Reportagens

Balanço da busca global por anfíbios

Expedição em busca de anfíbios desaparecidos chega ao fim com poucas redescobertas, um alerta para a rapidez das mudanças no planeta.

Redação ((o))eco ·
25 de fevereiro de 2011 · 11 anos atrás
Durante 5 meses a Conservação Internacional (CI) junto com o Grupo de Especialistas em Anfíbios da União Mundial para a Conservação da Natureza (IUCN) procurou documentar o paradeiro e o status da sobrevivência das espécies de anfíbios ameaçadas de extinção, mas ainda com possibilidades de serem encontradas em alguns lugares remotos.

Conforme noticiado pelo OEco, o objetivo da expedição foi buscar cem espécies de anfíbios (entre sapos, salamandras, perereca e cecílias) que não eram vistos há pelo menos duas décadas. Depois de percorrer 21 países em 5 continentes e mobilizar 126 pesquisadores, a busca pelos sapos perdidos chega parcialmente ao fim, já que na Índia a iniciativa continuará até o fim do ano.

Foram reencontradas 15 espécies: 4 destas constavam na lista inicial e as outras 11 apesar de não estar na lista inicial também não eram vistas havia duas décadas. Três novas espécies ainda não documentadas foram encontradas na Colômbia. No Brasil, a rãzinha-das-pedras da Mata Atlântica Cycloramphus valae continua desaparecida, em compensação, após quase dez anos sem ser observado, o sapo Thoropi saxatilis foi reencontrado pela expedição brasileira.

Os números parecem modestos, mas servem como um aviso: os anfíbios são muito sensíveis aos desequilíbrios ambientais e seu desaparecimento é um alerta para a velocidade das mudanças, inclusive climáticas. 30% de espécies ameaçadas de extinção são anfíbios, o que os coloca no topo da lista como os vertebrados mais ameaçados do planeta.

Espécies redescobertas

No México: Salamandra de caverna Chiropterotriton mosaueri, vista pela última vez em 1941. ©Sean Rovit
No México: Salamandra de caverna Chiropterotriton mosaueri, vista pela última vez em 1941. ©Sean Rovit
Na Costa do Marfim: Rã marrom do Monte Nimba Hyperolius nimbae, vista pela última vez em 1967. ©Ngoran German Kouame
Na Costa do Marfim: Rã marrom do Monte Nimba Hyperolius nimbae, vista pela última vez em 1967. ©Ngoran German Kouame
Na República Democrática do Congo: Rã marrom de Omaniundu Hyperolius sankuruensis vista pela última vez em 1979. ©Kos Kielsgat
Na República Democrática do Congo: Rã marrom de Omaniundu Hyperolius sankuruensis vista pela última vez em 1979. ©Kos Kielsgat
No Equador:  Sapo do rio Pescado (Atelopus balios) é considerado como criticamente ameaçado de extinção, segundo a Lista Vermelha da UICN. Foi visto pela última vez em abril de 1995. ©Eduardo Toral-Contreras
No Equador: Sapo do rio Pescado (Atelopus balios) é considerado como criticamente ameaçado de extinção, segundo a Lista Vermelha da UICN. Foi visto pela última vez em abril de 1995. ©Eduardo Toral-Contreras

Campanha na Índia

Cinco espécies foram redescobertas como parte da campanha “Perdidos! Anfíbios da Índia”, coordenada pela Universidade de Delhi, pela Conservação Global da Vida Selvagem, pelo Museu de História Natural, A V College, Grupo de Especialista de Anfíbios e CI. Espera-se que a campanha continue até o final de 2011.

©SD Bijou
©SD Bijou

Sapo Raorchestes chalazodes, visto pela última vez em 1874. Esse sapo, de um impressionante verde fluorescente, possui coxas azuis-cinzentas e pupilas pretas com manchas douradas (traços extremamente incomuns entre anfíbios) tem uma vida reservada, possivelmente dentro dos bambus durante o dia. Considera-se que as espécies não têm um estágio de girino de nado livre, mas completam o desenvolvimento dentro do ovo. Redescoberto por Ganesan R, Seshadri KS e SD Biju. Está na lista da IUCN como Criticamente Ameaçada de Extinção.

©Anil/SD Bijou
©Anil/SD Bijou

Sapo Ramanella anamalaiensis redescoberto após 73 anos. Um sapo com boca estreita, cujo nome foi inspirado nas colinas Anamalai ao sul do Ghats Ocidental, onde foi descoberto (e visto pela última vez) em 1937. Tem pintas amarelas na parte superior e pintas brancas espalhadas na parte inferior. O exemplar original se perdeu e não houve nenhuma informação confirmada sobre a espécie até sua redescoberta por SP Vijayakumar, Anil Zachariah, David Raju, Sachin Rai e SD Biju. Durante as monções, o sapo canta alto nas áreas pantanosas, mas se esconde no resto do ano embaixo de pedras e troncos no chão da floresta ou em buracos nas árvores. Consta da lista da IUCN como deficiente em dados.

