Louca por cobras e lagartos

sexta-feira, 14 outubro 2005 18:59

Esta é história do sapo que encantou a princesa. “A culpa é dos lagartos”, diz a pesquisadora Diva Maria Borges-Nojosa, sempre que sua avó, dona Alzira, quer saber o que aconteceu na sua vida. Primeira filha numa família que já tinha quatro meninos, ela foi parar na faculdade de Biologia ainda indecisa se deveria optar por Medicina ou Psicologia. Na dúvida, arranjou um estágio no Laboratório de Herpetologia da Universidade Federal do Ceará, dirigido na época pelo professor José Santiago Lima Verde, que não levou Diva a sério. “Mulher só serve como incubadora”, dizia. Vinte anos depois aquela menina baixinha, de cabelo castanho escorrido, dirigiria não só o Laboratório como a Coleção de Herpetologia e o serpentário da universidade.

Ela chegou naquela sala ladrilhada, repleta de animais afogados em formol, com um velado horror a cobras e forte inclinação a bater em retirada para a Biologia Genética. Mas, para sua surpresa, os aspectos científicos da herpetofauna cearense a cativaram. Quando viu, estava pegando o Ford Corcel verde-jade de seu pai e subindo a Serra de Baturité em busca de espécies raras de lagartos doadas à coleção. Era o começo de sua tese de mestrado e de uma mudança radical em seu projeto de vida. O ano? 1988.

“Olha, é a mulher das cobras”, sussurravam as crianças da região quando a viam. No primeiro dia, ao descer do carro armada com uma espingarda de ar comprimido e a bainha da calça enfiada dentro da bota, a pesquisadora foi confundida com a nova delegada, que deveria chegar no mesmo dia. Mas esclareceu: “Vim atrás de cobras, lagartos e sapos”. Ganhou o respeito dos moradores. No Nordeste vige o mito de que os lagartos são peçonhentos e perigosos, ainda que não exista uma só espécie venenosa no Brasil. Em Baturité, conta-se que um homem comeu salamanta torrada e morreu. A morte ocorreu dez anos depois da refeição, mas isso não abala a certeza popular sobre sua causa. Quando lhe perguntam se salamantas de fato são venenosas, Diva responde: “Na cultura popular, sim. Na ciência, não.”

Quebrando tabus, ou aprendendo a conviver com eles, Diva ganhou a confiança dos mateiros. O primeiro a lhe apresentar a Serra de Baturité foi o Sr. Sebastião, que lhe ensinou a andar no mato. “Preciso dos mateiros para encontrar a trilha. Fico com a cabeça na coleta, agachada, quando percebo não sei mais onde estou”, ela explica. Às vezes a pesquisadora passava 12 horas na mata. Mateiros como Chico Reinaldo ficavam admirados: “Eu a achava corajosa demais”, diz ele. Diva foi a primeira cientista que conheceu. A cada parada para descanso, ele aproveitava para descobrir tudo que sempre quis saber sobre aqueles bichos. Chico também nunca tinha visto uma mulher armada e ficava impressionado com a pontaria de Diva. Ela usava uma espingarda de chumbinho para atirar em animais que pudessem fugir antes de conseguir capturá-los. Escolhia a pata, o pescoço ou qualquer outro lugar que não deformasse demais o bichinho, inutilizando-o como material de estudo.

Depois de capturá-los, Diva ajeitava os corpinhos na posição mais natural possível e lhes injetava formol. Fazia anotações sobre a data, as condições e o local onde o animal foi encontrado e no fim da expedição os levava para a coleção de herpetologia da universidade. Animais que já tivessem espécimes coletados eram apenas analisados e depois soltos. Durante os três anos de pesquisa para o mestrado, Diva capturou 69 espécies (24 anfíbios e 45 répteis) em Baturité, sendo cerca de oito delas endêmicas e algumas desconhecidas para a ciência.

Os brejos-nordestinos, ou brejos-de-altitude, como foram batizados em 1964 pelo pesquisador pernambucano Andrade-Lima, normalmente são relevos com mais de 600 metros cobertos por uma vegetação florestal bem diferente da caatinga que os cerca. Ao primeiro olhar, essas lombadas verdes parecem guardar resquícios da mata atlântica que um dia cobriu a região e se reduziu a menos de 1% em todo Nordeste. Mas neles há espécies amazônicas, atlânticas e – o que é mais importante – únicas. Há indícios de que no passado os brejos sofreram influência da Mata Atlântica e da Floresta Amazônica. O que é notório, sobretudo na herpetofauna, cujas espécies dependem de ambientes sombreados e úmidos. “Durante a pesquisa, encontrei variações de espécies existentes nesses dois ecossistemas. Mas como sabemos que essas populações estão isoladas há milhares de anos, provavelmente trata-se de uma nova espécie”, diz Diva.

As surpresas do Baturité levaram a pesquisadora a querer estudar a herpetofauna dos outros principais enclaves de mata úmida do Ceará. O projeto virou sua tese de doutorado e foi financiado integralmente pela Fundação O Boticário. Só que agora Diva estava casada. Era professora de Zoologia na Universidade Federal do Ceará. E tinha dois filhos, Iago e Beatrice. A caçula ainda não chegara aos três anos quando a pesquisadora arrumou as malas para voltar ao campo.

