Caminhando contra o tempo

Eric Macedo
quarta-feira, 13 junho 2007 20:13

Alcançar o alto dos Três Picos, um dos extremos do Parque Nacional de Itatiaia, provoca uma sensação dúbia. Ao sobreviver três horas de caminhada finalizadas com uma subida íngreme, ver o mundo do alto é inegavelmente prazeroso. Mas a paisagem do Vale do Paraíba, nem tanto. No entorno dos 28 mil hectares de mata atlântica preservados pelo parque, tudo o que os olhos encontram são morros pelados, empobrecidos pela ocupação humana consolidada a base de pasto e terra degradada. A melhor coisa é mirar a floresta e apurar os ouvidos para ouvir a bagunça dos muriquis, redescobertos há pouco tempo nesta unidade de conservação, que completa 70 anos nesta quinta-feira.

Itatiaia foi o primeiro parque nacional do país e sua natureza ficou mais vistosa com o passar do tempo. Afinal, dentro de seus limites, algumas áreas devastadas ganharam a chance de serem reocupadas com mata de primeira. Só a parte construída pelo homem é que precisou ser recauchutada: os prédios da sede e do museu passam por reformas e novas placas de sinalização serão fixadas nas estradas da parte baixa. “Tudo ficará pronto até o fim do mês”, promete o diretor, Walter Behr. O dinheiro das obras vem de compensação ambiental paga por uma empresa de transmissão de energia elétrica. Enquanto isso, as principais atrações do parque continuam recebendo turistas aos montes nos fins de semana e feriados, gente atrás de algum contato com a pouca natureza que resta no sudeste brasileiro. São cerca de 70 mil visitantes por ano. Há trilhas para todos os gostos e disposições, de curtos passeios até cachoeiras e piscinas naturais que dispensam o pé na lama, até horas de caminhada sob mata fechada ou de subida em meio a enormes blocos de pedra.

O Parque Nacional de Itatiaia fica a duas horas de carro do Rio de Janeiro (150 km) e a três de São Paulo (250 km), pela Via Dutra. Para chegar à portaria principal, deve-se tomar a saída na altura do município de Itatiaia, à direita de quem vem do Rio. Os portões ficam no fim de uma estrada asfaltada de cerca de oito quilômetros. A entrada custa três reais por pessoa, cinco reais por carro e dez por ônibus. Há hotéis dentro do parque, com preços que variam em torno de 200 reais a diária do casal, com pacotes nos feriadões. Também há camping particular. Outra opção é ficar em hotéis e pousadas nas cidades de Itatiaia ou Penedo, onde pode-se encontrar diárias mais baratas.

Baixo Itatiaia

A trilha dos Três Picos [foto] é a maior da parte baixa do parque aberta ao público. São seis quilômetros de subida em meio à floresta. É possível fazê-la durante todo o ano, mas facilita se for no inverno, quando a picada está mais seca. Também é recomendável uso de um guia local (o preço varia – uma lista de guias cadastrados está no site do parque). Muita gente que fez o percurso se queixa de passar todo o tempo olhando para o chão, desviando de troncos e com a preocupação de não escorregar na lama e no musgo. De fato, isso descreve razoavelmente bem o trajeto, que se torna bastante íngreme na última parte. Mas o problema não invalida a visita, com a fantástica vista do alto.

As outras atrações da parte baixa são principalmente cachoeiras dos mais diversos tipos e tamanhos. A mais próxima da entrada e de acesso bem fácil é o Lago Azul. Trata-se de uma piscina natural formada pelo rio Campo Belo, o principal do parque. É recomendado o banho e pode-se pagar para usar quiosques próximos. A fama de azul vem da época em que não havia floresta na região e a água refletia apenas o céu. Hoje ele está mais para verde.

