Reportagens

Seu nome é Lutz

Lara, filha do lendário ambientalista gaúcho José Lutzenberger, herdou a fundação, a empresa e o rincão criados pelo pai, e prossegue seu trabalho holístico.

Renan Antunes de Oliveira ·
28 de julho de 2005 · 16 anos atrás

Ela é gaúcha, mas seu nome parece saído de um almanaque da nobreza germânica: Lara Josette Wilm Lutzenberger. Se existe uma nobreza ambientalista no Brasil, então ela é da mais pura linhagem: Lara é filha do grande “Lutz”, José Lutzenberger, o pioneiro do verde nestas paragens.

Hoje incorporou até o apelido do pai, virou simplesmente Lara Lutz. Mas a receita é complexa: bisneta de chinesa, nascida na Casablanca do filme, cidadã alemã criada no bairro judeu de Porto Alegre, casada com um argentino filho de suíços, alma puramente brasileira, pampeana de tomar chimarrão todo dia – com o capricho de só consumir erva uruguaia.

Lara preside a mesma Fundação Gaia criada pelo pai, morto em 2002. “Não quero ser como ele, quero apenas continuar sua obra”, diz. A Gaia é ong de referência em ambientalismo no Rio Grande, embora sem a força que tinha no tempo de Lutz.

Mais Lara: 1m80, 62 quilos, 35 anos parecendo um pouco menos, pisciana, olhos verdeazulados, bióloga formada pela federal, despojada para vestir, nenhuma tatuagem, nenhuma jóia, exceto por um anel de uma tia-avó e a aliança de casada com aquele argentino, Alejandro é o nome dele. Seu último romance lido foi sobre mulheres chinesas, há anos. De lá pra cá só lê coisas relativas ao ambiente.

Sua jornada de amante-defensora da natureza começou, claro, em casa. “Não me lembro de ter tido um despertar, foi uma coisa que veio através do meu pai. Fui literalmente seduzida pelo mundo natural através dele. Ele me mostrava a visão que tinha, um encantamento com a natureza. Eu nunca me questionei e incorporei esta paixão. Sempre adorei coisas vivas, animais, tinha a ânsia de defendê-los”.

O velho Lutz a levava para consultorias no interior. “Em Torres, ele coordenava uma equipe para fazer açudes e laguinhos, eu acompanhava tudo. Passei minha infância dentro de um Fusca, desbravando os lugares com ele, que me mostrava a paisagem e os mais ínfimos detalhes de cada ecossistema”, lembra.

O sonho de toda criança — uma infância viajante ao lado do pai — não afastou Lara da formação tradicional. Ela fez o primário com as freiras dominicanas do Colégio Santa Rosa e Lima, o segundo grau com as freiras do Colégio Santa Inês. Aluna dedicada e bem-comportada, aos 17 entrou na Biologia da UFRGS e saiu de lá diplomada em 1993. Só atrasou o curso um pouco para viajar com o pai pelo mundo em conferências, quando ele já era uma celebridade.

José Lutzenberger ganhou notoriedade por sua luta contra a empresa de papel Borregard, na década de 70. A Borregard foi vendida para a Riocell, depois para a Klabin e finalmente para a Aracruz. E é para a Aracruz que Lara trabalha hoje, através da empresa Vida.

Parece que a filha vendeu a alma ao diabo? A pergunta não a incomoda. “Vendemos serviços de reciclagem de resíduos industriais para empresas de papel e celulose. A Aracruz tem uma atuação manchada no Espírito Santo, mas no Rio Grande do Sul trabalha noutra condição, é uma das mais limpas do planeta. Aos que pensam que não deveríamos trabalhar, eu pergunto: qual seria a solução? Deixar uma empresa ad eternum poluidora?” – ela pergunta. E responde que prefere trabalhar pela solução, no melhor estilo Lutz.

Sua empresa transforma seus resíduos orgânicos em fertilizantes agrícolas e produz insumos que podem ser usados em jardinagem, vendidos até nos supermercados. É um negócio de R$ 4 milhões anuais. A Vida foi criada pelo pai, e Lara orgulha-se de seguir também sua veia empresarial: “Papai colocava o rendimento dele na Fundação Gaia e no Rincão Gaia”.

A Fundação faz um trabalho cabeça. Mobiliza a população “para que as pessoas se tornem ativas na preservação”, com projetos em escolas e empresas, em parceria com a Livraria Cultura e com a TV Educativa, onde Lara tem uma cadeira de comentarista ambiental.

O Rincão é a sede rural da Fundação, um retiro ambientalista em Pântano Grande, interiorzão gaúcho. Foi criado por Lutz-pai em 1987, em 30 hectares de uma área degradada pela mineração de basalto. Totalmente recuperado, o sítio se tornou “uma área rica em biodiversidade, com produção agrícola orgânica e pecuária natural, além de grande zelo estético”, nas palavras de Lara.

O lugar recebe visitantes toda semana. O último grande evento foi em junho, uma reunião de lideranças para discutir a questão indígena no estado. Nessas ocasiões, a estrutura do rincão funciona como um hotel, sem estrelas, mas saudável: suas lavouras, hortas e criações abastecem a mesa.

O nome foi escolhido pelo próprio Lutz. Gaia é a Terra para os gregos. O termo ficou cult nos anos 70, pelo trabalho de James Lovelock, pesquisador britânico criador da “Hipótese Gaia”. O papo é que a Terra é um sistema vivo, dispondo de mecanismos de auto-regulação, que propiciariam a manutenção das condições ambientais necessárias à vida. A tese representa um modo holístico de se olhar para o planeta, enquadrando os humanos como parte integrante de um todo, onde tudo age interligado – um jeito Lutz de ver as coisas.

É no Rincão que está enterrado José Lutzenberger, numa concessão póstuma das autoridades, atendendo seu desejo expresso. Não há túmulo, sequer uma marca. Ele foi enterrado apenas enrolado num lençol de cânhamo. Quando as pessoas que visitam o lugar perguntam onde está, basta alguém apontar para um bosque e dizer “por ali”, sem medo de errar. “O sepultamento foi um momento mágico. O dia amanheceu esplendoroso. Três planetas se alinharam no horizonte. Na hora final, caiu uma chuva intensa. Quando jogamos a última pá de terra um raio derrubou duas árvores, dispersando a multidão. Foi como se ele estivesse dizendo que queria ficar em paz”, lembra a filha.

Herdeira da fundação, do rincão e do trabalho do pai, agora em vôo solo, Lara Lutz é uma crítica da política do governo Lula: “É excepcionalmente desastrosa”, critica. “No momento em que favorece a economia de exportação, vai na contramão da preservação dos recursos naturais e econômicos”. Por isso ela considera “uma ruína” a expansão do mercado da soja. “Ao apostar toda a economia no mercado internacional, ficamos sujeitos à volatilidade do meio. Num dia tu ganhas trilhões, no outro tu perdes tudo. O mercado é manipulado e inseguro, e se baseia na exploração insustentável dos recursos naturais e sociais do país”, acusa.

Lara viveu com Lutz o apogeu de sua atuação ambientalista, e acompanhou o pai também nos dias difíceis. Ele foi muito criticado pela esquerda, em seus últimos anos, por ter aceito o convite do presidente Fernando Collor para integrar sua equipe. “Foi um ato de coragem, que o desgastou. Ele achou que no governo poderia fazer diferença. Quando ele viu corrupção, denunciou os atos e caiu fora, saiu antes da ECO 92, a Conferência Mundial da ONU que ajudou a organizar. Papai acreditou que Collor era honesto e que poderia ajudar na política”, defende.

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