Reportagens

Colheitas e regeneração dos pinheirais

Impactos da coleta de pinhões são desconhecidos, mas salvar e ampliar matas com araucárias é fundamental, também para a economia do interior catarinense. Quem pagará a conta?

Aldem Bourscheit ·
16 de junho de 2009 · 12 anos atrás
Milhões de sementes de araucária são retiradas da natureza a cada inverno. Foto: Aldem Bourscheit.
“Dos pinheirais é que vive a indústria nacional do pinho e derivados. Caso o ritmo da exploração se mantenha sem alteração, a vida dos pinheirais catarinenses talvez se prolongue apenas por mais 50 anos”, por Lindalvo Bezerra dos Santos, em Tipos e Aspectos do Brasil, IBGE, 1966.

Conforme especialistas da área biológica, florestas com araucárias em bom estado abrigam até 375 espécies de animais – 256 de aves, 61 de mamíferos e 58 de répteis e anfíbios. O pinheiro-brasileiro é uma das 250 espécies das matas com araucárias e uma das vinte mil plantas conhecidas da Mata Atlântica. Tamanha riqueza depende de um intrincado jogo onde fauna e vegetação atuam lado a lado na formação e manutenção das florestas. “Em matas de araucárias, até 90% das plantas precisam da fauna para dispersar suas sementes”, disse Fernanda Thiesen Brum, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.Como mostramos na primeira parte desta reportagem (veja aqui), a colheita de pinhões tem trazido renda para centenas de famílias no planalto catarinense, mantendo pessoas no campo e remanescentes de florestas com araucárias em relativo estado de conservação. Mas a Ciência ainda não sabe se tamanha extração de sementes prejudicará a regeneração das matas ou a sobrevivência de animais silvestres.

Esse trabalho é feito gratuitamente por pacas, cutias, ouriços, esquilos, catetos, papagaios-charão e gralhas-azuis. Enquanto se alimentam, perdem ou enterram sementes no meio da mata ou nos campos. Indígenas hoje extintos também desempenharam papel forte na proliferação dos pinheirais, estocando e carregando sementes pela região que chamavam de “curiirama”, a terra dos pinheiros. Sem essa movimentação humana e animal, as florestas não teriam coberto no passado um terço do território sulista e tenderiam a encolher, sem o crescimento de vegetação nova.

Por isso o coordenador do curso de Engenharia Florestal da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) João Fert Neto é enfático ao afirmar que “floresta sem fauna não é floresta”. E observando a colheita intensiva de pinhões em Painel e outros municípios de Santa Catarina, questiona sobre os impactos na sobrevivência dos animais nativos da região. “A colheita do pinhão deve afetar a fauna, pois é seu principal alimento no inverno. Mas ainda não se conhece o impacto da prática sobre as florestas ou quanto de pinhões deveria ser deixado nas matas para sua regeneração e alimentação de espécies nativas”, disse.

Bandos de papagaios-charão (Amazona pretrei) patrulham os céus invernais de Painel em busca de pinhas. Foto: Aldem Bourscheit.

Conforme pesquisa de mestrado realizada na Floresta Nacional de São Francisco de Paula (RS) pela bióloga Graziela Iob, animais silvestres tem frutos, sementes e outros alimentos durante todo o ano em florestas com araucárias. No entanto, no inverno os pinhões são praticamente a única comida disponível. No município de Painel, por exemplo, bandos com centenas de papagaios-charão espalham sua algazarra enquanto sobrevoam a região em busca de pinhões (foto ao lado). Na área protegida federal também há colheita de pinhas. Eles frutificam em pinheiros ladeados por plantações de pinus e eucaliptos.

Iob também verificou em seu estudo algo que os produtores catarinenses perceberam na prática: que a produtividade dos pinheiros varia em ciclos de dois a três anos. A colheita, todavia, é sempre do máximo possível de sementes. “Em anos de alta produção, sobram sementes para comercializar e alimentar a fauna. Mas como fica nos anos de baixa produtividade?”, questionou.

Vacas, porcos e outros rebanhos domésticos também se alimentam dos pinhões, reduzindo a quantidade disponível para a fauna e regeneração das florestas. Esses fatos preocupam a pesquisadora Fernanda Brum, da UFRGS. “A colheita de pinhões deveria variar conforme a produtividade natural das árvores, deveria ser manejada com cotas relativas aos anos de alta e de baixa produtividade”, comentou.

Regeneração e genética

Desde que os “madeireiros” abandonaram a exploração do pau-brasil, pela extinção das matas, ainda no tempo do Brasil-Império, desviaram suas atividades para os imensos pinheirais, (…). Foi, assim, que o pinho se tornou a maior vítima da explotação imoderada de “madeireiros” gananciosos, meros exploradores que, visando apenas ao lucro imediato e sem esfôrço e não se preocupando, em absoluto, com o replantio da espécie, destruíram imensos pinhais deixando as terras inaproveitadas e entregues à invasão da bracatinga podendo dar origem a formações acaatingadas extensas, um tipo especial de caatingas de mimosáceas.*

 

Formas únicas destacam a araucária em meio à paisagem sulista. Foto: Miguel Guerra (UFSC).

A antiga rainha das florestas frias do país é uma espécie pré-histórica que viu dinossauros e outras feras surgirem e desaparecerem do planeta. Em menos de um século, a atividade madeireira quase a levou à extinção. Estrago feito, resta trabalhar pela recuperação dessas formações, importantes para economias, fornecimento de água e manutenção da diversidade biológica.