©SD Bijou
©SD Bijou

Sapo Amolops chakrataensis, conhecido apenas pela descrição original de um exemplar em 1985. É caracterizado por uma cor verde clara no dorso com minúsculos pontos escuros. O sapo parece ser raro e requer proteção do seu hábitat para garantir sua sobrevivência. Consta da lista da IUCN como deficiente em dados.

©SD Bijou
©SD Bijou

Sapo Micrixalus thampii, visto pela última vez há 30 anos e redescoberto em uma lata de lixo em Silent Vallery em uma expedição científica após o início da campanha LAI em Delhi. A equipe observou ainda vários outros indivíduos próximos a um riacho sob a liteira, em coberturas florestais fechadas na bacia do rio Kunthi. Consta da lista da IUCN como deficiente em dados.

©SD Bijou
©SD Bijou

Sapo Micrixalus elegans, conhecido apenas pela descrição original baseada em uma coleta de 1937. O exemplar original foi perdido e a espécie não havia mais sido detectada até sua redescoberta depois de 73 anos por KV Gururaja, KP Dinesh e SD Biju no leito de um riacho da floresta na área de coleta original. O sapo vive em riachos de florestas e canta na beira dos rios onde provavelmente procria. Consta da lista da IUCN como deficiente em dados.

Outras surpresas

No Haiti, seis espécies “perdidas” foram redescobertas. Elas não estavam na lista inicial das cem e foram encontradas durante as buscas pelas outras espécies. Não havia informações de que haviam sido vistas nas últimas duas décadas.

Sapo terrestre ventríloquo (Eleutherodactylus dolomedes) – visto pela última vez em 1991.
Sapo terrestre ventríloquo (Eleutherodactylus dolomedes) – visto pela última vez em 1991.
Sapo de Mozart (Eleutherodactylus amadeus) – visto pela última vez em 1991.
Sapo de Mozart (Eleutherodactylus amadeus) – visto pela última vez em 1991.
Sapo terrestre La Hotte (Eleutherodactylus glandulifer) – visto pela última vez em 1991.
Sapo terrestre La Hotte (Eleutherodactylus glandulifer) – visto pela última vez em 1991.
Sapo macaya do peito pintado (Eleutherodactylus thorectes) – visto pela última vez em 1991.
Sapo macaya do peito pintado (Eleutherodactylus thorectes) – visto pela última vez em 1991.
Sapo terrestre coroado (Eleutherodactylus corona) – visto pela última vez em 1991.
Sapo terrestre coroado (Eleutherodactylus corona) – visto pela última vez em 1991.
Sapo macaya escavador (Eleutherodactylus parapelates) – visto pela última vez em 1996.
Sapo macaya escavador (Eleutherodactylus parapelates) – visto pela última vez em 1996.

Novas descobertas

Na Colômbia, não foi redescoberta nenhuma espécie, mas três espécies possivelmente novas para a ciência foram documentadas (anunciadas em novembro de 2010).

Nova espécie de sapo– gênero Rhinella
Nova espécie de sapo– gênero Rhinella
Nova espécie de perereca – gênero indeterminado
Nova espécie de perereca – gênero indeterminado
Nova espécie de rã – gênero Silverstoneia
Nova espécie de rã – gênero Silverstoneia

Os 21 países visitados durante a expedição Busca pelos Sapos Perdidos foram África do Sul, Austrália, Brasil, Camarões, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, Guatemala, Haiti, Índia e Indonésia, além de Costa do Marfim, Libéria, Malásia, México, República Democrática do Congo, Ruanda, Togo, Venezuela e Zimbábue. Mais informações podem ser encontrados no site www.conservation.org/lostfrogs. (Daniele Bragança)

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Em busca de anfíbios “perdidos”

Sapos são redescobertos no Haiti

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Comentários 1

  1. Cláudio Maretti diz:

    Boa matéria, Duda Menegassi! Equilibrada, correta e necessária. Parabéns e obrigado!

    Ajustes nessas unidades de conservação são necessários desde a sua criação e a necessidade só aumenta quando os ajustes não são aplicados.
    Há estudos e diálogos nesse sentido há tenpos.

    Para ajustes em unidades de conservação é necessário estudos, análise e propostas técnicas, compensação da conservação e diálogo para compor soluções.

    A posição técnica do ICMBio é consistente e adequada.

    A Floresta Nacional de Brasília tem algumas áreas com valor ecológico não tão importante, relativamente, e desde sua criação. Mas há áreas importantes para recuperação e para visitação (ou uso público), como a Área 1, com importante envolvimento da sociedade local e boa história e grande potencial de voluntariado. E há áreas importantes para recuperação, ordenamento da ocupação e proteção dos recursos hídricos, como a Área 4 e grande parte da Área 3. Faz todo sentido mudar a categoria da Reserva Biológica de Contagem para parque nacional, promovendo a conservação com a visitação (ou uso público), de forma integrada com o Parque Nacional de Brasília. Faz todo sentido ampliar a conservação de áreas de maior valor ecológico (inclusive como compensação pela redução de outras áreas).

    Mas é muito importante acompanhar com atenção o processo no Legislativo, pois há vários parlamentares só interessados em especulação imobiliária e populismo com lotes e moradias (como em toda a história do Distrito Federal).