Tubarão bom, é tubarão morto

Juliana Tinoco
quinta-feira, 13 abril 2006 13:58

No último domingo, o caminhoneiro catarinense José Ivair Pereira, de 35 anos, foi atacado por um tubarão na praia de Piedade, em Pernambuco. Era fim de tarde e ele estava com água pela cintura quando sentiu a fisgada na panturrilha esquerda. José passa bem, não corre risco de morte. Ao contrário do tubarão que o atacou.

Desde maio de 2004, quando foi criado o Comitê Estadual de Monitoramento dos Incidentes com Tubarões (CEMIT) , sai todo fim de semana da capital pernambucana um barco com o objetivo de caçar tubarões agressivos que estejam nadando a menos de um quilômetro da costa. O programa Projeto de Pesquisa e Monitoramento do litoral de Recife é coordenado pelo oceanógrafo Fábio Hazin, da Universidade Federal Rural de Pernambuco, financiadora do comitê.

Se a espécie for agressiva, como o cabeça-chata e o tubarão tigre, o animal é abatido. Ao todo, já foram caçados 22 tubarões. Hazin acredita que o ataque a José foi conseqüência da paralisação das ações do comitê nas últimas três semanas enquanto aguarda a renovação do contrato do aluguel do barco. Foi o primeiro incidente com tubarões registrado este ano em Pernambuco.

Em 2004, o Comitê não atuou nos períodos de janeiro a maio e de agosto a setembro, também a espera de verba. Nesses meses aconteceram sete ataques. Enquanto estiveram na ativa, segundo Hazin, não houve incidentes. A expectativa é de que a pesca dos tubarões volte a acontecer já na próxima semana.

Único jeito?

Os animais mortos têm a carcaça usada para pesquisa dentro da universidade. Os estudos visam entender melhor a reprodução, alimentação, crescimento e comportamento desses animais. Para o pesquisador, o número de animais mortos é pequeno e não representa perda para as espécies. Apesar de admitir que o objetivo da equipe do barco é caçar todos os exemplares de tubarões agressivos que nadam por ali. Segundo Hazin, é o único jeito de se evitar os ataques a humanos.

Mas há controvérsias.“Toda ala conservacionista é contra a abordagem de Hazin”, conta Frederico Brandini, oceanógrafo e colunista de O Eco. Uma das opções pensadas é o uso de redes de exclusão, como é feito em outros países, para evitar que o tubarão se aproxime da área de banho. “A gente entra na água por que quer, o tubarão tem direito de viver ali”, ressalta Brandini.

Hazin coordena uma campanha de conscientização nas praias. Distribui folhetos aos banhistas explicando o risco de nadar em mar aberto, longe dos arrecifes ou em águas muito turvas. Também alerta para os horários de maior perigo. O banhista deve fugir do mar pela manhã ou no cair da tarde, em momentos de maré cheia e de lua cheia. Além disso, organiza palestras em escolas para ensinar qual tipo de tubarão oferece risco. Afinal, a maioria dos tubarões não é perigosa.

“Com o tempo, acredito que as pessoas tomarão consciência do perigo e a pesca não será mais necessária”, diz Hazin, que considera a atividade do barco uma ação emergencial para proteger a população. Existem também placas de alerta nas praias, mas às vezes elas são fincadas com um quilômetro de distância uma da outra.

“Para que o turista fique bem informado, seria preciso que as redes hoteleiras, os salva-vidas, as rodoviárias e os postos de fiscalização nas estradas estivessem participando dessa campanha”, diz o coronel Neyss, comandante do Corpo de Bombeiros que pesquisa de forma amadora os ataques de tubarão em Recife.

Para ele, não há provas de que é necessário matar os animais para garantir a segurança das praias. “Eles querem solucionar dois problemas como uma cajadada só. Auxiliar os alunos da universidade e resolver a questão da população”, afirma Neyss.

Em países como África do Sul e Austrália, onde em determinados períodos algumas praias ficam infestadas de tubarões agressivos, o banho de mar é proibido e as areias são fiscalizadas para impedir que qualquer pessoa coloque o pé na água. O mesmo não ocorre nas 15 praias de Recife consideradas vulneráveis a ataques, todas próximas à foz do rio Jaboatão. Para Neyss, a proibição do banho só seria necessária logo depois de um incidente. “O tubarão permanece na área até quinze dias depois de ter atacado”, diz.

Segundo Ariano Luna, coordenador dos bombeiros da Defesa Civil de Pernambuco, não há fiscalização nas praias. E admite: “Deveria haver uma lei estadual que regulamentasse o banho de mar”. Hazin, por sua vez, afirma que quem segue as normas de locais e horários apropriados, está longe de perigo.

Motivos

Desde 1994 pesquisadores investigam os motivos que levam tubarões a atacarem banhistas em Recife. O primeiro incidente foi registrado em 1992 e de lá pra cá já aconteceram 47 ataques. Dezessete fatais. Todos aconteceram numa faixa de 20 km de litoral. Por trás dos incidentes estaria a pesca de arrasto de camarão – que provoca rejeito de peixes no mar -, o desvio do curso original de dois rios para a construção do Porto de Suape e o Matadouro Municipal de Jaboatão.

Este último foi fechado há um ano e despejava diariamente uma média de 300 mil litros de sangue e vísceras no rio Jaboatão, atraindo tubarões para a área. “Agora é a fábrica de papel Portela que joga esgoto no rio. O tubarão que procriava nessas águas, em áreas de mangue, se vê obrigado a deixar o rio poluído e ir para o mar buscar alimento”, revela Neyss.

O oceanógrafo Fábio Hazin afirma ter licença do Ibama e da Agência Estadual de Meio Ambiente e Recurso Hídricos (CPRH) para pescar os tubarões e que não foi imposto a ele um limite de animais a serem abatidos. O Eco não conseguiu falar com o Ibama, nem com a CPRH.

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