Recompor as matas e reduzir a alta fragmentação dos bosques na região de Painel (veja aqui) é fundamental para ampliar a economia do pinhão e também para as torneiras de Lages. Afinal, daquelas matas vêm as águas que formam o Rio Caveiras, principal fonte de abastecimento da população, comércio e indústria da cidade, incluindo uma fábrica de sacos industriais de papel da Klabin. “Mato é fábrica de água de qualidade”, ressaltou Guilherme Floriani, diretor do Projeto Kayuvá.

Em bosques abertos e campos iluminados, a araucária avança, abrindo caminho para o crescimento de outras espécies. A espécie produz pinhões quase que ao longo de toda a vida, que pode durar séculos. O início da produção varia muito, entre 15 e 20 anos. Já uma árvore no município catarinense de Caçador começou a gerar pinhas aos oito anos. Em 2008, foram mais de quatrocentas; no ano anterior, 365 pinhas.

O Paraná tem um projeto para interligar matas com araucárias dentro de fazendas e áreas protegidas em onze municípios. Empreitadas semelhantes, no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, não saíram do papel, conforme Miguel Guerra, pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina. “Precisamos interconectar fragmentos com corredores ecológicos, o mais rápido possível, pois a fragmentação dificulta a regeneração das florestas”, disse.

Medidas como essa dariam novo fôlego aos pinheirais. E mais árvores produziriam mais pinhões a cada inverno, além de maior quantidade de madeira. Todavia, pelo estado e tamanho das florestas atuais, o corte é algo praticamente inviável. “Além de proibido por lei, manejo hoje só seria possível com intensidade muito fraca. As florestas com araucárias não têm condições de atender à dinâmica industrial, no máximo a um mercado de madeiras nobres”, avalia Fert Neto, da Udesc.

Um caminho apontado por pesquisadores da área florestal é o do melhoramento genético. Assim, seria possível selecionar as melhores árvores existentes, que crescem mais rapidamente e que produzem mais e melhores pinhões, replicá-las em laboratórios e cultivar. Investimentos como esses permitiram ao pinus norte-americano ganhar amplo espaço comercial no globo. “Por isso não é justo comparar o crescimento do pinus com o das araucárias. Eles estão na quarta geração de melhoramento genético. Se tivéssemos feito o mesmo com as araucárias, elas cresceriam muito melhor”, comenta Miguel Guerra, da UFSC.

Ele avalia que em três décadas seria possível obter exemplares geneticamente melhorados de araucárias, mas quem pagaria a conta da pesquisa? Florestas nacionais do governo federal foram procuradas, mas não toparam o desafio. Empresas de celulose e papel também negaram, pois suas cadeias de produção foram desenhadas para pinus e eucaliptos. Com baixa oferta de pinheiros-brasileiros, não se sentiram incentivadas a investimentos.

A família araucariana

Wollemia nobilis, espécie de araucária redescoberta em 1994, na Austrália. Foto: steve.gb.com/images/plants.

A araucária ou pinheiro-brasileiro (Araucaria angustifólia) é uma das 19 espécies semelhantes conhecidas no planeta. Também existem árvores da mesma família no Chile, Argentina, Austrália, Nova Caledônia, Nova Guiné e Ilha Norfolk, de gêneros como araucana, agathis, caiova, nigra, striata, alba e elegans. A australiana Wollemia nobilis (foto) tem uma história especial, pois era tida como extinta no planeta até 1994, quando uma centena de árvores foi descoberta em um parque nacional a 150 quilômetros de Sydney, por um funcionário da área protegida. A árvore é muito procurada por turistas e especialistas em ornamentação de todo o mundo desde abril de 2006, quando o governo australiano a disponibilizou comercialmente. Acesse aqui a página do The Wollemi National Park.

Uma luz no fim do túnel surgiu no ano passado, quando a Gaboardi mostrou-se interessada em apoiar  estudos  com o pinheiro nativo. Sua madeira é ótima para palitos e caixas de fósforos. Os testes podem começar no próximo ano. “É algo que deveria ter sido feito antes da exploração quase total das florestas. A madeira da araucária é melhor que a do pinus para produção de papel e para construção”, disse o professor Adelar Mantovani, da Udesc.

Enquanto o Brasil empurra com a barriga pesquisas e investimentos no pinheiro nativo, desde 1993 a província argentina de Misiones cultiva 30 mil hectares com araucárias. O experimento tem apoio do governo de lá. A partir de 2015, eles poderão oferecer madeira manejada de qualidade no mercado internacional.

Conforme o professor do Centro de Ciências Agrárias da UFSC Rubens Nodari, investir em melhorias genéticas e sistemas agroflorestais e ampliar o leque de usos para a araucária é uma boa alternativa para a conservação da espécie. Ele lembra do açaí, antes desprezado e dizimado em terras amazônicas, depois valorizado e consumido em quase todo o país. “Conservar sem valor de uso é difícil”, ressaltou. “Se isso for feito, a araucária pode se tornar o carro chefe de muitas economias, em Santa Catarina e no Brasil”, completou.

…continua…

Parte 3 – Madeira de qualidade com galhos secos
Parte 1 – O futuro nas sementes da araucária


* Elza Coelho de Souza, em Tipos e Aspectos do Brasil, IBGE, 1966
 

Saiba Mais
Remoção de sementes por pequenos mamíferos potencialmente dispersores em diferentes estágios sucessionais do avanço da floresta com araucária sobre os campos no sul do Brasil.

Influência de Frutos e Sementes na Abundância de Pequenos Mamíferos e a Relação com a Predação e Dispersão de Sementes da Araucária
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  • Aldem Bourscheit

    Jornalista cobrindo histórias sobre Conservação da Natureza, Crimes contra a Vida Selvagem, Ciência, Comunidades Indígenas e ...

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