Receita de liberdade

Carolina Mourão
quarta-feira, 27 julho 2005 17:36

Dizem que passarinho de cativeiro morre se for solto da gaiola. Morre nada, quem diz-quê? Se morrer, livre lá do alto, leva menos tempo para chegar ao céu. Afinal, que graça pode ter um pássaro atrofiado dentro de uma gaiola, tanto para o próprio quanto para quem o vê?

Estou convicta de que, assim como as touradas na Espanha, a cultura da gaiola no Brasil já devia ter acabado. Confesso que gosto de soltar passarinhos dos outros, sem que ninguém me veja. Um delito irresistível. Desde a infância, seguramente, já libertei bem uns 80. Cheguei a comprá-los para soltar, sem saber, ainda criança, que estava alimentando esse mercado cruel. Para isso gastava todo o meu dinheirinho.

Pratiquei muito e posso dizer: existem duas formas de soltar passarinho nessa vida. A mais indicada é virar a gaiola de cabeça para baixo. O passarinho sobe e sai, sem trauma. Mas cuidado: o bebedouro e o alpiste podem derramar. Mas se a gaiola estiver presa ou for grande demais, aí é na raça. Tem de ser rápido: você dá uma olhada geral, mete a mão e torce para o pássaro se debater menos que da última vez. Negociar a liberdade dele seria mais razoável, porém muito arriscado. Se o dono não topar, você não vai mais poder libertá-lo sem levantar suspeitas. E provavelmente o passarinho vai ser trancado num quartinho de castigo, mais seguro. Duas coisas: suavidade e precisão ao agarrá-lo para não machucar as asas, e sair de perto da cena do crime assim que botar a mão no bicho. Depois, dê uma boa olhada nele, um carinho, levante os braços e abra as mãos, simplesmente.

Já os malditos poleiros de papagaios também não fazem sentido, assim como os próprios papagaios cativos. Silvestres, são retirados dos ninhos naturais e não se reproduzem em cativeiro, nem jamais se adaptam a ele. Sofrem muito antes mesmo de chegarem ao primeiro dono. Mesmo assim, soltá-los pode significar uma crueldade ainda maior. De asas cortadas ou atrofiadas pela falta de uso, a maioria não sabe voar, sequer pousar. Caem no chão, batem o bico, e lá ficam.

Pouca gente sabe, papagaios vivem 50, 60 anos. Por isso acabam sempre passados para frente ou abandonados em áreas de serviço frias e deprimentes. Eles morrem mais de tristeza do que de maus-tratos diretos, um tipo de mal de melancolia parecido com o banzo, que mata gente. Ganhei um de herança, há 6 anos. A dona se mudou e não pôde levar o bibelô, que virou mala-sem-alça. Nunca imaginei ter um, sou contra. Fiquei com ele porque tive medo do que o destino pudesse lhe reservar depois da minha recusa. Sei que as histórias de papagaios são sempre tristes.

Como a maioria, o meu louro teve muitos donos e desventuras. Até onde eu sei, ele ficou três anos preso em uma gaiola de metal com pesadas correntes, para garantir o cativeiro do condenado. Não satisfeito, o antigo dono vinha, como se ele fosse uma galinha, abria suas asas num toco e metia o facão. Depois ele mudou de dono e de grilhão: foi para um poleiro de 20cm por 20cm sem nunca ter sido retirado, confinado em uma garagem de ferramentas escura, sem nenhuma janela – era o quartim. Puxou 8 anos nessa solitária. Quando me foi dado, o louro estava depenado, seu pescoço estava mole, não emitia nenhum som, não reagia a nenhum estímulo a não ser encolher-se à luz do sol. Foi quando ele conheceu o sítio.

Passou um mês sem sair do mesmo galho, quando comecei a reabilitá-lo. Depois, todos os dias em uma árvore frutífera diferente. A pegada das patas foi ficando mais forte para alcançar outros galhos. Só descia às cinco da tarde, quando esfriava, chamando alguém para levá-lo para dormir no quentinho. Até hoje é assim. Vetei o corte das asas e das unhas, que garantem a firmeza da pegada. Troquei a corrente por uma cordinha de náilon. Mas percebi que atrapalhava seus movimentos e prendia nos galhos. O resgate era sempre difícil. Depois aprendeu a pousar. Hoje ele vive de árvore em árvore, e até se aventura perigosamente fora da cerca, no cerrado. Volta à tardinha. Outro dia tive de procurá-lo, desaparecido havia três dias. Por sorte estava com uma boa senhora, em uma chácara afastada. Prova frutinhas e sementes de todo tipo. Canta muito. Adora uma conversa. Outro dia tinha uma lagarta no bico. Fiquei feliz porque encontrar uma fonte de proteína para o louro era uma preocupação.

