Alimentando as feras no Pantanal

Aldem Bourscheit
terça-feira, 21 outubro 2008 11:00
Uaaa… Esses humanos são mesmo uns chatos! Foto: Zoológico de Toronto/EUA.

Imagine contratar um pacote turístico que garante a observação de onças-pintadas em meio às belíssimas paisagens do Pantanal. Fantástico, não? Essa possibilidade é vendida na região. No entanto, os turistas desconhecem alguns métodos usados como chamariz para o maior felino das Américas.

Visitantes circulando pelos inúmeros rios pantaneiros na carona de pescadores, lanchas e demais embarcações turísticas ficam maravilhados com jacarés, ariranhas e até gaviões se aproximando para buscar peixes e outras iscas. Para atrair onças, se usam esturradores (instrumento de sopro que imita o som da espécie). Também se contratam caçadores e cachorros para rastrear animais e comunicar sua localização para guias e empresas de turismo.

Nos últimos anos, entretanto, multiplica-se uma prática contestada por quem estuda a vida dos felinos: a ceva. O artifício consiste na distribuição de fartas porções de carne em pontos estratégicos da planície alagada. Tudo para atrair a fera estampada nas notas de R$ 50. As vítimas podem ser porcos e carneiros, mortos ou amarrados vivos no meio da mata. Mas jacarés e capivaras nativos não escapam. São abatidos e sua carne é jogada na floresta que margeia os rios. Isso acontece quase sempre na calada da noite, longe dos olhos dos turistas.

Durante as expedições comerciais, pequenos barcos com batedores avançam pelas águas e, quando avistam uma ou mais onças atraídas pelo lanche fácil, chamam via rádio outras embarcações carregadas de passageiros ansiosos para disparar suas câmeras.

Jacaré abatido e oferecido como ceva para onças. Foto: Julinho Monteiro.

O chefe do Parque Nacional do Pantanal, José Augusto de Lima, conta que a ceva vem se difundindo pela região. Ele vem alertando embarcações turísticas e pescadores para não alimentarem onças, ariranhas e outros animais. “Isso (cevar) está virando moda, mas é uma moda que não pode pegar. Onças e outros animais têm que ser vistos naturalmente, quando se deixam ver. O turismo de verdade não pode contar com esses artifícios”, ressaltou.

No encontro das águas

Enquanto isso, a prática que preocupa o gestor público ganha contornos mais graves no Parque Estadual Encontro das Águas, maior área protegida no Pantanal, gerenciada pelo governo do Mato Grosso. A região fica a cerca de 250 quilômetros ao sul de Cuiabá. Às margens do Rio Três Irmãos, próximo à Porto Jofre e dentro da unidade de conservação, fica uma base (imagem ao lado) do biólogo norte-americano Charles Munn. Ele adquiriu a propriedade porque o parque não tem regularização fundiária, não foi totalmente desapropriado.

Em reportagem de 25 de março do jornal britânico The Daily Telegraph, ele afirma que “entre julho e meados de outubro, você tem uma probabilidade de 97% de ver” uma onça. Na região, ele montou um centro de pesquisas. A página do local avisa que guias e pilotos de lanchas especializados exibiram 125 onças para turistas em 81 dias, entre 15 de junho e 20 de outubro do ano passado e, ainda, que “nenhum outro local no mundo oferece um número de onças como esse por dia”. É no mínimo uma onça observada diariamente!

Tantos felinos circulando em uma área reduzida põem a pulga atrás da orelha de pesquisadores brasileiros. O doutor pela Universidade da Flórida e colunista de O Eco Peter Crawshaw estuda onças há mais de 30 anos e reconhece que a ceva é hábito comum no Pantanal. Ele conta que, próximo ao acesso do parque nacional, uma delas costumava aparecer em busca de comida.

Mesmo assim, ele estranha o número de felinos na região de Porto Jofre. “Em dois anos que circulei pelo Pantanal, vi onças quatro vezes, por acaso. Em Porto Jofre, em uma semana, avistávamos ao menos uma delas todo dia, e até duas no mesmo dia”, revela o biólogo.

Base operações de Charles Munn em Porto Jofre. Foto: Julinho Monteiro.

No Sisbio – Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade, mecanismo federal que cadastra pesquisas realizadas por estrangeiros e nativos no País, não há iniciativa vinculada ao nome de Munn.

A grande circulação de feras é provocada pelas cevas orientadas pelo norte-americano, denuncia o guia pantaneiro Julinho André Monteiro, da agência Pantanal Trackers. “Desde que ele pôs os pés aqui nunca vimos tantas carcaças na região, por onde ando há mais de 15 anos. Disse a ele para não fazer, mas ignora, pois está visando só o lucro e não se importa com o bem estar do animal. Ele (Munn) me propôs trabalho, mas recusei porque acho que isso é ilegal e colocaria onças e pessoas em perigo”, conta.

“Por aqui todo mundo sabe das cevas promovidas por ele (Munn), mas ninguém fala nada”, contou à reportagem o gerente de um hotel em Porto Jofre, que preferiu não se identificar.

