Reportagens

Incêndio destrói um quarto da Floresta Nacional de Brasília

Queimadas devastaram 25% da unidade e origem do fogo parece ser criminosa. No país, 300 mil hectares em unidades federais já arderam.  

Nathália Clark ·
23 de setembro de 2011 · 10 anos atrás
3 mil hectares da Floresta Nacional de Brasília foram arrasados por um incêndio com indícios de ter tido origem criminosa. Foto: Nathália Clark
3 mil hectares da Floresta Nacional de Brasília foram arrasados por um incêndio com indícios de ter tido origem criminosa. Foto: Nathália Clark
Um cenário de devastação. “Desolador” é como o define o chefe dos brigadistas da Floresta Nacional de Brasília, Hélio Pereira da Silva, que atua na unidade há décadas e nunca havia presenciado tamanha destruição. Entre os dias 7 e 15 de setembro, o fogo consumiu mais de 25% da totalidade da área da reserva, que soma 9.346 hectares, e 75% da chamada Área 1, a maior e mais preservada da Flona, com 3.353 hectares e maior quantidade de remanescentes de Cerrado. Suspeita-se que o incêndio tenha sido criminoso, em represália às multas aplicadas por parcelamento de solo, uma vez que duas outras áreas da unidade possuem assentamentos de reforma agrária em quase toda sua extensão.

De acordo com a chefe da unidade, Miriam Ferreira, um levantamento feito em 2000 apontou que cerca de 1.500 pessoas habitavam a área total da Flona. Neste ano, esse número saltou para mais de 3.000. Estima-se que haja hoje cerca de 600 famílias e 2.500 pessoas somente na Área 2, onde fica o assentamento 26 de Setembro, estabelecido pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) antes da criação da unidade, em 1999. Entretanto, apenas um terço desse contingente está oficialmente contabilizado. Do total de habitantes da Flona, apenas dez possuem documento de posse do terreno.

No último dia 12, o presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Rômulo Mello, enviou ofício à Polícia Federal pedindo a investigação dos incêndios. Mesmo sem ter os resultados da perícia, a hipótese de ação criminosa foi confirmada veementemente pela Ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, ao anunciar os números do desmatamento no Cerrado, na última semana. “O incêndio na Floresta Nacional de Brasília foi criminoso, já temos provas disso”, afirmou.

Rômulo Mello declarou que a criação de uma área protegida no entorno de Brasília, onde as terras têm alto valor, implica em conflito de interesses. “São interesses imobiliários, com certeza, e conflitos na perspectiva de implementação da unidade”. Ele diz que as penas para esse tipo de crime são brandas. “Provocar incêndio em unidade de conservação prevê multas que variam de R$ 500 a R$ 5 mil. Eu, pessoalmente, julgo que são penas brandas, considerando que eles estão não só destruindo a biodiversidade, mas também provocando sérias deficiências à qualidade de vida e saúde da população”.

O brigadista Hélio da Silva considera a declaração de crime um pouco “precipitada”. Para ele, “tudo indica que foi um ato criminoso, dadas as proporções do ocorrido, mas ainda não foram encontrados indícios nem obtido o laudo pericial”. Proposital ou não, não há dúvidas de que foi o maior incêndio, em proporções, a alcançar uma unidade de conservação em todo o país no ano de 2011. Foi também a maior queimada em toda a história da Floresta Nacional.


Visualizar Floresta Nacional de Brasília em um mapa maior

Florestas, guardiãs da biodiversidade

Essa foto não é preto e branco. Essa é a cor das árvores mortas pelo incêndio. Foto: Nathália Clark
Essa foto não é preto e branco. Essa é a cor das árvores mortas pelo incêndio. Foto: Nathália Clark
A Flona de Brasília é uma das principais unidades de conservação do Distrito Federal (DF). Além de preservar a fauna e a flora do Cerrado, com lobos guarás, raposas, veados, antas, capivaras e seriemas à solta entre os troncos retorcidos de jacarandás, jatobás e buritis, ela abriga dois cursos d´água que formam a bacia do Rio Descoberto, responsável pelo abastecimento de mais da metade da população da cidade. Com as queimadas, boa parte das matas ciliares foi destruída e foram encontrados mortos dois tamanduás-bandeira, além de animais de pequeno porte como cobras e tatus. Mais de 20 apiários no interior da unidade também sucumbiram às chamas.

Entrada principal da Floresta Nacional de Brasília. Foto: Nathália Clark
Entrada principal da Floresta Nacional de Brasília. Foto: Nathália Clark
O incêndio na Floresta Nacional se soma a outros cerca de 150 focos no Distrito Federal. Não chove na região há mais de cem dias, e o clima peculiarmente seco registra umidade do ar em torno de 10% nos horários mais críticos. O índice desértico foi o que facilitou a propagação do fogo. Segundo Hélio da Silva, o vento, a baixa umidade relativa do ar e o calor de 37◦C foram os principais fatores que contribuíram para que as chamas se expandissem rapidamente. Redemoinhos de fogo eram comuns e a fumaça podia ser avistada ao longe.

Uma das maiores preocupações das brigadas anti-incêndio era evitar que o fogo atingisse o Parque Nacional de Brasília, que fica em área contígua à floresta. No entanto, Da Silva afirma que não havia essa possibilidade, pois a rodovia DF-001 se interpõe entre as duas unidades. Além disso, explica, “nós fazemos o chamado ‘aceiro negro’, ou aceiro controlado (veja Box ao fim da matéria), do lado de cá, às margens da Flona, para que o fogo que vem de fora não atinja as cercanias da floresta, e o Parque também faz o mesmo do lado deles”.

