Que venham as aves

Cristina Ávila*
sexta-feira, 4 novembro 2005 13:45

Flamingos cor-de-rosa começaram a chegar na Lagoa do Peixe, no Rio Grande do Sul. Eles vieram do Chile e da Argentina e ficam até abril na companhia de gaivotas, cisnes, marrecas e diferentes aves nativas. Outras espécies migratórias dos hemisférios Norte e Sul também procuram a região nesta época do ano e atraem turistas para o que já ficou conhecido como Festival Brasileiro de Aves Migratórias. Entre os dias 11 e 15 de novembro, será realizada a 5ª edição do evento nas vizinhas cidades históricas de Mostardas e Tavares.

A região é conhecida como pantanal gaúcho, graças às revoadas de aves e às características ambientais que lembram o ecossistema mato-grossense. O Parque Nacional da Lagoa do Peixe tem 33.500 hectares e faz parte de uma imensa planície costeira recortada por banhados e lagoas que ocupam praticamente todo o litoral do estado. Mas nem por isso a região está livre de intempéries. No ano passado, a seca no Rio Grande do Sul provocou a redução de 90% da Lagoa do Peixe, que tem 40 km de comprimento, e afugentou as aves. Quase nenhuma foi vista por lá. Mas este ano, as chuvas e o clima ameno as trouxeram de volta.

O parque se localiza entre o Oceano Atlântico e a Lagoa dos Patos, a 226 km de Porto Alegre, com extensas praias, campos de dunas e matas nativas. A Lagoa do Peixe, que dá nome à unidade de conservação do Ibama, tem águas rasas, de apenas 10 a 60 centímetros, que se comunicam com banhados e mar por uma faixa onde a profundidade chega a dois metros. As águas salobras e limpas são ambiente de proliferação de algas, crustáceos e peixes que servem de alimento para mais de 180 espécies de aves. Vinte e seis delas migratórias do hemisfério Norte e cinco do Sul.

Entre os hóspedes da lagoa, está o maçarico-de-peito-vermelho, que faz ninho perto do Pólo Norte e vem passar o verão no Brasil com os filhotes. Também costumam aparecer leões-marinhos e lobos-marinhos, trinta-réis, tartarugas e até pingüins.”Recebemos muitos visitantes estrangeiros – dos Estados Unidos, Europa, Canadá e da América do Sul. E muitos gaúchos, claro”, brinca a bióloga Maria Tereza Queiroz Melo, chefe do Parque Nacional da Lagoa do Peixe. O lugar chega a abrigar 40 mil aves.

Por causa de sua importância no ciclo de vida da avifauna mundial, em 1991 o parque passou a integrar a Rede Hemisférica de Aves Limnícolas (que vivem em áreas alagadas) da Reserva da Biosfera da Unesco e do Tratado Ramsar acordo internacional para proteção de áreas úmidas. Ainda assim, os governos estadual e federal lhe dão pouca importância. Este ano, o festival quase não aconteceu por falta de verba. A Secretaria de Turismo do Estado ofereceu menos recursos do que o prometido e foi preciso prefeituras e comércio local fazerem um mutirão para manter a programação.

Juntas, as populações de Mostardas e Tavares não chegam a 20 mil habitantes. Ambas foram colonizadas por açorianos no século XVIII e guardam resquícios da arquitetura colonial. Em 1986, quando o parque foi criado, a população local não era simpática à idéia por causa das imposições que vieram com a fiscalização da unidade de conservação. Mas depois que o festival começou a atrair 3 mil turistas para a região e se tornou uma opção de renda, a opinião mudou.

Ainda assim, o ecossistema da Lagoa do Peixe sofre ameaças. O parque nacional é cercado por plantações de pinus – uma das maiores preocupações dos ambientalistas gaúchos. Essas florestas plantadas mudam todo os sistema de ventos na região, alterando as condições naturais das dunas da planície costeira. As árvores interferem ainda no sistema hídrico dos banhados, pois sugam muita água do solo. O parque sofre saques de pescadores e caçadores ilegais. Com quase 20 anos de criação, 90% de seu território ainda é propriedade de fazendeiros. Apenas 10% foram desapropriados.

O público cativo do parque são mesmo os observadores de aves, atraídos pela localização à beira-mar e as vantagens climáticas do verão. Mas o hobby exige cuidados especiais. “Devemos evitar grandes grupos de pessoas, não fazer barulho, ficar atentos a piados e usar equipamento correto. Na lagoa, são necessários binóculos e câmaras fotográficas com certa potência, pois as aves ficam longe”, ensina a bióloga Carla Fontana, coordenadora do Laboratório de Ornitologia do Museu de Ciências e Tecnologia da PUC. Ela vai dar cursos para leigos durante o Festival de Aves.

Carla Fontana se dedica à atividade há muito tempo. Foi diretora do Clube de Observadores de Aves de Porto Alegre, que funcionou até o fim da década de 90. Esse tipo de clube é comum em diversos países do mundo, mas no Brasil há poucos grupos organizados. “Esse é um hobby intelectual. Exige dedicação. Não é como passear de bicicleta. Exige que as pessoas comprem livros, estudem e tenham tempo para saídas de campo”, explica. O clube da capital gaúcha esteve em atividade por mais de dez anos, mas acabou por falta de recursos.

Para informações sobre aves:

Centro de Estudos Ornitológicos/ USP
Pró-Aves
Centro Nacional de Pesquisa para Conservação das Aves Silvestres
(Cemave/Ibama)

National Audubon Society
Aves Argentinas
Birdlife

*Cristina Ávila é jornalista freelancer em Porto Alegre e tem 25 anos de profissão.

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