No total, ela fez 73 viagens a cinco brejos de altitude. Além de Baturité, passou a pesquisar o planalto de Ibiapaba, as Serras de Maranguape e Aratanha, e a Chapada do Araripe. Seu alvo era a biodiversidade desses enclaves, que têm o maior índice pluviométrico do estado e registram as temperaturas mais baixas do Ceará. Mais uma vez, contou com a ajuda dos mateiros para conhecer as novas áreas e encontrar exemplares da fauna. Ela pegava a estrada com a cópia xerox de mapas de relevo e marcava as manchas de mata que ia encontrando. Às vezes, quando ia estudá-las um mês depois, não existiam mais.

Tendo um clima inverso ao da caatinga, os brejos são alvo de intensa ocupação demográfica, exploração econômica e desmatamento. No planalto de Ibiapaba, há grandes extensões desmatadas, erosões e um forte processo de fragmentação da mata. “Além dos bichos terem sido isolados da Mata Atlântica e da Amazônia, eles estão sendo isolados em pequenos tufos verdes pelo homem. O problema é que quando uma espécie some da região, ela some mesmo”, diz Diva.

O segredo é chegar antes da degradação antrópica. “Olho tudo”, conta a pesquisadora, “E não desperdiço uma viagem sequer. Não me dou ao luxo de me machucar. Uma perna quebrada pode me custar a reserva do carro da universidade e um mês sem expedição”. Nenhuma viagem de campo pode ter menos de um dia, porque é preciso tempo para aguçar o olhar, treiná-lo a encontrar seres mínimos e miméticos. “A cobra é o animal mais difícil de se trabalhar, porque é de uma delicadeza incrível. Desliza pelas folhas em silêncio e pressente a sua chegada. Para notá-la só com muita experiência e sorte”, ela comenta.

Para os sapos basta ter ouvidos, de preferência ouvido de maestro. Às vezes a herpetóloga trabalha à noite de galochas em pequenos lagos. Em minutos é capaz de dizer quantas espécies estão coaxando. Pelo som, vai diretamente ao lugar onde estão os bichos. “Ver e não coletar certos exemplares me dá aflição. Você nunca sabe se vai reencontrar aquela espécie. Cada oportunidade pode ser única”, diz ela. Por isso sempre que encerra uma viagem deixa os mateiros equipados com baldes e formol, para o caso de encontrarem um exemplar estranho na sua ausência. Foi assim que José Carneiro passou a conhecer até o nome científico dos répteis. Cuidando do jardim do sítio da família Lima Verde, em Pacoti, ele achou um lagarto que nunca tinha visto. Primeiro, pensou em matá-lo. Depois, achou bonito e resolveu guardá-lo. Diva descobriu que o calango nunca tinha sido registrado e o batizou em homenagem aos Lima-Verde. Zé Carneiro ainda capturou na mesma propriedade uma cobra verde imensa (Pseutes sulphureus) que só existe na Amazônia e na Mata Atlântica. Nunca tinha sido encontrada no Ceará.

Um sinal de que Diva leva uma vida diferente é o conteúdo de sua bolsa. Leva GPS, altímetro, termômetro, lupa, estilete, pincel, elástico, gancho de ferro, paquímetro, ancinho, lanterna, caderneta, lápis, caneta, saco plástico, capa de chuva, biscoito, molhos de chave, câmera fotográfica e papel higiênico. Faltou na lista repelente de insetos? É porque isso ela só usa em casos extremos. Alguns animais não resistem ao menor contato com o produto.

Em pousadas onde conhece o dono, Diva costuma montar bancadas no corredor em frente aos quartos para analisar animais coletados e colocá-los no formol. Jura que nunca escutou reclamação dos demais hóspedes. Também é comum manter sapos capturados no banheiro – uma tentativa de convivência pacífica entre uma boa noite de sono e o coaxar do hóspede. Mas nem sempre é possível. Às vezes tem que caçá-lo novamente de madrugada no quarto – ou pior, na barraca.

Diva concluiu o doutorado em 2002. Em cinco anos de pesquisa, encontrou 124 espécies de diferentes grupos. Inclusive oito desconhecidas para a ciência e 22 novos registros para o estado do Ceará (7 anfíbios e 15 répteis).“ Me convenci de que esse seria um projeto para toda a vida. Já chego a desanimar quando encontramos uma espécie nova, acontece com relativa freqüência , e não consigo nunca concluir a lista de uma área”, diz ela.

Desânimo mesmo dá de ver os brejos nordestinos serem devorados pela ação do homem e condenados a poucas décadas de vida.

Apenas o Planalto da Ibiapaba contém uma unidade de conservação integral: o Parque Nacional de Ubajara.Mesmo assim, o menor parque do Brasil (563ha). Recentemente ele foi ampliado, mas só no papel. Os demais enclaves só têm Áreas de Proteção Ambiental, onde quase tudo é permitido. O jeito é registrar, ou pelo menos tentar, todas as espécies que existem ali para provar a importância de se preservar a região. “Muita gente acha que sou uma caçadora de animais, mas só conhecendo é que se tem condições de preservar”, explica Diva os ossos de seu ofício. Por isso, é mais do que provável que, no momento em que a leitura chegou a este parágrafo, ela ou seus alunos estejam agachados no mato, diante de uma raridade da herpetofauna cearense que o Brasil quase perdeu antes de conhecer.

* Esta reportagem faz parte de um livro sobre os 15 anos da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza.

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