O Ibama em Mato Grosso esteve na região no início do ano, onde ouviu vários relatos sobre as cevas de onças. Segundo o órgão, o comentário é freqüente entre pessoas que circulam pelo Pantanal. A Secretaria de Meio Ambiente do Mato Grosso (Sema/MT) vistoriou a propriedade e área de atuação de Charles Munn no início do ano passado, não sem antes avisá-lo sobre a ação. Nada foi encontrado de anormal na ocasião.

Conforme o coordenador de Unidades de Conservação da Sema/MT, Élder Monteiro , o órgão recebeu denúncia envolvendo o nome de Charles Munn, que também foi chamado para uma conversa onde apresentou relatório sobre suas atividades e foi informado sobre as penalidades que poderia sofrer, como ser enquadrado na Lei de Crimes Ambientais e ter sua pousada fechada. “A gerência do parque tem monitorado a área e ainda não achamos nenhuma prova concreta para esta denúncia. Assim que tivermos, tomaremos as medidas cabíveis”, disse.

Consultado pela reportagem, o biólogo negou que use comida para atrair onças e afirmou que sua técnica consiste em “usar pequenos barcos com motor de popa que saem a esmo procurando onças acostumadas a ser vistas por seres humanos”. “Estas onças se encontram deitadas ou caminhando à beira dos rios dentro do Parque Estadual Encontro das Águas. A técnica para garantir observações é procurar animais por várias horas, avistando-se uma ou mais onças por dia”, disse.

Jacaré morto e amarrado próximo ao Rio Três Irmãos. Foto: Julinho Monteiro.

Para Munn, as denúncias não passam de inveja ou ciúme do sucesso de seu empreendimento pantaneiro. “Eles não investiram de forma pesada como a gente fez para ter uma infra-estrutura confortável e que garante uma boa experiência no parque”, comentou. Ele também questionou uma prática ligada a pesquisas regionais. “Por que biólogos colocam colares de rádio nas onças perto do parque, quando elas são fáceis de se ver durante o dia. Esses colares ficarão com elas por anos, possivelmente pelo resto de suas vidas. Quais são os benefícios para a preservação das onças no parque estadual com esses colares?”.

Prejuízos animais

Conforme a veterinária Rose Morato, do Cenap – Centro Nacional de Pesquisa para Conservação de Predadores Naturais (SP), vinculado ao Ibama, abater animais silvestres sem autorização é crime e oferecer comida a onças para agradar turistas pode alterar o comportamento natural da espécie, sua distribuição geográfica e aumentar o risco de ataques a pessoas e, conseqüentemente, de morte dos animais como retaliação.

“Um dos fatores que influencia sua distribuição no território é a disponibilidade de comida e, se ela é obtida facilmente, isso pode atrair vários animais para o mesmo espaço e provocar disputas territoriais. A espécie evoluiu para caçar, não para receber comida pronta ou para ter contatos tão freqüentes com outros indivíduos e humanos”, explicou.

Conforme Peter Crawshaw, o acúmulo de animais pode causar estresse e levá-los a ferozes disputas territoriais, envolvendo uma fonte não-natural de alimento. “Isso (ceva) interfere em toda a organização natural da espécie, mas o maior risco maior é a interação com o homem”, ressaltou. “Aos poucos a onça vai perdendo o medo e deixa as pessoas se aproximarem, reduzindo a distância natural de fuga. Isso pressiona o animal a fugir ou atacar em contatos mais próximos. Animais calmos buscam outro caminho, enquanto outros partem para o ataque”, comentou.

Onça abrigada dentro de velha embarcação na região de Porto Jofre. Foto: Peter Crawshaw.

Segundo Charles Munn, há mais de uma centena de locais na África e na Índia onde comida é oferecida a leopardos e tigres com fins turísticos. Por aqui a situação seria diferente. “Conheço argumentos e idéias sobre o assunto e digo que não é preciso alimentar onças no Pantanal para poder vê-las. No entanto, os comentários contra a prática não são tecnicamente bem informados, pensados ou sustentados”, disse.

O Cenap tem dois registros de ataques de onças a humanos este ano – um fatal em Cáceres e outro em Corumbá. Conforme Crawshaw, no entanto, outro incidente ocorreu na região de Corumbá e há relatos sobre uma agressão na região dos rios São Lourenço e Cuiabá. Na região de Porto Jofre, feras e humanos estão cada vez mais próximos.

Morato, do Cenap, explica que os ataques não têm ligação com boatos sobre superpopulação de onças no Pantanal. “Não há estudos que comprovem isso”, disse. Para ela, são as pessoas que avançam cada vez mais na imensidão alagada. “Uma coisa é encontrar animais por acaso, outra é habituá-los à presença humana. Isso traz mais riscos para pessoas e animais. Assim como deixam turistas chegar mais perto, deixarão caçadores se aproximarem. Também podem contrair doenças e atacar rebanhos”, disse.

“E o mais perigoso é associar o homem com o alimento. Animais jovens, famintos e sem experiência de caça podem recorrer a casas, rebanhos, animais domésticos e pessoas mais vulneráveis. Tudo isso (cevas) está acontecendo sem qualquer acompanhamento científico”, ponderou Crawshaw.

 

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