Energia limpa gerada com esterco

Flávia Werlang*
quinta-feira, 10 março 2011 13:59

Esterco acumulado para coleta de biogás na Cooperativa Aurora (foto: Gter Energias Renováveis )
Esterco acumulado para coleta de biogás na Cooperativa Aurora (foto: Gter Energias Renováveis )

Videira (SC)
– O estado de Santa Catarina possui um rebanho de 6,2 milhões de porcos, um dos maiores do mundo. O grande desafio dos suinocultores do oeste catarinense tem sido buscar um destino sustentável para o dejeto que muitas vezes são jogados diretamente nos mananciais, contaminando os rios e o lençol freático, colocando em risco o abastecimento de água. A solução, segundo os especialistas, é gerar energia com as fezes dos animais.

“A produção de biogás é feita a partir da decomposição dos dejetos em um biodigestor anaeróbico (reator químico que, através da ação de bactérias dentro de determinados limites de temperatura, umidade e acidez, transforma a matéria orgânica em gás metano (CH4) gerando, assim, energia elétrica ou térmica”, explica Paulo Armando Victória de Oliveira, pesquisador da Embrapa Suínos e Aves.

Oliveira explica que sem o biodigestor, os dejetos são jogados nas esterqueiras, produzindo mau odor e contribuindo para o efeito estufa. Ele lamenta, no entanto, que no Brasil a iniciativa ainda esteja engatinhando. São, ao todo, 2.500 biodigestores espalhados pelo país e somente 5% geram energia.

Santiago Ibarra, diretor da Gter-Energias Renováveis: pequenos podem se unir (foto: Flávia Werlang)
Santiago Ibarra, diretor da Gter-Energias Renováveis: pequenos podem se unir (foto: Flávia Werlang)

Segundo ele, na região predominam as pequenas propriedades, o que inviabiliza a geração de energia. “É necessário um grande número de suínos para produzir biomassa capaz de ativar o gerador. O menor gerador tem capacidade de 10 KVA e consome 12 m³/h. Precisa de pelo menos cinco mil suínos para isso”, explica.

Santiago Ibarra, diretor da Gter-Energias Renováveis, aponta outra alternativa para a aplicação de biodigestores nas pequenas propriedades. Ele explica que o pequeno criador tem problemas por causa do baixo consumo de energia na região, mas parcerias poderiam ser criadas.

“Se ele produz uma determinada quantidade de energia e não usa na sua atividade, ele pode ter um vizinho que usa. Podemos pensar de forma mais ampla e tratar o caso do pequeno produtor em um contexto mais amplo que só a propriedade dele, tendo assim, um retorno financeiro e contribuindo para o equilíbrio do projeto”, afirma o especialista em energias renováveis.

Estes pequenos produtores não precisariam, portanto, se ater em um só tipo de energia. Eles poderiam aproveitar a energia térmica, mecânica ou elétrica. Santiago explica que o produtor, principalmente no ciclo de engorda, tem um baixíssimo consumo de energia nesta região, mas pode ter um vizinho que cria aves e está gastando lenha ou combustível fóssil para aquecer o aviário e precisa de energia.

“ A energia renovável é muito sensível a pequenas quantidades de energia. Um watt é importantíssimo em um projeto. Não precisamos fazer do produtor de suíno um produtor de energia para vender para a rede. Ele tem que receber na sua propriedade tecnologias e soluções facilmente adaptáveis em sua atividade. Vai ser um complemento da sua atividade”, argumenta Santiago, que faz projetos de sustentabilidade para a Cooperalfa Aurora há dois anos.

Com o resíduo excedente o pequeno proprietário pode fazer unidade de compostagem. “Assim, ele gera adubo orgânico e ainda consegue exportar para outras propriedades. Isso é viável economicamente”, afirma Oliveira.

Casos de sucesso

Vapor gerado com a queima do gás metano (foto: Gter Energias Renováveis )
Vapor gerado com a queima do gás metano (foto: Gter Energias Renováveis )

Em Videira, no meio-oeste de Santa Catarina, a Granja São Roque, com 47 mil suínos está chamando a atenção pela ousadia do proprietário. Nelso Pasqual investiu R$ 3,5 milhões desde 2004 para transformar metano em energia elétrica.

Segundo Pasqual, os suínos produzem 4.500m³/dia de metano, gás de efeito estufa 34 vezes mais potente que o gás carbônico (CO2)

A Granja São Roque tem registro na Agência Nacional de Energia Elétrica para produção de até 1 MW e reduzirá até 9.154,04 tCO2e/ano.O resultado foi um contrato com a Celesc (Centrais Elétricas de Santa Catarina).

