A mata gaúcha

Aldem Bourscheit & Sílvia Franz Marcuzzo
terça-feira, 26 fevereiro 2008 18:07

Tudo começou por volta de 1845. Na época, a região do Morro Ferrabraz, encravado entre os vales dos rios dos Sinos e Caí, no Rio Grande do Sul, abraçou generosa às primeiras levas de colonos que buscavam terras férteis para alimentar sonhos de desenvolvimento, família e fortuna. Entre suas ferramentas, espíritos empreendedores e machados bem afiados.

Como aconteceu em vários pontos do País, o modelo de colonização e as idéias de natureza infinita deixaram suas cicatrizes. A região hoje industrializada quase viu desaparecer uma das árvores mais usadas pelos colonos e que ajudou até a batizar o município de Sapiranga: a Araçá-Piranga (foto acima). Mesmo oferecendo uma frutinha saborosa, do feitio da pitanga, tombou aos milhares. Sua madeira firme e resistente servia como luva para os eixos de carretas e de rodas d´água que deram o impulso inicial à economia daquele pedaço de Brasil. Agora, se tornou símbolo da luta pela preservação das florestas regionais.

Passados quase dois séculos, a área do Ferrabraz se tornou Núcleo da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica do Vale do Sinos. Também pudera, é uma das maiores porções de floresta próxima à populosa Região Metropolitana de Porto Alegre. Sua proteção, no entanto, não está garantida. Por isso, o Núcleo Sócio Ambiental Araçá-Piranga conseguiu R$ 70 mil do governo federal para estudar a criação de uma área protegida sobre aquelas matas.

A organização não-governamental quer criar um refúgio de vida silvestre e uma área de proteção ambiental. Os 3,2 mil hectares do primeiro guardariam a vegetação mais preservada, enquanto a segunda abrigaria uma região externa ao refúgio, onde vivem centenas de agricultores familiares. Lá, segundo Luís Stumpf, coordenador da iniciativa no Araçá-Piranga, há vilas em áreas de risco, caça e plantação de árvores exóticas como acácia, eucalipto e pinus. “Assim se evitam transtornos com desapropriações. Queremos que as comunidades sejam aliadas na preservação”, diz.

Quem quer uma UC?

Além de estudos, o dinheiro serviu para informar e ouvir prefeitos e moradores de Sapiranga, Nova Hartz, Igrejinha, Santa Maria do Herval e Araricá, onde estão previstos os limites da futura unidade de conservação (imagem ao lado). Até o fim de março, o projeto será encaminhado ao Ministério do Meio Ambiente. Antes, enfrentará etapas burocráticas junto ao Ibama e ao governo gaúcho. Quando chegar aos escaninhos federais, o governo terá sete meses para bater o martelo e dizer se a área protegida será federal ou estadual. “Tudo depende do MMA e do que está previsto na legislação federal”, explica José Paulo Fitarelli, do Ibama/RS.

“Pela lei federal, a área já é de proteção permanente, sem falar que o local é uma reserva municipal desde 1987”, completa Stumpf, biólogo que “foge” para as matas da região nos dias mais quentes da cidade de Sapiranga.

Além disso, por ter encaminhado todas as pesquisas possíveis com os recursos que se tinha e organizado reuniões nos municípios da região, o roteiro para criação da área protegida nos entornos do Ferrabraz tem recebido críticas positivas.

Para o presidente do Comitê Estadual da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, Demétrio Guadagnin, esse é o melhor jeito de se criar uma unidade de conservação. “Parece mais fácil no canetaço, de cima pra baixo, mas o que a gente sabe é que assim se criam conflitos tremendos com a população local”. Ele lembra que há muitas pessoas morando por lá, e elas têm que estar de acordo. “Essa é a única garantia que a reserva terá vida longa”, diz o professor de Biologia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).

Guadagnin acrescenta que a intenção é formar um mosaico de unidades de conservação, contando com a criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) por proprietários de terras. “Assim se conservaria uma área maior”, comenta o pesquisador.

Ciência da mata

Mas se ainda faltam argumentos à Política, a Ciência pode dar algumas respostas. Depois de varar a região, pesquisadores confirmaram que do Ferrabraz e de seus contrafortes brota muita água que escorre por riachos e córregos até os rios dos Sinos e Caí. Mesmo assim, a população regional é uma das que mais sofre com falta d´água no estado. O Sinos é muito poluído e o consumo de água é elevado. Os municípios de Araricá e Nova Hartz não possuem sequer abastecimento público. A população bebe de poços artesianos, vertentes e caminhões-pipa.

Não bastasse a importância ecológica da região, o local também é sítio histórico e palco de esportes radicais. Com até 634 metros de altitude, o Ferrabraz é muito usado como plataforma por praticantes de vôo livre, tanto de asa-delta como de para-pente.

Os estudos liderados pela Araçá-Piranga também registraram por lá um em cada três tipos de vegetais encontrados no Rio Grande do Sul, fora os desconhecidos, além de quase 60 mamíferos e 135 aves. Essa riqueza natural se abriga no relevo acidentado e floresce dos diferentes ecossistemas regionais. Até a ameaçada Araucária se ergue imponente nos pontos mais altos. “A criação da área protegida está caindo de madura. Trará ganho político para quem tomar essa decisão, ainda mais porque a maioria da população é favorável. Ajudará até a proteger quem vive nas partes mais baixas da região”, diz o biólogo Luís Stumpf.

Ele está correto. Morar em áreas muito inclinadas como a região do Ferrabraz é sempre arriscado, como ocorre nos morros do Rio de Janeiro. Em 1992, um grande deslizamento conhecido como a Tragédia de Nova Hartz matou uma menina, deixou 50 famílias desabrigadas e inundou boa parte da cidade. Os prejuízos humanos e econômicos foram enormes, ainda mais se contabilizados os US$ 2 bilhões que escorreram pelo ralo do setor calçadista.

Dúvidas ruralistas

Apesar das reuniões promovidas pela Araçá-Piranga em municípios da região, dúvidas ainda pairam sobre alguns setores, principalmente entre agricultores familiares. “Não sei o que vou poder fazer na terra”, diz Carlos Sessegolo, proprietário de terras em Alto Ferrabraz. A Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetag) faz coro.

Segundo assessor de Política Agrícola da entidade, Airton Houchscheed, o temor é de que não haja dinheiro para possíveis desapropriações. Conforme ele, a região está lotada com pequenos produtores que não foram consultados sobre o projeto. “Lá ainda se avista gente com carrão de boi. Se a unidade de conservação for de proteção integral, como ficarão os recursos e o tempo para indenizações das famílias?”, questiona.

Stumpf, da Araçá-Piranga, afirma que todos foram informados e que não haveria gente dentro da área prevista para o refúgio de vida silvestre que, como área de proteção integral, não toleraria pessoas em seu interior. “Esperamos que a Fetag se torne parceira”, diz o biólogo.

Apesar dos estudos e audiências, não há garantias que seja implantada a unidade, alerta Salete Ferreira, técnica da Divisão de Unidades de Conservação, do Departamento de Florestas e Áreas Protegidas da Sema RS. “Isso depende de uma decisão política”. Salete, que acompanhou o projeto por parte do Estado, não sabe se o governo terá disposição de criá-la.

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