Reportagens

Vila da Ressaca: os restos de um sonho dourado

Perto de Altamira, o garimpo que já foi pujante hoje é decadente e usa técnicas precárias que arriscam a saúde dos homens e o meio ambiente

Redação ((o))eco ·
14 de março de 2013 · 9 anos atrás

Em consonância com o nome, Vila da Ressaca é o que sobrou dos tempos em que havia ouro abundante no local. Essa comunidade de garimpeiros fica na chamada Volta Grande do rio Xingu, uma grande curva em formato de ‘U’ que começa logo abaixo de Altamira. Esse trecho do rio está condenado pela hidrelétrica de Belo Monte, que vai secá-lo com a construção de um canal de 100 quilômetros, o qual criará um atalho reto entre uma ponta e a outra da Volta Grande, até chegar à boca da usina. As comunidades ribeirinhas que vivem à sua margem, deixarão de sê-lo: não serão mais banhadas pelas águas do Xingu.

A construção de Belo Monte fez Altamira borbulhar de crescimento. Da construção civil ao transporte aquático, o preço de tudo subiu. A passagem de uma voadeira da cidade até Vila da Ressaca triplicou, de R$15 para até R$50. Chegar lá toma uma viagem de 2 horas rio abaixo.

Uma curiosidade sobre a Ressaca: ela fica dentro do município de Senador José Porfírio, porém a cidade de Altamira está entre metade e um terço da distância da Vila até a sede de Senador Porfírio. Estamos no Pará, em plena Amazônia, onde municípios podem ter a área de países.

Nos áureos tempos, a Ressaca chegou a abrigar 6 mil habitantes. Hoje, o número caiu para cerca de 200 famílias, que somam algo como 800 pessoas. Metade se dedica à extração de ouro, dividido em 6 garimpos: do Galo, Itatá, Morro dos Araras, Grota Seca, Ouro Verde e Curimã.

Ao contrário do Galo, onde os túneis atingem 380 metros de profundidade, no garimpo Morro dos Araras, a exploração é rasa, feita em buracos de até 10 metros de profundida por 20 de largura. O nome vem dos índios que ali habitaram até 1930, quando foram expulsos pela chegada da mineração. Eles lutaram, matando e afundando os barcos dos recém-chegados, que também morriam de malária. O pico da produção de ouro na região foi na década de 1960 e 70, quando a exploração era feita por empresas do ramo. Elas foram embora quando acabou o ouro fácil, próximo da superfície. Hoje, a exploração é rude, feita por garimpeiros precariamente equipados.

No Morro dos Araras, a rotina da busca do ouro é desmatar e cavar buracos com água de mangueiras de alta pressão. Um buraco é aberto a cada 2 dias. A medida que é liquifeita, a terra é retirada por uma máquina apelidada de “chupadeira”, que a joga em uma rampa. A lama desce pela rampa de madeira de alguns metros de comprimento até o seu fim, quando é filtrada por uma caixa que contém uma peneira e mercúrio. A peneira segura os resíduos que podem conter ouro, o mercúrio aglutina o metal. O líquido enlameado que passa, já contaminado por mercúrio, enche um outro buraco. Uma vez exploradas, as crateras são abandonadas.

Quando o material é composto por pedregulhos, passa pelos chamados “moinhos”, máquinas que trituram a rocha. Após essa etapa, também seguem para o mesmo tipo de rampa que termina no tanque fechado com mercúrio.

O segundo método de mineração – e o mais usado agora que o ouro é escasso –é através de galerias dentro de túneis profundos. Eles são abertos com explosivos. E de explosão em explosão, de galeria em galeria, podem chegar a 400 metros de profundidade.

Garimpeiro em buraco aberto para exploração de ouro (Morros dos Araras). Foto: Victor Moriyama.