A Flona é formada de Cerrado, mas sua maior área contém plantações de pinos e eucalipto. De acordo com o brigadista, a maior parte da área de Cerrado da floresta foi queimada, mas os pinos foram a espécie mais atingida pelo fogo. “O poder de regeneração do Cerrado é incrível. Tão logo comecem as chuvas, a vegetação já começa a rebrotar. Mesmo assim, os pequenos arbustos levam em média de quatro a cinco anos para retomar sua estatura normal”, disse ele.

A unidade conta normalmente com 16 funcionários concursados e mais 15 terceirizados, além de 21 brigadistas, dos quais apenas 3 são fiscais. Miriam Ferreira afirma que é necessário aumentar esse contingente. “A floresta é dividida em quatro áreas. Nós precisamos ter pelo menos um fiscal para cada uma das quatro áreas. Como a unidade está muito perto da área urbana, é mais difícil controlar as invasões”, diz a chefe da Flona, cujos limites fazem fronteira com as rodovias federais 070 e 251, e com a DF-001 e DF-240.

“Depois que o ICMBio intensificou a fiscalização contra o avanço dos assentamentos irregulares, os problemas aumentaram. Esse povo está altamente descontente”, diz Miriam. Segundo ela, somente neste ano, mais de 80 pessoas foram autuadas por construir irregularmente dentro da Flona. Além da notificação, elas recebem multas que podem chegar a até R$ 200 mil. Os processos administrativos são encaminhados para o Ministério Público. Paulo Carneiro, coordenador de proteção ambiental do ICMBio em Brasília, afirmou que grande parte das pessoas que vivem na área deveria ter sido retirada há mais de dez anos.

Fogo nas unidades federais

No Brasil, em 2011, a área total de incêndios apenas em unidades de conservação federais foi de 300 mil hectares. Foto: Nathália Clark
No Brasil, em 2011, a área total de incêndios apenas em unidades de conservação federais foi de 300 mil hectares. Foto: Nathália Clark
Em 2011, mais de 300 mil hectares já foram queimados nas unidades de conservação federais. Os números são melhores se comparados ao dado de 1,67 milhão de hectares incendiados em 2010, uma área quatro vezes maior do que a atual.

De acordo com o Corpo de Bombeiros, as queimadas registradas no DF entre o dia 16 de maio deste ano, data do primeiro incêndio na estação de seca, até o último dia 15 destruíram uma área de 32 mil hectares de Cerrado. A área total consumida é 3,5 vezes maior que a afetada por incêndios no ano passado, quando 9 mil hectares de Cerrado arderam. Imagens de satélite mostram áreas queimadas na Floresta Nacional, área da Aeronáutica, Fazenda Água Limpa e Estação Águas Emendadas.

Saiba como fazer um aceiro controlado”

O aceiro feito com fogo controlado deve seguir as seguintes dicas, para evitar grandes danos ao meio ambiente:

1. Fazer aceiramento com o solo úmido, ainda no mês de abril, para evitar grande mortandade das plantas e dos organismos do solo.

2. Iniciar o aceiro pelo topo dos morros, sugerimos começar à tarde, por volta das 17:00 h, hora em que o vento cessa.

3. Com a prática, pode-se usar o vento para ajudar a abrir aceiros, mas essa técnica é bastante perigosa, deve ser evitada por aqueles que não a dominam.

4. O aceiro deve ser aberto à medida que as águas vão baixando, gradativamente, acompanhando a declividade do terreno, até chegar aos campos úmidos e à mata ciliar, que deverá ser por meados de junho, quando o solo ainda está úmido e não há grande quantidade de folhas secas. Se deixar passar essa época (após o mês de junho), essa prática pode se tornar bastante danosa ao meio ambiente, causando desequilíbrio na fauna e flora, no solo e queimando as matas.

5. O aceiro feito até junho dá o tempo necessário para a vegetação crescer e, quando chega a época da chuva, o solo já está coberto por uma boa quantidade de plantas (desde que não haja excesso de pastoreio), amenizando a erosão.

6. Os pecuaristas podem colocar o gado em campo úmido apenas após 30 dias da queimada, para a vegetação poder crescer. Já em áreas de cerrado, deve-se esperar mais tempo, até que a brota do capim atinja 30 cm.

7. É importante fazer o aceiro da propriedade por dentro da cerca, para evitar que a fauna silvestre e doméstica fique exposta aos passantes, ao comerem a brota do capim nessa faixa. Os aceiros poderão ter larguras variáveis, de 2 a 30 metros, de acordo com a direção dos ventos. Quando o vento costuma soprar em direção ao aceiro, é necessário que este seja mais largo, de 20 a 30 metros, para não se correr o risco de fagulhas  atravessá-lo; quando o vento costuma soprar na direção contrária ao aceiro, pode-se fazê-lo mais estreito.

O número mínimo de pessoas que deverão estar trabalhando no aceiro com fogo controlado é de três e cada uma delas deverá estar equipada com um abafador.

Do equipamento deverão contar:

•    2  abafadores
•    1 roçadeira costal
•    roupas de algodão – camisas de mangas compridas e calças compridas
•    bota de borracha ou couro

Obs: Pode-se fazer uso de um lança-chamas nos lugares onde o fogo não queima e de uma bomba d’água, para apagar ou controlar melhor o fogo.

Cabe lembrar que técnicas que utilizam a enxada e o trator são pouco recomendáveis, sendo utilizadas em áreas restritas, pois propiciam o aparecimento de erosões muitas vezes difíceis de solucionar.

Para saber mais acesse: http://www.redeverde.net/index.php

  • Nathália Clark

    Nathalia Clark é jornalista na área de meio ambiente, desenvolvimento sustentável, mudanças climáticas, justiça social e direitos humanos.

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