Reportagens

Manifesto pela conservação

Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação termina com discurso emocionado do almirante Ibsen Câmara, em que pede mais atenção para áreas de proteção integral no país.

Redação ((o))eco ·
21 de junho de 2007 · 14 anos atrás



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Na tarde desta quinta-feira foi encerrado o V Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação, em Foz do Iguaçu. O evento, o maior da América Latina para o tema, mobilizou 1.879 pessoas, dos 17 aos 83 anos de idade, de 21 países. Durante os cinco dias de congresso, aconteceram 30 eventos paralelos, entre os quais lançamentos de publicações sobre unidades de conservação e mesas redondas. Também foram aprovadas 13 das 18 moções propostas, como medidas para proteção da Caatinga, ampliação de parques nacionais, solução de problemas de sobreposição entre terras indígenas e unidades de conservação e criação da carreira de guarda-parque.

O ponto alto da cerimônia de encerramento foi o discurso do almirante Ibsen de Gusmão Câmara, que falou sobre as razões da emergência global para cuidar dos recursos naturais. Começou propondo uma resposta para os motivos que têm provocado desaparecimento da vida selvagem no Brasil e no mundo. Atentou para a escala dos bilhões em que cresce a população humana frente às poucas dezenas de animais e plantas em extinção.

“Eu vi extensas florestas no Nordeste brasileiro, no Oeste do Paraná e o Cerrado intocado”, lembrou. “A ação humana alterou para sempre a biogeografia da Terra”. Em função destas interferências, Ibsen destacou que o planeta vive um processo de extinção em massa, mais não como as anteriores. “Diferentemente das outras crises, esta não se deve aos efeitos catastróficos naturais, mas a uma única espécie em evidente desequilíbrio populacional, o homem”.

Depois do impacto das primeiras palavras do almirante Ibsen, que tem dedicado a vida às causas ambientais, ele sugeriu que solução ideal não existe enquanto a população continuar a crescer ávida por recursos naturais. “A única solução parcial, que talvez ajude, é a manutenção de uma rede eficaz de unidades de conservação terrestres e marinhas de proteção integral”. Ele explicou objetivamente o valor coadjuvante das áreas protegidas habitadas por comunidades humanas. “Não podemos imaginar que essas populações fiquem estáveis em número e imutáveis em sua cultura, nem prever repercussões de mudanças sobre essas áreas”, disse.

Em relação aos congressos anteriores, este foi o mais consensual. “Em 2004, quando falávamos sobre conservação condenando a eficácia de reservas extrativistas ou de desenvolvimento sustentável, éramos vaiados. A platéia reclamava”, lembra a conservacionista veterana, Maria Tereza Pádua. Só quem não acordou para a importância das áreas de uso restrito, sobre todas às demais modalidades de proteção, foi o governo. “A falta de consciência política quanto à gravidade do problema é um obstáculo provavelmente tão sério quanto ao que as mudanças climáticas também têm provocado”, disse o almirante Ibsen.

Embora o diretor de Áreas Protegidas do Ministério do Meio Ambiente, Maurício Mercadante, diga que o governo dê tanta importância às unidades de proteção integral quanto às de uso sustentável, como fez durante o congresso, não é isso que a realidade mostra. “Vemos que o governo não prioriza as unidades de proteção integral quando existem parques que há décadas não resolvem seus problemas fundiários, e por isso têm grandes dificuldades de implementação, ao lado de novas terras concedidas a quilombolas que de uma hora para outra conseguem dinheiro para se estabelecerem, muitas vezes no entorno ou mesmo no interior de unidades de conservação”, pondera Maria de Lourdes Nunes, diretora-executiva da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza.

“Hoje as unidades de conservação são ilhas de ecossistemas isoladas numa matriz antropizada. Por isso há de se lutar pelo aumento do número, extensão e qualidade dessas unidades, por sua interligação e pesquisa”, pediu o almirante. Ao final, Ibsen frisou que ainda podemos selecionar e proteger grandes porções de ecossistemas com alta diversidade biológica, mas por pouco tempo. “Se falharmos, nossa incompetência será lembrada nas gerações futuras”.

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Comentários 1

  1. Cláudio Maretti diz:

    Boa matéria, Duda Menegassi! Equilibrada, correta e necessária. Parabéns e obrigado!

    Ajustes nessas unidades de conservação são necessários desde a sua criação e a necessidade só aumenta quando os ajustes não são aplicados.
    Há estudos e diálogos nesse sentido há tenpos.

    Para ajustes em unidades de conservação é necessário estudos, análise e propostas técnicas, compensação da conservação e diálogo para compor soluções.

    A posição técnica do ICMBio é consistente e adequada.

    A Floresta Nacional de Brasília tem algumas áreas com valor ecológico não tão importante, relativamente, e desde sua criação. Mas há áreas importantes para recuperação e para visitação (ou uso público), como a Área 1, com importante envolvimento da sociedade local e boa história e grande potencial de voluntariado. E há áreas importantes para recuperação, ordenamento da ocupação e proteção dos recursos hídricos, como a Área 4 e grande parte da Área 3. Faz todo sentido mudar a categoria da Reserva Biológica de Contagem para parque nacional, promovendo a conservação com a visitação (ou uso público), de forma integrada com o Parque Nacional de Brasília. Faz todo sentido ampliar a conservação de áreas de maior valor ecológico (inclusive como compensação pela redução de outras áreas).

    Mas é muito importante acompanhar com atenção o processo no Legislativo, pois há vários parlamentares só interessados em especulação imobiliária e populismo com lotes e moradias (como em toda a história do Distrito Federal).