A última coisa que fiz foi tirar o anel de metal preso à canela. Esta lhe deformou a pata. Quando ficou completamente livre dos ferros, o louro passou o dia todo olhando para baixo, abrindo e fechando a garra, cantando sem parar. Aí escolhi seu nome: Garrincha, pelo gesto e pelo defeito na caneta. O nome de antes, até aquele dia, não fazia sentido. Pavarotti. Mas recentemente descobri que o meu louro é fêmea. Ficou de novo sem nome. Que tal liberdade?

29 comentários em “Receita de liberdade”

  1. Vou tentar fazer isto.
    Na casa de meu tio há 13 periquitos presos em uma pequena gaiola, 4 ainda são filhotes, e eles se reproduzem direto.Quero comprar deles filhotes nas férias para tentar reabilitá-lo, ME AJUDEM NISSO, POR FAVOR, não gosto de vê-los presos ali em uma pequena gaiola.
    Também não aguento ver bicho nenhum preso, nem cachorro.Já até soltei um periquito, quando eu ainda era pequeno.

    Responder
    • Não faça isso. Os periquitos vão morrer se forem soltos, não vão achar comida e vão ser presa fácil de qualquer predador. Além disso não são animais brasileiros, se forem soltos e por acaso sobreviverem, vão virar pragas, comer a comida dos passarinhos brasileiros e podem até levar alguns a extinção.

      Responder
  2. Tenho um periquito australiano que acabou caindo no meu prédio. Neste dia acreditei ser um filhote pois estava completamente encolhido e vinha mão facilmente mas na verdade ele estava morto de fome, quase literalmente morto. Nunca gostei de bichos em gaiolas e me entristece o ver lá e gostaria muito de dar mais espaço e convivência com outros de sua espécie porém, pela experiencia de seu resgate sei que ele não viveria sem receber alimentação de humanos…
    Gostaria muito de encontrar alguma solução.

    Responder
      • nao tem como soltar!!!! sao especies domesticas, que um dia vieram da australia, mas que hoje pouco tem a ver com seus antepassados. soltar é o mesmo que abandonar um cachorro na rua. voce esta negando o cuidado de que eles sao dependentes a eles. voce pensa "vou soltar meu coelho ou meu porquinho da india para ele viver solto na natureza?" nao!!!

        Responder
        • Parabéns pelo seu comentário, você falou tudo, essa mulher que postou o artigo acima não entende nada de passaros domestico e exotico, e uma tristeza que tem muitas pessoal com uma imagem errada de quem cria passaros domestico.

          Responder
      • boa tarde eu me chamo Marcos e também acabei de pegar um em frente a minha residência, é um periquito da Austrália, eu já liguei para vários órgão para ele ter uma vida correta ou seja fora de gaiola que eu tenho a maior raiva em ver qualquer bicho preso sem cometer nenhum crime e está ali, se eu pudesse soltava todos,infelizmente temos um órgão que cuidam disso, mais não funciona bem em nosso pais, por esse motivo irei no Jardim Zoológico para ver se eu consigo deixar ele junto a mesma espécie porque criar na gaiola e entregar ao dono nuca.

        Responder
        • Poxa, as vezes devolver ao dono, é melhor que ao zoológico! Eu perdi um periquito australiano hj. Que nasceu comigo em cativeiro. Tem 3 meses e já tem uma parceira. Eu herdei da minha avó. Como não sei se sobrevivem se soltar, eu comprei um viveiro gigantesco, que eles voam e tudo mais, e tem TUDO, e eu cuido deles como filhos, amo mais que tudo no planeta, cada vez procuro mais e mais espaço e sempre solto em casa tbm, com os os pais (a parceira dele eh o outro filho do casal), então ficam os 4! Estou arrasada que ela se perdeu hj. Se ela encontra alguém como vc, eu nunca mais verei minha pequena! Já pensou? Tomara que eu encontre minha Lupita, ou que ela encontre uma pessoa com um coração que sinta diferente do seu!
          Fica com Deus!