Passeios que também não exigem esforço são o Véu da Noiva, a Piscina Natural da Maromba e a cachoeira do Itaporani. Para chegar na entrada das trilhas, basta seguir as placas “cachoeiras”, na estrada principal do parque. No último feriado, de Corpus Christi, o movimento era grande nas trilhas. “Parece a porta do paraíso”, repetia na sexta-feira uma senhora frente aos raios de sol que se espelhavam no fundo do rio na altura da Maromba [foto]. Os turistas faziam filas e não havia controle do número de visitantes que podiam acessar as trilhas. Apesar do deslumbramento de alguns, a falta de valor dado ao patrimônio ambiental é evideciada no lixo encontrado pelo caminho e pela falta de entusiasmo de outros com a natureza. “Tem gente que chega aqui perguntando onde é o parque”, diz Dioclésio do Nascimento, dono do Ateliê Vivarte, que fica bem depois dos portões de entrada.

Nas Alturas

A visita à parte alta do Itatiaia exige um esforço extra. A começar pelas péssimas condições da estrada de acesso, uma continuação sem asfalto da BR-354 (Rio-Caxambu). Ela deve ser tomada, da Dutra, na altura de Engenheiro Passos. O problema começa 50 quilômetros depois, na entrada do parque no planalto. Dá pena dos carros de passeio mais baixos que se atrevem a percorrê-la. Pedras e poças se estendem por 13 quilômetros sofríveis, feitos a passo de tartaruga. Antes de começar a jornada, vale comer um pastel de queijo minas na parada do seu Miguel, logo antes da subida. Ex-carvoeiro, ele abandonou a profissão há 37 anos, quando abriu o estabelecimento. E não é muito contente com o parque. “O Ibama não deixa asfaltar a estrada e ainda cobra ingresso. Afasta os turistas”, diz ele.

O coordenador da parte alta do Itatiaia, Daniel Toffoli, diz que não é bem assim. O Ibama não tem autonomia para fazer obras na estrada, uma rodovia federal, que é responsabilidade do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit). Técnicos do órgão visitaram recentemente o local, mas não há previsão para melhorias. “Não existe nem o projeto”, diz. O sofrimento é válido. Chegando no posto três, a entrada custa 12 reais por pessoa. Até as nove da manhã, com autorização da administração, é possível ir de carro até o abrigo Rebouças, de onde começa a maioria das trilhas, com exceção do Morro do Couto. Depois disso, é preciso encarar uma caminhada de cerca de três quilômetros até lá.

Entre as trilhas abertas atualmente está o Pico das Agulhas Negras, de 2.791 metros de altitude, famoso por ser considerado, por anos, o mais alto do Brasil (hoje sabe-se que o posto é do Pico da Neblina, no Amazonas, com 2.993 metros). O percurso é feito em uma hora de caminhada a partir do Rebouças até a base, e cerca de duas horas de subida pesada até o cume. É indispensável alguma experiência: algumas partes só podem ser feitas com a ajuda de cordas. Para quem não se importa com questões de fama, um passeio imperdível é o das Prateleiras.

Mesmo os pouco experientes podem fazer o trajeto sem grandes sobressaltos, com o acompanhamento de um guia. As caminhadas no planalto são feitas em meio a uma espécie de capim também encontrado nos Andes, que em tempos remotos (bem mais frios) se espalhava pelo continente. Como o clima mudou, ela se adaptou a essas regiões mais altas (no planalto, as temperaturas ficam freqüentemente negativas durante a noite). Formações rochosas que margeiam o caminho acompanham o andarilho. É inevitável a parada para encher os cantis nas nascentes que oferecem água brotada da pedra. “É que nem beber leite da teta da vaca”, diz o ilustrador botânico e guia (nas horas vagas) Victor Silvestre. Morador do parque há sete anos, ele passeia pelas trilhas atrás de plantas (principalmente orquídeas e bromélias) para desenhar.

A subida até o cume exige alguma confiança para andar sobre a rocha e se enfiar pelos vãos entre as pedras. Na quinta-feira passada, o movimento era constante e incluía gente de todas as idades, inclusive crianças. Além dessas trilhas, também estão disponíveis a Pedra do Altar e a Cachoeira do Aiuruoca. A administração pretende abrir duas travessias maiores até o fim do ano, inclusive uma que permite subir da parte baixa para a alta. Mas a idéia ainda está sendo estudada. O parque fecha às 17h e é bom respeitar o horário: além de ser uma regra para os visitantes, é melhor não enfrentar os buracos da estrada no escuro.

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