parceiros que trabalhassem com a logística reversa de latas de aço como a ProLab Ambiental, pioneira de uma nova metodologia de reciclagem. O segundo momento foi repensar a cadeia produtiva do Glade, que foi escolhido por ser fabricado em Manaus.

 

Menos químicos

“a empresa conseguiu economizar combustível e cortar 60 mil km de rodagem em estradas, ao apostar na navegação de cabotagem.”

Nessa busca por soluções, a empresa reduziu as emissões de CO2 e ainda usou 30% a menos de gás de petróleo liquefeito em sua fórmula, que inclui compostos orgânicos voláteis (VOC), considerados poluentes perigosos. A exposição a esse químico pode causar dores de cabeça, alergias, irritações na vista e respiratórias, tontura e falta de memória. Por longos períodos de exposição, os VOCs podem causar ainda danos ao fígado e ao sistema nervoso central.

Na busca por otimizar a cadeia produtiva, levar o produto produzido de Manaus para as lojas do Sudeste também envolveu uma operação minuciosa. Entretanto, a empresa conseguiu economizar combustível e cortar 60 mil km de rodagem em estradas, ao apostar na navegação de cabotagem.

As fases seguintes incluíram: um trabalho minucioso com cerca de 300 fornecedores; fazer a reciclagem em si, algo inédito para produtos de embalagem de aerossol em aço; e mobilizar mais de 20 cooperativas de catadores em São Paulo.

“A reciclagem de latas de alumínio já é bem desenvolvida, mas fomos pioneiros a fazer um projeto de reciclagem de latas de aço. Para os catadores, a lata de aço não tinha viabilidade econômica, para eles não valia a pena e não era economicamente viável. Tentamos incentivar os catadores para terem uma razão econômica para catar as latas. Outro grande desafio foi tentar envolver o consumidor nesse processo de logística reversa”, disse Ramos. Para ele, o brasileiro não tem o hábito de levar produtos usados de volta aos supermercados para reciclagem.

Ramos conta que o desenvolvimento e implementação dessas cinco fases envolveram um time formado por 20 funcionários da empresa. “Em seis meses equacionamos tudo e, em agosto de 2013, começamos a reciclar latas de aço”.

Além das expectativas

O início foi apenas na capital paulista, mas a iniciativa se expandiu. Nos últimos 7 meses, a empresa já realiza o mesmo processo em cidades como Santos, Campinas, Sorocaba e São José dos Campos. No Rio de Janeiro, haverá um experimento com a rede de supermercados Pão de Açúcar.

“Conseguimos cumprir nossas metas de reciclagem com o Walmart e fomos além disso”, disse Ramos. A meta até final deste ano é atingir o volume de 50 toneladas de latas de aço recicladas.

Sem falar em números e valores, Mauro Ramos se limitou a confirmar que o investimento foi alto para realizar o programa. Mas considerou que “hoje isso faz parte do doing business, ou seja, da maneira de fazer negócios”.

Mesmo arcando com custos altos, a SC Johnson se gaba por ser a primeira no país a implementar em escala a logística reversa de latas de aerossol de aço. Para Ramos, “tem sido uma jornada positiva, acho que vai servir de modelo para outros aderirem”.

 

 

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