          Responder
  3. Hoje eu fiz a mesma coisa, soltei o passarinho do meu pai. Ele vai ficar muito bravo, mas vou dizer que fui tratar e ele escapou, é uma boa mentira, que Deus me perdoe mas toda vez que eu ouvia ele cantando e via ele preso naquela gaiola meu coração doía demais. Agora ele está livre

    Responder
  4. Pessoal, por favor, não generalizem. Espécies como periquitos, calopsitas e canários são domesticas. Isso quer dizer que foram selecionadas por muitos anos para viver em ambiente domestico. suas caracteristicas fisicas e comportamentais as adaptaram para isso. um dia, apareceu no meu predio uma calopsita. morrendo de sede, sem nada no papo, e apresentando sintomas de problemas neurologicos devido ao calor. tentei salvá-la e não consegui. portanto, soltar essas especies equivale a abandonar um cachorro ou gato. elas dependem de nós e merecem amor.

    Responder
    • Concordo SUPER! Soltar um periquito australiano? Ele não sabe procurar comida. Ele morre de sede, de fome, ele é PRESA para pássaros maiores, para gaviões. Eles morrerem em menos de 3 dias. Vcs não podem generalizar. Antes de soltar, pesquisem o tipo de ave, por favor, para saber se estão fazendo de fato, bem a ela.

      Responder
      • Bom dia Fernanda, Em um dia chuvoso, encontrei um filhote recém nascido de Cambacica no meia da rua, coloquei em uma caixinha e observamos a mãe, mas ela o alimentou apenas 2 ou 3 vezes e não voltou mais, então comprei papinha de filhotes e uma gaiola para abriga-lo, afinal moro em apartamento e tenho cachorro. Alimentei ele a cada 3 horas e o mesmo sobreviveu, canta todos os dias! A gaiola dele fica pendurada no meu varal, bem próximo ao comedouro que é abastecido todos os dias com alpistes e néctar de Beija-Flor. Durante todo o dia vem vários da mesma espécie dele para beber o néctar que coloco também em recipiente preso fora da gaiola. Já deixei a gaiola aberta várias vezes, na esperança que ele fosse atrás de outro da mesma espécie, mas ele apenas bica os outros e sai apenas na porta da gaiola. A última vez ele conseguiu criar coragem, mas percebi que seu voou não é forte o suficiente, pois ele voou bem pouco e foi para o chão! Por morar no terceiro andar, tenho medo que ele acabe caindo lá embaixo… Pensei em solta-lo no térreo, mas não sei se ele saberá a rota para vir se alimentar, além dos gatos de rua que entram no prédio para caçar pássaros. Esse é o meu dilema, não seria pior solta-lo?

        Responder
        • Oi, é um animal silvestre. Você deve encamilha-ló a um órgão ambiental que fará a reabilitação e a soltura na natureza. Ficar com ele e crime

          Responder
  5. E uma crueldade soltar esses animais quase como mantê-los em cativeiro, eles não sabem procurar comida ou abrigo, animais domésticos como calopsitas e periquitos não sabem sobreviver sozinhos, e para animais silvestres que viveram em cativeiro por muitos anos a adaptação pra liberdade e longa e trabalhosa é em alguns casos até impossível.

    Responder
  6. Olá . Achei muito interesante ! Libertei um canário belga do meu irmao de ja estava preso a uns 1 a 2 anos. Me sentia triste ao ver um passso preso e perdendo seu tempo de vida na natureza. Tentei colocar na cabeça dele que lugar de passo e na natureza e nao em uma gaiola, mas sem sucesso. Ele me falava que o mesmo não iria sobreviver a natureza. Mesmo assim o fiz a soltura de pássaro . Depois de um tempo quase uns 3 meses depois de tentar convencer meu irmão . Em uma madrugada fui na área de serviço fazer lavar as mãos e acendir a luz… era umas 4 horas da manhã e assim que o canário me viu ele cantou passeando que estava me pedindo ajuda. Eu voutei para dentro e apaguei a luz ficou bem escuro mas ainda sim conseguia ver ele pois o passarinho era branco. Peguei ele com cuidado e fiquei na mão imaginado que meu irmão iria desconfiar de mim. Então bolei um plano. Simulado que um sarigue ou outro animal tinha derubado a gaiola e e comido o passo … retirei algumas penas da parte de baixo do passo com a mior dor no coração . Mas era nessesario para que não tivesse briga com meu irmão pos tbm o amo. A cada pena o passarinho piava retirei bem hnas 5 penas e o solteio na maior alergia ele vou e possou no telhado do de casa . Creio quelor esta escuro ele nao conseguia ver pra onde ia e ficou por lar mesmo. Então qubrei as taliscas da gaiola simulando a entrada de um animal . E a sainda tbm. A as penas joguei dentro da caioa. E fui dormir no dia seguinte meu plano tia dado certo pois ele no começo desconfiou mas acabou aceitando que u sarigue tinha comido o passo. Ja que no local onde vivo tem muitos. Um dias penso em assumir essa confissão para ele. E espero que ele entendo ….porem eu me coloquei no lugar do passaro eu prefiro murrer livre que preso. E o instinto animal irar ajudalo espero que realmete tenha sido assim. Luga de pássaro e na natureza.

