Reportagens

Ao lado do Kilimanjaro

O Monte Quênia é uma bela alternativa ao Kilimanjaro, que está muito manjado. Os dois são vizinhos e exigem técnicas diferentes de seus visitantes. No caminho, muitos animais.

Pedro da Cunha e Menezes · Ana Leonor ·
27 de outubro de 2006 · 15 anos atrás

Ernest Hemingway imortalizou o Monte Kilimanjaro no imaginário popular internacional. Com efeito, o Kili, como é carinhosamente conhecido pelos locais tem seu charme. Com 5896 metros de altitude, está acima de qualquer outro morro na África. Os livros de Hemingway e o chamariz das neves eternas, associados ao fetiche de topar o continente, atraem ao Kilimanjaro milhares de excursionistas todos os anos. Com efeito, sua popularidade é tanta que não é possível subir ao Kilimanjaro sem cruzar com pelo menos uma centena de outras pessoas, cada uma pagando pelo privilégio uma taxa de US$ 1500, aí incluídos entrada e seguro cobrados pelo Serviço de Parques da Tanzânia. Vale a pena? Mochileiros e aventureiros de primeira viagem não têm dúvida que vale. 

Os montanhistas experimentados em África entretanto, argumentarão que o Kilimanjaro há muito tempo perdeu seu encanto. Preferem subir o Monte Quênia. Irmão menor e mais bonito do Kilimanjaro, o Monte Quênia também tem neves eternas na parte superior da montanha, que em seu ponto mais alto alcança os 5199 metros. Não é pouco. O Monte Quênia é o segundo pico mais alto da África. Sua altitude é suficiente para provocar problemas de aclimatação, conhecidos como males da alta montanha. A partir dos 2.500 metros o ar fica rarefeito e a maioria dos montanhistas começa a sofrer de dor de cabeça, letargia, enjôo e extremo cansaço. Quanto mais alto, pior o problema, que se não for tratado pode causar até a morte – e o Monte Quênia já foi responsável por uma coleção delas. A solução é ascender poucos metros por dia, dando tempo ao corpo para se adaptar.

Melhor assim, pois ao longo da subida há muito que apreciar. Sua base é cercada pelas florestas afromontanas, um dos 34 “hotspots” da ecologia planetária. Para ser classificado como “hotspot” um ecossistema precisa abrigar no mínimo 1.500 espécies florísticas endêmicas, o que equivale a 0,5 % do total identificado no mundo. Elefantes, búfalos, leopardos e meia centena de outras espécies de mamíferos freqüentam a região, que também é Patrimônio Mundial da Humanidade.

As florestas do Monte Quênia são tão ricas que é melhor evitar caminhar nelas sem a companhia de um guarda-florestal armado. São recorrentes as histórias de ataques de predadores aos excursionistas. Por isso, é melhor cruzar a floresta de carro, o que faz com que caminhada propriamente dita comece no fim de uma estrada de terra de 15 quilômetros. A aventura, contudo, principia antes. A região é tão úmida e a manutenção da estrada tão deplorável que não há subida possível sem uma ou duas atoladas.

Ao deixar o carro vem a grande surpresa. O calor africano escafedeu-se. Estamos acima da linha dos dois mil metros, um vento frio varre os campos de altitude que substituíram a floresta. A montanha, à frente, com picos altaneiros e uma profusão de flores e pássaros, convida sedutora. Os guias locais, entretanto refutam. É mais sábio pernoitar no primeiro abrigo e deixar o corpo se adaptar ao ar rarefeito e suas conseqüências debilitantes.

No dia seguinte, a caminhada avança levando o montanhista morro acima. Aos poucos o arrendodado da base vulcânica perde forma e os vales vão se aprofundando. A partir dos três mil e duzentos metros, lagos de um azul celeste chamam atenção pela sua beleza pictórica. As vezes suas águas bloqueiam o vale inteiro. São abastecidos pelo degelo das neves eternas, que seu espelho d’água reflete em paisagem incomparável.

Neves que, por sinal, estão menos eternas a cada ano. O aquecimento global tem sido responsável pela redução significativa desse espetáculo esbanquiçado em plena na linha do Equador. Cientistas calculam que tanto o Monte Quênia quanto o Kilimanjaro perderam mais da metade de suas neves nos últimos quinze anos e alguns pesquisadores prevêem que, mantido o ritmo de degelo, em 2020 não haverá mais neve em ambas montanhas. Trata-se de problema que sobrepassa em muito a estética. As águas do Monte Quênia abastecem milhões de pessoas, que delas dependem para saciar a sede, criar seus rebanhos e plantar suas hortas. Se a fonte secar, o problema da falta de água que atualmente já é muito sério na região, pode se tornar catastrófico.

O segundo pernoite, após cerca de oito horas de extenuante caminhada, é feito ao redor dos quatro mil metros acima do nível do mar. Em geral, acampa-se às margens de um lago glacial. Os montanhistas locais aproveitam para improvisar uma varinha para fisgar um par de trutas que serão preparadas na fogueira à guisa de jantar. Não se come muito, pois pouco do que se ingere fica no estômago. A altitude não deixa. Tampouco deixa dormir. Uma dor de cabeça infernal, misturada com estranho mal estar, impedem o descanso merecido. Mas não demora muito e a hora de caminhar de novo já chega. É antes da alvorada. Por volta de meia noite, sob um frio abaixo de zero grau, começa o ataque ao topo. É nesse momento que a diferença entre o Monte Quênia e o Kilimanjaro se faz mais marcante. Ao Kilimanjaro, caminha-se. Para atingir o cume do Monte Quênia, é preciso ser bom escalador. Dos três principais picos do Monte Quênia, dois deles, Batian (5199) e Nellion (5188), demandam ascensões técnicas e perigosas. Para os menos intrépidos, resta a cumeeira do Ponto Lenana, o terceiro mais alto, que com seus 4985 metros, tampouco é de se desprezar. De lá é possível ver o vasto planalto africano até onde terra faz a curva. Vista apenas interrompida, a trezentos quilômetros de distância, pelo enorme bloco montanhoso que constitui o Kilimanjaro.

Os últimos 1000 metros verticais exigem cerca de 8 horas entre subida e descida. Por volta das cinco da manhã, quando o dia começa a clarear, Lenana, Batian e Nelion já estão visíveis e, aparentemente alcançáveis. Quem chegou até aí – e menos da metade dos que iniciam a empreitada chegam- respira aliviado. Em questão de uma hora caminhando ou escalando em meio às neves eternas do Monte Quênia, atinge o objetivo de um dos três cumes.

A volta é mais tranqüila e mais contemplativa. À medida em que se perde altitude, o corpo vai recuperando o bem estar e a beleza das 882 espécies vegetais – 80 delas endêmicas do Parque Nacional do Monte Quênia- adquire cores ainda mais distintas e encantadoras do que na subida.

Desde que o suíço Ludwig Krapf avistou o Monte Quênia em 1849, montanhistas do mundo inteiro têm se dedicado a desbravá-lo. Foram necessários mais 50 anos para que o inglês Harold Mackinder conquistasse seus três picos, em 1899, e algumas décadas mais para que as rotas de Naro Moru, Sirimon e Chogoria fossem preparadas para receber excursionistas. Hoje, não importa qual a via utilizada para subir ou descer. Os preços são acessíveis- com cerca de 200 dólares por cabeça, entre entrada do Parque e acompanhamento de guia profissional – é possível fazer a caminhada. A privacidade é garantida e a visão que se tem do Kilimanjaro é inigualável!

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