Que puma é esse?

Manoel Francisco Brito
sexta-feira, 7 abril 2006 18:30

Peter Crawshaw, que apesar do nome é brasileiro nascido no interior de São Paulo e funcionário do Ibama desde os tempos em que o órgão ainda se chamava IBDF, mudou-se de mala e cuia para a Floresta Nacional de São Francisco de Paula, na serra gaúcha, em 2001. Veio para estudar os pumas que freqüentam o local. Chegou com a certeza de que, em se tratando de onças pintadas e pardas, nada mais o surpreenderia.

Depois de quase três décadas estudando esses felinos – primeiro no Pantanal, depois na Flórida e daí no Parque Nacional do Iguaçu, Carajás e em Porto Primavera, na divisa entre Paraná, Mato Grosso do Sul e São Paulo – Crawshaw aprendeu que são, sobretudo, criaturas metódicas. Quando viram adultos, passam a viver uma vida solitária, interrompida apenas pela necessidade do acasalamento, e reclamam para si vastas extensões de território. No Pantanal, por exemplo, a média de área para cada onça é de 100 quilômetros quadrados. Também aderem a uma dieta específica, baseada em suas preferências individuais, e são cheias de hábitos, como o de retornar às carcaças de suas presas. Patrulham diligentemente o seu território e a cada 8 ou 14 dias renovam as marcas de urina ou fezes para deixar claro para as outras que ali já tem uma onça.

“Uma vez que você conhece o animal”, diz Crawshaw, “vê que ele se comporta de maneira bastante previsível”. Exceto pelos pumas de São Francisco de Paula.

Ao contrário de seus primos de outras regiões do Brasil, eles parecem ter uma estratégia de patrulhamento e demarcação de território no mínimo errática. “Não renovam suas marcações de urinas e fezes em intervalos regulares”, diz o pesquisador. “Também palmilham o terreno de forma irregular”. Nem sempre voltam à carcaça de um animal abatido e sua dieta não é especializada. Parecem escolher a comida com base apenas na sua disponibilidade no momento da fome. Crawshaw já encontrou carcaças de vários tipos de animais atacados pelos pumas de São Francisco de Paula, como ovelhas, veados e tatus. “Já encontramos até evidências de que eles andam comendo o lagarto-teiú, quando é época desse bicho aqui na floresta”, diz.

Mas a surpresa maior de suas descobertas em São Francisco de Paula foi perceber que os pumas estão freqüentando as florestas de pinus, uma árvore exótica utilizada pelas indústrias de madeira e celulose e que nos últimos anos vêm tomando os campos nativos nas serras gaúcha e catarinense. “Aparentemente os pumas estão usando as florestas de pinus como corredores, uma vez que a expansão do pinus coincide com a expansão da população de pumas na região”, diz Crawshaw que estima a população em até uns 500 animais para toda a região. “Essa é uma hipótese ainda, baseada nas evidências encontradas”, continua ele. “E me preocupa muito a possibilidade de pessoas mal-intencionadas usarem isso de forma errada, dizendo que o pinus faz bem à natureza. Na verdade, essas florestas comerciais estão fazendo desaparecer os campos nativos, um ecossistema muito frágil”.

Nem uma captura

Crawshaw teorizou primeiro que o impacto do pinus sobre os pumas era fruto da proteção que esse tipo de floresta dava aos bichos, interligando remanescentes de mata nativa, ampliando seu raio de ação. Mas começou também a encontrar evidências de que estavam caçando animais – veados, tatus – bem nas áreas de plantação de pinus.

Resumindo toda essa história, desde que começou a tentar abrir a caixa-preta dos pumas no Sul, Crawshaw só teve surpresas. Uma das principais foi não conseguir capturar um animal sequer para instalar no seu pescoço um colar com rádio transmissor, detalhe fundamental para poder acompanhar os passos do bicho mata adentro.

Não que seja fácil pegar uma onça. Ainda mais viva. Mas para Crawshaw, que capturou muitas delas ao longo de sua vida como pesquisador, não colocar um colar sequer num animal foi uma derrota. “Isso atrapalhou muito o estudo porque nos impediu de individualizar os animais em nossas pesquisas”, diz. Não foi por falta de determinação que as onças não caíram nas armadilhas. Ele usou toda a experiência que tinha acumulado nos seus estudos e, exceto pelo emprego de cães para acuar o bicho – seu método preferido de captura nas áreas abertas do Pantanal – tentou de tudo. “A gente botava armadilhas de caixa, com isca dentro e barreiras externas para direcionar o animal a chegar perto da porta”, relembra. “E ele, esperto, dava meia volta e passava ao largo”.

Até ajuda externa para por a mão nos pumas Crawshaw aceitou. “Vieram pesquisadores americanos que já tinham experiência em capturas de onça-parda com armadilhas de laço”, conta Micheline, bióloga casada com Crawshaw que é hoje sua assistente de campo. Passaram uma semana montando armadilhas e testando novas técnicas. Mas nem assim conseguiram ter sucesso. Esse comportamento furtivo dos bichos foi também responsável por uma experiência inédita na carreira do pesquisador. Ao longo dela, cansou de ver onça. “Aqui, só vi uma. Era um macharrão, que caiu numa das armadilhas de laço”, conta.

Quando Crawshaw se aproximou do animal com uma pistola carregada com um dardo para anestesiar o bicho, ele conseguiu se soltar. “O laço, provavelmente, pegou apenas a ponta da pata. Ele forçou a fuga e se foi”, diz. Os outros três pumas que freqüentam os 1 mil e 600 hectares da Floresta Nacional, ele só viu nas imagens (foto) capturadas por armadilhas fotográficas, que disparam a máquina quando os sensores detectam algo passando na sua frente. Crawshaw diz que por conta de tanta coisa inesperada em relação aos pumas de São Francisco de Paula, fica às vezes com a consciência pesada. “É duro, depois de cinco anos, não poder chegar a nenhuma conclusão baseada em dados quantitativos”.

O que não quer dizer que ele ache que perdeu seu tempo. “Vou fazer um relatório com mais impressões do que certezas, mas espero poder indicar caminhos futuros para o estudo de onças aqui”, diz. Nesse relatório, reformulará algumas hipóteses que guiaram o estudo. A mais radical delas diz respeito aos próprios pumas da região. Levando em consideração, digamos assim, a natureza imprevisível e excessiva esperteza dos pumas da serra do Sul do Brasil, Crawshaw não resiste a se perguntar se, depois de séculos de convivência direta com os homens, eles não desenvolveram alguma forma de inteligência que acabou lhes dando uma ecologia mais flexível para enfrentar a pressão. “Esse contato”, diz ele, “parece ter equipado os animais com uma capacidade diferenciada de se adaptar à situação e tirar proveito dela”.

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