Chilenos tentam impedir a construção de represas na Patagônia

Sabrina Bogado*
quarta-feira, 8 junho 2011 17:00
Manifestantes no Dia Mundial de Ação contra as Represas reúnem-se em um dos locais onde será construída barragem do projeto Hidroaysen. Crédito: Victor Formantel
Manifestantes no Dia Mundial de Ação contra as Represas reúnem-se em um dos locais onde será construída barragem do projeto Hidroaysen. Crédito: Victor Formantel
Santiago, Chile – Uma sequência de manifestações que começaram no dia 21 de abril estão tomando as ruas de Santiago e colocando o tema ambiental como pauta do governo chileno. O motivo é a construção do megaprojeto Hidroaysen, que visa instalar cinco represas na Patagônia Chilena e uma linha de transmissão com 2.254 km de extensão, que cruzaria o país até a capital.

Em todas as regiões chilenas há manifestações que já chegaram a reunir até 40 mil pessoas. Os protestos têm sido reprimidos pela policia e manifestantes foram presos. O tema ganhou repercussão internacional depois da matéria do New York Times “Mantenham selvagem a Patagônia chilena”, no dia 24 de maio, e reascendeu a discussão sobre a real necessidade da implantação de hidrelétrica em um país que tem capacidade para ser um dos lideres mundiais em geração de energia alternativa.


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O movimento “Patagonia Sem Represas” existe desde 2007 e reúne atualmente mais de 70 organizações chilenas e internacionais. A Diretora da ONG Chile Sustentável , Sara Larrain, integrante da iniciativa, afirma que “no final do mandato do presidente Lagos, Hidroaysen foi proposto por primeira vez como uma alternativa à crise energética que existia no país, o que constituía uma campanha de desinformação brutal  para os cidadãos”.

O documento “São necessárias represas na patagônia? – uma análise do futuro energético chileno”, elaborado em conjunto pelas organizações do movimento, demonstra que a mesma quantidade de energia que será gerada em Hidroaysen até 2025, prazo estipulado para a conclusão do projeto, poderia ser gerada através de meios alternativos com matrizes eólicas, solares e geotérmicas, inclusive com menor custo de produção.

“O projeto de Hidroaysen que foi aprovado não foi legitimo e o novo presidente (Sebastian Piñeira) deveria primeiro consertar as distorções do mercado elétrico chileno antes de pensar novas possibilidades, já que a concretização de Hidroaysen uniria os dois sistemas de energia atual do Chile, entregando a geração energética a um monopólio”, explica Sara.

Energia no deserto do Atacama

Manifestação em Santiago no último dia 21 de maio. Crédito:www. ecosistesmas.cl
Manifestação em Santiago no último dia 21 de maio. Crédito:www. ecosistesmas.cl

Segundo Juan Pablo Orrego , coordenador internacional do Conselho de Defesa da Patagônia, “o projeto não é só desnecessário para o Chile, é também uma grande perda patrimonial e de valor país”. O movimento afirma que o Chile tem potencial para ser líder mundial em produção de energia renovável, já que só o deserto do Atacama poderia produzir tanta energia solar que seria suficiente até para exportá-la.

As manifestações em Santiago tentam pressionar o governo a rever o projeto e começar a considerar as propostas publicadas no estudo de Patagônia Sem Represas. Porém, a resposta ao movimento popular está sendo marcada por um excesso de uso de forcas policiais contra os manifestantes, o que acarretou inclusive, na prisão de Sara Larrain, com sua filha e duas companheiras de trabalho que se manifestavam pacificamente. Ao sair do calabouço onde ficou por 24 horas ela chamou atenção do governo declarando que “as manifestações em espaços públicos é um direito do estado democrático e que o governo não pode condenar a cidadania a espaços fechados”.

O projeto de HidroAysen vai formar um complexo de cinco represas e atingir a dois rios, O rio Baker, que é o rio chileno mais caudaloso, e o Pascua, que é o desague natural do Lago O’higgins, importante reserva de água doce compartida entre o Chile e a Argentina. A região de Aysen é conhecida como “Reserva de vida” e o chile é considerado  hoje a segunda reserva de água doce mais importante do planeta. Aysen conserva espécies e animais na região que podem correr o risco de extinção, como o Helmut, o cervo que é o símbolo do país. A área que será  afetada inclui locais de vales férteis, que são escassos na região e quando existem são habitados por inúmeras famílias de comunidades tradicionais chilenas que dependem deste ecossistema para sobreviver.

A interrupção dos rios vai também impedir que chegue ao mar milhares de microorganismos oriundos desses vales e que serviriam de alimentos para organismos fitosinteticos, como milhares de fitoplanctons e algas, essenciais para captura de carbono da atmosfera e a redução do aquecimento global através dos oceanos.

Apesar de, em extensão, os 5.900 hectares inundados parecerem pouco, as cifras mascaram a realidade, já que a área afetada é composta de imensas paredes rochosas que permitiriam uma profundidade imensa no lago colocando em risco uma infinidade de espécies presentes nos bosques e que tem como habitat especifico os picos rochosos patagônicos.

*Sabrina Bogado é jornalista formada na FACHA-RJ, Gestora Ambiental (UFRJ/PNUMA) e trabalha com jornalismo sócio-ambiental desde 2003. É fundadora do Instituto Ecologia Interior e presta consultoria para diversas organizações do terceiro setor na área de projetos e comunicação. Atualmente mora em Santiago, no Chile.
 
 

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