Descida de arrepiar

A descida até lá dura 20 minutos e é feita através de um sistema tosco de cordas e roldanas, operadas pelos companheiros da superfície, que acompanham o processo por rádio. Os garimpeiros brincam que muitos se acovardam a descer. Pudera, acidentes fatais são costumeiros, a temperatura lembra a de uma sauna e a única luz da descida é uma lanterna de pilha, segura na mão e presa ao peito do garimpeiro por um cabinho. Durante o percurso, o túnel pode ter larguras de até 10 metros ou passagens estreitas de 1 metro. O destino final é uma galeria de cerca 10 metros de largura por 7 de altura, mal iluminada por lâmpadas de 60 watts. Lá, o garimpeiro enche uma grande esfera oca, de borracha grossa, capaz de suportar uma carga de pedregulhos que podem conter ouro. Essa bola é içada à superfície, e se tudo der certo, o garimpeiro volta também. Os acidentes mortais são encarados como destino divino.

Ouça ao depoimento do repórter Victor Moriyama

Para os gerentes do garimpo, o dinheiro pode ser bom. Eles ganham até R$10 mil por semana, pagos em ouro, que aqui ainda é moeda. Nada é feito de acordo com a lei. As licenças de mineração expiraram e os explosivos – que exigem permissão do exército – são usados ilegalmente. O trabalho é informal e o trabalho infantil, comum. Filho de garimpeiro entra logo para o garimpo, aprende a trabalhar, nem que seja para carregar pedras de um lado para o outro, com um carrinho de mão.

Qualquer que seja a técnica usada no garimpo, o mercúrio é onipresente. Ele é tóxico, difícil de degradar e envenena fauna, flora e gente. Os garimpeiros correm o risco de inalá-lo durante o processo de separação do ouro, uma forma grave de contaminação. O rejeito contaminado é despejado próximo aos moinho, até terminar no Xingu ou penetrar o lençol freático.

Galeria: 

Garoto trabalha carregando pedregulhos no carrinho. Para quem vive de geração em geração dentro do garimpo, o melhor para as crianças é trabalhar desde cedo e aprender os valores da vida adulta. Acima, garimpo da Grota Seca. Foto: Victor Moriyama.
Homem recolhe o rejeito líquido que sai do processo de moagem. Ele é aproveitado e vendido para o garimpo Curimã, onde será tratado com cianeto para obter qualquer resquício de ouro. Foto: Victor Moriyama.
Após as explosões, as pedras são trituradas em duas etapas. Homem alimenta máquina a diesel que faz a moagem fina (garimpo da Grota Seca). Foto: Victor Moriyama.
Os garimpeiros usam explosivos cuja compra só o Exército pode permitir. Garoto menor de idade ensaca farinha em flocos, que facilita a combustão. Foto: Victor Moriyama.
Fragmento de pedra com lascas de “ouro cru” (antes de ser fundido em barra). Foto: Victor Moriyama.
O poço típico é cavado em 2 dias de trabalho com uso da mangueira e “chupadeira”. Após a exploração o local é abandonado. Foto: Victor Moriyama.
Garimpeiros escavam com mangueira potente. A força da água revolve a terra, enquanto máquina conhecida como “chupadeira” a joga a outro lago próximo. Foto: Victor Moriyama.
Através de corda e roldana, homem controla descida de balde com terra e pedras para serem triturados no chamado “moinho”. Foto: Victor Moriyama.
Panorama a partir do morros das Araras. À frente e à esquerda, o rio Xingu, à direita, a comunidade Vila da Ressaca. Foto: Victor Moriyama.
Morro das Ararás: garimpeiro penetra no buraco de onde se retira terra na esperança de encontrar pequenas quantidades de ouro. Foto: Victor Moriyama.
Há 6 garimpos em Vila da Ressaca: Grota Seca, Itatá, Morros das Ararás, Curimã e Ouro Verde. Foto: Victor Moriyama.
Moradora da região limpa peixe pescado em riacho próximo da sua casa. Pelas pesquisas, deve estar contaminado por mercúrio. Foto: Victor Moriyama.
Bola de mercúrio: o metal é maior problema do garimpo artesanal. Ele é largamente utilizado para separar o outro da rocha. Seu quilo vale R$ 1 mil. Foto: Victor Moriyama.
Gerente do garimpo pesa a barra de ouro que recebeu como quinhão depois de uma intensa semana de trabalho. No garimpo, os pagamentos são feitos semanalmente em gramas de ouro. Hoje, em Altamira, a grama vale R$ 100. Foto: Victor Moriyama.
A fundição do chamado ouro cru é feita com maçarico e mercúrio que aglutina o metal, para, em seguida, transformá-lo na tradicional forma de barra. Foto: Victor Moriyama.
Gerente de produção do Grota Seca lava sua moto no final do expediente. O cargo pode render até R$10 mil por semana. Foto: Victor Moriyama.
Já contendo mercúrio, o rejeito é escoado em lagoa próxima ao garimpo, arriscando a contaminação do lençol freático. Garimpo Grota Seca. Foto: Victor Moriyama.
Quando ocorre um acidente fatal, o consolo é acreditar que “tinha chegado a hora dele”. Homens do garimpo encaram a morte como interferência divina. Foto: Victor Moriyama.
Nas grandes profundidades dentro dos túneis, o calor é elevado. De novo, à volta a superfície depende do precário sistema de cordas. Foto: Victor Moriyama.
No interior do túnel, garimpeiro reúne dentro da bola de borracha pedregulhos de onde o ouro será minerado. Foto: Victor Moriyama.
Durante a descida de cerca de 20 minutos, a única luz é a lanterna a pilha. Foto: Victor Moriyama.
No Galo, depois de vestir o equipamento no qual confiará a vida, homem se prepara para descer nos túneis, que chegam a 380 metros de profundidade. Foto: Victor Moriyama.
Porque o mercúrio é usado na mineração de ouro