De acordo com Michel Becker, diretor técnico da Celesc geração, o contrato teve inicio em junho de 2010, e hoje a granja trabalha com 0,3 MW/mês do 1 MW/mês que é capaz de produzir. Esta energia abastece toda a demanda da granja e mais 60 residências (o cálculo da Celesc é que cada residência utilize em torno de 70 KW).

“A granja tem hoje cinco biodigestores e trabalha com três grupos de geradores. Estamos estudando a viabilização de produzir o potencial máximo que a granja está apta a produzir”, disse Becker. A Coopercentral Aurora é a primeira indústria da região a utilizar um biodigestor na sua granja. Santiago Ibarra, que implantou o projeto, explica que o projeto entrou em operação há dois anos. O biodigestor gera energia elétrica, térmica e vapor, que são reutilizados na própria granja.

A grande novidade da Aurora é a utilização do biogás no lugar do gás GLP (gás liquefeito de petróleo) na flambagem das carcaças de suínos. “O impacto ambiental gerado pela suinocultura tem sido um grande desafio para Santa Catarina manter sua estrutura de produção de alimentos”, afirma Mário Lanznaster, presidente da Aurora.

Créditos de Carbono

O pesquisador da Embrapa, Paulo Armando Victória de Oliveira, afirma não ter visto nenhum produtor que investiu em biogás ter sido beneficiado com créditos de carbono, uma espécie de compensação financeira que os países desenvolvidos pagariam pela redução da emissão dos gases de efeito estufa. Para ele, o produtor que investir no sistema, deve pensar na lucratividade envolvida através da energia elétrica gerada e na melhoria das condições ambientais.

 Santiago Ibarra afirma que, apesar de seus projetos serem arrojados em termos de sustentabilidade, não foi atrás dos créditos de carbono.

* Flávia Werlang é jornalista free-lancer em Santa Catarina

17 comentários em “Energia limpa gerada com esterco”

  1. Bom dia Senhores … sou proprietario de uma granja de postura comercial venho atraves deste e mail procurar informaçoes dos Senhores para ver se seria possivel produzir energia atraves do dejetos das aves tenho equivalente a 20 m³ por dia, pois como anda o preço da energia temos que procurar alternativas , preciso saber se isso seria possivel e se existe uma linha de credito para essa finalidade.Fico no aguardo.

    att.OSMAR RONCHI

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  2. Estamos desenvolvendo um projeto onde pensa em utilização de energia gerada por biodigestor, mas é um projeto que envolve o reaproveitamento de outros resíduos como por exemplo vaca, porco e a possibilidade de vegetais, exite uma cartilha para poder ter uma orientação em respeito do desenvolvimento da técnica.

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  3. boa noite meu nome e DARIO DIAS DE CASTRO E TRABALHO EM UMA GRANJA DE PORCOS
    meu patrao esta em crise mas quero lhe perguntar na granja tem 6.000 porco entre pequenos e grandes
    como posso aproveitar o churume e fezes dos animais e reverter em dinheiro pro dono sem q ele gaste muito
    pois moramos e trabalhos
    queremos manter nossos empregos
    mas tambem nosso patrao e gente fina
    pois q ele possa economizar na conta de luz e reaproveitar a agua

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  4. Boa noite Senhores, sou proprietário de granja de postura no Rio Grande do Sul, trabalho hoje com 10.000 galinhas, me interessou esse projeto gostaria de saber mais, de produzir a energia necessária para atender a demanda da granja e também aproveitamento de resíduos tanto comercial como para a utilização na propriedade. Meu contatos:
    Atenciosamente,
    Amadeu Benincá
    54-99744038
    [email protected]
    Guaporé – RS

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  5. Bom dia!!!Estou fazendo um trabalho sobre geração de energia atraves do esterco bovino. Teria algum contato para que eu pudesse ter mis informações°?
    Muito obrigada!!

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    • Olá Marina, tb estou estudando a viabilidade da geração de energia com esterco bovino. Você conseguiu mais informações sobre isso? Vou deixar meu zap, se quiser, entre em contato pra gente trocar informações. 34.99258.2185 MG

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  6. Bom dia !!! Sou estudante de Engenharia Ambiental, estou maravilhada pelo seu trabalho e sua força de vontade, principalmente por se tratar de um pais de poucos incentivos na produção de energia renovável e sustentável…Parabéns.

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  7. vou comecar a trabalhar numa granja ela tem tres aviarios 20vacas de leite e55 porcos sera que produz exterco suficiente para uma utilizasao de energia ou outros meio de utilizar esses dejetos no aumento da renda e diminuisao de gastos meu numero e 51996621902

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  8. Olá, estou realizando um projeto de TCC semelhante a esse assunto. Porém estou com dúvidas sobre o processo. Algum proprietário ou empresa poderia me esclarecer algumas dúvidas. Sou de Curitiba_Paraná, se alguém tiver alguma propriedade com o biodigestor gostaria muuuuito de conhecer. Desde já agradeço muito !

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