BR 319: impactos além do Amazonas

Andreia Fanzeres
segunda-feira, 16 novembro 2009 18:17
Barni nas estradas do sul de Roraima: semelhanças
com própria história (foto: arq. pessoal)

É comum constatar que, em vez de progresso, as ondas migratórias do Sul para o Norte do país têm destruído a natureza e perpetuado a pobreza para a maioria. O Brasil está prestes a dar continuidade a este modelo ao asfaltar a BR-319, que liga Porto Velho a Manaus, incentivando a abertura de novas vias e o assentamento de populações numa velocidade mais rápida do que o governo é capaz de se fazer presente. Em outubro, um novo estudo revelou que além dos impactos à zona mais preservada de toda a Amazônia, o sul de Roraima pode ter as taxas de desmate aumentadas entre 18% e 42% até 2030 em função de um maior fluxo populacional proveniente do arco do desmatamento. Isso acarretará em uma elevação nas emissões por desflorestamento entre 19% e 42% e que ameaça diretamente milhares de hectares de florestas intactas naquela região.

Quem se debruçou sobre a construção de cenários mais ou menos impactantes para o sul roraimense fala com autoridade do fenômeno migratório na Amazônia. Paulo Eduardo Barni, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), deixou Santa Catarina com a família em 1977, na esperança de melhorar de vida em Colorado do Oeste, no sul de Rondônia. “Eu sou produto desse movimento. Naquela época meu pai sonhava em construir uma fazenda, ganhar dinheiro, mas depois de cinco anos nossos sonhos foram por terra”, lembra Barni. As dificuldades motivaram a família a vender o pequeno sítio e mudar para Cuiabá em 1983, e, administrando um hotel, eles continuaram convivendo com quem se aventurava a colonizar Rondônia, Roraima, o norte de Mato Grosso e o sul do Pará.

Ao trabalhar com comércio nas frentes de desmatamento da Amazônia, a família de Barni vivenciou as penúrias de quem precisa se deslocar por estradas de terra que ficam intransitáveis no período de chuvas. “Eu sei como a reconstrução da estrada é importante para quem vive lá, mas é preciso resolver a questão fundiária para que haja desenvolvimento no verdadeiro sentido, não um desenvolvimento para poucos que acabam abarcando o terreno dos menos favorecidos, que ficam obrigados a continuar a migração”, descreve Barni.   

Na pesquisa para sua dissertação de mestrado no INPA, além de cálculos, Barni fez viagens a campo para as áreas de influência das estradas BR-210 (que corta Roraima de leste a oeste) e BR-174 (que atravessa o estado de sul a norte para ligar Manaus à Venezuela). Lá, reviu em 2008 um filme que conheceu nos anos 70. “Eu pude observar que já está ocorrendo uma espécie de ida silenciosa. Pessoas que entrevistei deixaram Rondônia, venderam seus lotes e chegaram ao sul de Roraima. Compraram uma área de três a quatro vezes maior, perto da sede municipal, às vezes sobrando dinheiro para adquirir um veículo. As pessoas vão para lá, montam hotel, restaurante, bar, e compram terras próximas às vicinais. Foi o que vi, mas ainda não existem muitos estudos sobre isso”, observou.

Mais moradores e impostos para um estado tão pouco povoado (cerca de 330 mil habitantes) são os maiores objetivos do governo hoje. Depois do fechamento das principais áreas de garimpo, no início dos anos 90, a administração local incentivou fortemente a migração para o Roraima com a criação de projetos de assentamento. Estima-se que entre 1996 e 2000, cerca de 50 mil pessoas tenham se mudado para o estado, 20 mil dos quais para a porção sul. Justamente ali, quase a totalidade das florestas é primária. No sul do estado, o potencial madeireiro foi avaliado em 1975 em mais de 200 mil metros cúbicos, grande parte em áreas de fácil acesso através das rodovias. Isso, somado a terras mais baratas e solos mais férteis, podem tornar a região bastante atrativa após a reconstrução da BR-319.

 
Caminhões com placa de Rondônia com toras de madeira nativa circulando por estradas em Roraima (fotos: Paulo Barni)


Cenários de desmate em elevação

Apesar das más condições da BR-319 hoje, Rondônia e Roraima já têm uma relação que vai além da semelhança gráfica. É comum encontrar caminhões madeireiros com placa de Rondônia circulando por Roraima no período em que ao sul do Equador já é temporada de chuva. Os indícios de que o desmatamento está se aquecendo por ali, ao contrário da tendência de queda do restante da Amazônia, podem ser verificados no monitoramento feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). “Em 2001 houve um índice elevado de desmatamento, depois ele caiu e a partir de 2006 ele voltou a subir até 2008”, diz Barni.

O término da construção das usinas de Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira, em 2012, deve intensificar a tendência de migração. São esperados 100 mil novos moradores em Porto Velho (um terço da população local atual) por causa dos empreendimentos, que depois de concluídos não vão absorver tanta mão-de-obra. Hoje, aliás, os jornais rondonienses já apontam que a cidade não está conseguindo suportar a pressão migratória. E os atuais migrantes não são fruto da concentração fundiária no Sul do país, mas expulsos do arco do desmatamento pela expansão da pecuária e do agronegócio. “Parte dessas pessoas vai se fixar ao longo da BR-319, mas como existem restrições de compra e venda de áreas durante as obras e a presença de unidades de conservação, a tendência é que também haja um inchaço em Manaus e, como ela é conectada com Boa Vista por estrada asfaltada, uma parte das pessoas vai migrar mais ao norte, para Roraima”.

Com o uso de mapas de uso da terra fornecidos pelo sistema Prodes, do INPE, Barni trabalhou com um modelo de dinâmica do desmatamento chamado Agroeco, desenvolvido pelo INPA, para construir os cenários mais otimistas e mais pessimistas para o sul roraimense. A partir de um mapa inicial de 2007, o pesquisador inseriu variáveis no modelo (criação de unidades de conservação, construção e proximidade de estradas, etc.) para montar mapas de probabilidade e observar que áreas de florestas tendem a se transformar em áreas de desmatamento ao longo dos anos, até 2030. Chegou a quatro cenários, dois deles considerando a tendência atual dos acontecimentos e outros dois considerando investimentos em conservação.


Cenários para o sul de Roraima em 2030

Cenários Desmate acumulado até 2030 (hectares) Emissões de carbono 2007-2030 (toneladas de carbono)  
Sem BR-319 (business as usual) 715.250 56,4 x 106  
Com BR-319 (business as usual) 858.639 80,3 x 106 Pior cenário
Sem BR-319 com conservação 654.513 46,0 x 106 Melhor cenário
Com BR-319 com conservação 775.888 67,2 x 106  


Baseado no que observamos, até o cenário mais pessimista, de aumento de 42% do desmatamento, é considerada uma previsão conservadora. Se não agirem com severidade, resolvendo a questão agrária e coibindo a exploração madeireira, pode ocorrer um desastre no sul de Roraima”, alerta Barni.

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Caminho livre ao coração da Amazônia

Multimídia
Geonotícia – BR 319
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