A luz que o Sol traz depois de se pôr (parte 1)

A luz que o Sol traz depois de se pôr (parte 1)

Elizabeth Oliveira
segunda-feira, 12 agosto 2013 21:23
Uma das casas no sítio Promessa beneficiadas com a experiência piloto de iluminação com lâmpadas LED. Fotos: Eunice Venturi /Instituto Mamirauá
Uma das casas no sítio Promessa beneficiadas com a experiência piloto de iluminação com lâmpadas LED. Fotos: Eunice Venturi /Instituto Mamirauá

O Brasil tem 1 milhão de domicílios sem energia elétrica, segundo dados levantados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) junto às empresas distribuidoras e divulgados no final de 2012. A Bahia lidera o ranking com uma demanda de 323,3 mil ligações, seguida pelo Pará, com 220,1 mil e pelo Amazonas, com 90 mil. Na Amazônia, em especial, as condições geográficas dificultam a instalação da infraestrutura de eletricidade, tais como a presença de grandes rios e florestas densas, além de uma população dispersa em áreas territoriais extensas. Este é o caso das comunidades ribeirinhas amazonenses apresentadas nas 3 estórias reportadas nessa série. Suas necessidades foram aliviadas pela energia solar, que reduziu a dependência de combustíveis como o óleo diesel, poupou dinheiro e conteve impactos ambientais. Mesmos sendo testadas em pequena escala, essas iniciativas de energia solar melhoraram as condições de vida das famílias ainda sem fornecimento regular de energia elétrica. A previsão é que um dia elas sejam contempladas pelo Programa Luz para Todos, iniciativa do Governo federal criada há dez anos para assegurar a universalização dos serviços energéticos, porém distante do alcance dessa meta.

 

Quando chega a noite no Sítio Promessa, no município de Uarini (Médio Solimões, a cerca de 600 Km de Manaus), o pescador José Cordeiro não precisa mais acender a lamparina movida a querosene, hábito que repetiu ao longo de toda a vida para amenizar a escuridão. Na casa dele e nas das 7 famílias vizinhas desta pequena comunidade isolada do Amazonas está sendo testada, desde o fim de 2012, uma experiência inédita no estado: um kit de iluminação com uma célula fotovoltaica que alimenta lâmpadas LED. Ele percebe os ganhos depois da troca do combustível poluente pela energia solar: “Luz é vida e eu me sinto mais vivo agora”, diz o pescador ao ser indagado sobre o que representa trocar a dura rotina de noites praticamente às escuras no isolamento da floresta por uma fonte de iluminação de melhor qualidade.


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As novas lâmpadas não resolvem o problema da exclusão elétrica local, mas Cordeiro considera que elas facilitam as tarefas cotidianas, as mais prejudicadas pela falta de luz ou pela iluminação precária da lamparina. “Agora dá pra tratar o peixe e tecer a malha de pesca à noite. As crianças também podem estudar sem fumaça dentro de casa”, diz.

Ele contabiliza a economia de cerca de 15 litros de combustível por mês, consumidos anteriormente para manter acesa a lamparina da casa onde vive com a mulher e 4 filhos. O kit de lâmpadas LED inclui um carregador de pilhas, permitindo também economia com esse produto essencial na Amazônia, onde as famílias não podem abrir mão de uma lanterna e o rádio é um dos meios de comunicação mais viáveis.

Apesar do pequeno avanço no Sítio Promessa, com enfoque exclusivo na iluminação residencial, as 7 famílias (38 moradores) ainda são dependentes do óleo diesel para acesso a outro pequenos benefícios da energia elétrica fornecida pelo chamado “motor de luz”. Elas rateiam o custo de 80 litros de combustível por mês, principalmente, pra manter a TV ligada, entre às 18h e 22h. O pescador ressalta que não dá para ter geladeira ou usar outros eletrodomésticos, pois eles encareceriam a conta da comunidade. Vivendo nessas condições, Cordeiro se sente completamente esquecido por todas as esferas do poder público. “Aqui a falta de apoio é total. Ninguém lembra que a gente existe”, desabafa.

Oséas Pereira Lopes, outro pescador que mora na localidade, desejava ter um ponto comercial de venda de sucos de frutas regionais e outras bebidas. Entretanto, sem fornecimento regular de energia conta que não dá pra manter uma geladeira funcionando 24 horas. “Só por três dias de geladeira ligada eu gastaria mais de R$ 100 com óleo diesel”, diz.

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Na casa dele também está em teste o kit de lâmpadas LED para iluminação. “A fumaça da lamparina deixava as crianças doentes, com tosse e outros problemas”, conta a dona de casa Miricelma da Silva Lopes, mulher do pescador. “Quem tem criança sempre precisa acordar de madrugada e acender uma lâmpada é muito melhor do que usar a lamparina”.

Otacílio Brito, tecnólogo social do Instituto Mamirauá, organização à frente da experiência de uso de lâmpadas LED juntamente com uma rede de parceiros, considera que a situação de exclusão elétrica na Amazônia reflete falta de vontade política. “Em uma região que tem sol praticamente o ano inteiro, a energia solar é uma vocação natural e daria um salto na qualidade de vida nas comunidades, sobretudo as que vivem em áreas isoladas”, diz.

Os kits de LED a baixo custo são fornecidos pelo Instituto para o Desenvolvimento de Energias Alternativas e da Auto-Sustentabilidade (Ideaas), parceiro do experimento.

 

Custo-benefício (energia solar versus combustível fóssil)

  • Kit LED: célula fotovoltaica mais lâmpada LED custa cerca de R$800,00.

Depois de instalado, o custo será somente da troca da bateria, a cada 3 anos (R$ 60).

  • Alternativa: instalação de um sistema de geração a partir de um motor elétrico, (alternativa largamente adotada na Amazônia), que custa cerca de R$ 35 mil.

O motor consumiria diariamente 4 litros de óleo diesel (obtido a cerca de R$ 4, por litro) para funcionar por somente 4 horas.
O gasto seria de cerca de R$ 12 por dia, R$ 360 por mês e R$ 4,3 mil por ano para iluminação residencial e uso de aparelhos de TV e som.

 

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