Entre as propriedades do mercúrio, está a capacidade da forma orgânica desse elemento se acumular ao longo da cadeia alimentar, causando a contaminação de peixes e o risco de envenenamento de quem deles se alimenta , inclusive seres humanos. A intoxicação por mercúrio pode provocar danos ao sistema neurológico. As consequências podem variar desde dores no esófago e diarreia a sintomas de demência. Depressão, ansiedade, dentes moles por inflamação e falhas de memória também estão entre os sintomas. Um perigo ofuscado pelo brilho do ouro.

Para o garimpeiro, o que importa são outras propriedades do mercúrio. Primeiro, a capacidade de se unir a outros metais e formar amálgamas, o que é fundamental em garimpos, onde os minúsculos grãos de ouro precisam ser separados dos sedimentos dragados de leitos de rios ou da terra escavada. Após esse cascalho passar um período em esteiras, para que os metais se assentem e sejam separados de sedimentos mais leves, o material concentrado é jogado em betoneiras onde é misturado à agua e ao mercúrio.

Os pequenos grãos se agregam com ajuda do mercúrio e podem ser separados com mais facilidade. Em garimpos onde é usado maquinário mais pesado, como balsas, os sedimentos são dragados para dentro de misturadores, chamados pelos garimpeiros de cobra-fumando, onde se costuma também utilizar o mercúrio para evitar que partículas de ouro sejam desperdiçadas. No final, os restos contaminados são despejados no solo ou no rio.

Continue lendo “Porque o mercúrio é usado na mineração de ouro.

Leia também

Colunas
15 de maio de 2012

Panamazônia se une contra mineração ilegal

Ministros do Meio Ambiente de países amazônicos fazem acordo para controlar mineração ilegal. Ideia é positiva e a ação, necessária

Reportagens
17 de janeiro de 2012

Guiana Francesa sofre com mineração ilegal de ouro

Apesar dos esforços para controlar a mineração ilegal de ouro, alto preço do metal leva cada vez mais pessoas a praticar a atividade na porção amazônica da região.

Reportagens
22 de fevereiro de 2011

A invasão chinesa nos garimpos do Peru

Flagrante de garimpeiros chineses operando dragas de ouro de grande capacidade na Amazônia motiva ação enérgica do governo peruano. Exploração avança sobre áreas protegidas.

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta