A água anda quente

Marcos Sá Correa
quinta-feira, 22 setembro 2005 16:59

Sulapak Ganjanakhundee, repórter do The Nation, um jornal de Bangcoc, na Tailândia, reclama dos governos que “não querem repórteres olhando muito de perto” as barragens que erguem a torto e a direito no Sudeste da Ásia. Seth Hettena, que trabalha no escritório da Associated Press em San Diego, fala da seca que botou fazendeiros, cidades e “até estados” para brigar uns com os outros no Oeste dos Estados Unidos. John Trotter, fotógrafo novaiorquino, conta que o tamarisco, planta trazida do oriente para segurar barrancos no rio Colorado, atravesssou a fronteira mexicana como tempestades de sementes semeadas pelo vento, tomando o lugar dos peixes, dos pássaros e até dos pés de algodão no delta salobro da Baixa Califórnia. D’Vera Cohn, do Washington Post, revive a série de reportagens em que acusou as autoridades de esconder da população o teor de chumbo e outros tóxicos injetados nas veias da capital americana.

Etc. Ao todo, 26 jornalistas tratam do mesmo assunto no último número da Nieman Reports, a revista trimestral de uma fundação que há quase 70 anos enxertou na universidade de Harvard um programa de bolsas para “melhorar o padrão” da imprensa americana e, por tabela, a do mundo. Pelo visto, funciona. Os ex-bolsistas conseguiram encher 60 páginas desta edição da primavera, sem dar a impressão de estar encalhados naquele que a escola nos ensinou a chamar de insípido, inodoro e incolor. Pois é, a água.

De cara, Stuart Leavenworth, do Sacramento Bee, explica por que cada vez mais repórteres terão que aprender a lidar com ela. “É a economia, estúpido”, resume o subtítulo. Ele mesmo cuidou só de água durante quatro anos em seu jornal, antes de virar editor. E, para sua “tristeza”, desfrutou do privilégio de atuar em campo limpo, por falta de concorrência. Um desastre ou outro podia acidentalmente invadir seu território profissional, com as manchetes de praxe sobre poluição ou torneiras ressecadas. Mas na água propriamente dita quase ninguém tocava. Talvez por achá-la chata ou, pior, coisa de ecochato. Mas sobretudo porque, para cobri-la, os jornalistas precisam entender pelo menos um pouco de “engenharia, economia, meteorologia e agricultura”.

Ele caiu na água “com uma rã aprendendo a nadar”. Vinha da editoria de meio ambiente no The News & Observer, da Carolina do Norte. Estava numa cidade entalada na confluência de dois grandes rios, onde os índios, pelo sim, pelo não, nunca se arriscaram a fixar uma aldeia que as enchentes pudessem riscar do mapa. E substituía Nancy Vogel, a patrona da vaga de “repórter de água” na redação, cujos talentos, segundo Leavenworth, “jamais foram devidamente valorizados pelo jornal”. Mas Laevenworth acabou ganhando premios de jornalismo – o Thomas L. Stokes Award, por exemplo – com suas más notícias sobre a falta de água na Califórnia, publicando inclusive as evidências fósseis de que, no passado, a região atravessou estiagens que duravam séculos inteiros. E assim, ele diz, até “os editores começaram a notar” que o assunto era quente.

Aliás, anda fervendo. Multinacionais européias, lembra Leavenworth, andam comprando fontes de água mineral pelo mundo a fora, “levantando temores de que cada vez mais a água se torne um artigo privado”. Mark Grossi, repórter do The Fresno Bee, anuncia na revista uma nova carreira para jornalistas: a de enviado especial às frentes de batalha, onde ocorrem disputas comerciais, políticas, jurídicas e quem sabe até militares em torno desse produto vital, mas parco. “Os processos legais, sozinhos, já seriam uma rica fonte de histórias, para quem for capaz de explicá-las no contexto das manipulações que os engenheiros têm feito com a natureza”, avisa Grossi. Boa sugestão. Pena que chegue meio tarde a um país que aproveitou a crise política para despejar a transposição do rio São Francisco nas últimas páginas dos jornais.

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