    Responder
    • o irmão como você é ipocrita, canario belga morre na natureza, vai estudar sobre passaros domestico e exotico, oque você fez é crime ambiental, é como soltar um cachorro puldo na amazonia, quanta ignorancia juntas.

      Responder
  7. Em um dia chuvoso, encontrei um filhote recém nascido no meia da rua, retirei e coloquei em uma caixinha e observamos a mãe, mas ela o alimentou apenas 2 ou 3 vezes e não voltou mais, então comprei papinha de filhotes e uma gaiola para abriga-lo, afinal moro em apartamento e tenho cachorro. Alimentei ele a cada 3 horas e o mesmo sobreviveu, canta todos os dias! A gaiola dele fica pendurada no meu varal, bem próximo ao comedouro que é abastecido todos os dias com alpistes e néctar de Beija-Flor. Durante todo o dia vem vários da mesma espécie dele para beber o néctar que coloco também em recipiente preso fora da gaiola. Já deixei a gaiola aberta várias vezes, na esperança que ele fosse atrás de outro da mesma espécie, mas ele apenas bica os outros e sai apenas na porta da gaiola. A última vez ele conseguiu criar coragem, mas percebi que seu voou não é forte o suficiente, pois ele voou bem pouco e foi para o chão! Por morar no terceiro andar, tenho medo que ele acabe caindo lá embaixo… Pensei em solta-lo no térreo, mas não sei se ele saberá a rota para vir se alimentar, além dos gatos de rua que entram no prédio para caçar pássaros. Alguém com alguma dica?

    Responder
  8. Pessoal, primeiramente é crime você abandonar um animal doméstico e é crime soltar um animal silvestre que não seja daqui, na fauna brasileira. Saiba que soltar um animal criado em cativeiro na rua só vai ajudar pra morte do animal que não sabe viver sozinho, nem procurar comida. Isso pra mim é de uma ignorância sem tamanho de uma pessoa que não entende sobre aves nem sobre a importância de criadouros e santuários. Além de extremamente cruel. Não propague essa ideia absurda que você não tá ajudando.

    Responder
  9. Vocês deveriam ser realistas e perceber que o terceiro maior trafico do mundo é o de animais, então o que mais existe são animais impossibilitados de voltar a natureza pela maldade humana, que são vítimas do tráfico de acidente em rodovias…e os órgãos competentes não tem espaço pra todos os animais que são resgatados. Então só invés de tá soltando passarinho dos outros de gaiola porque a gente não tá em cima de quem tá faturando milhões em cima de seres indefesos? Não é difícil entender.

    Responder
  10. Meu gato pegou um piriquito do encontro amarelo estava fraco não voava, aqui onde moro tem muitos pés de manga e sempre vem bandos desses periquitos, e de maritaca também … cuidamos 3 semanas com todo tipo de frutas mais a preferida dele era manga , ele deixava pegar na mão , fechava os olhos e se arrepiava quando meu marido fazia carinho atrás do pescoço ou esfregava a ponta do nariz nele . Animal confiou na gente que estávamos cuidando dele , depois que ficou forte começou a voar , hoje soltei ele , abri a gaiola e deixei ele subir nos galhos do pe de amora , aqui do quintal ,parecia bem tímido não queria ir estava explorando as folhas da árvores até que chegamos perto meu marido pegou um cabo de vassoura na esperança dele subir em
    Cima pra testar, ver se ele viria ou não , e ele voou foi muito lindo e emocionante foi ser livre , ao mesmo tempo que fiquei triste pois temo , será que irá se virar sozinho ? Mais sei que logo encontrará mais da espécie dele e vai ser feliz livre voando e pairando sobre as árvores , todos os dia q eu via ele dentro da gaiola , meu coração doia pois imaginar que um animal desse que pode viver até 50 anos , e preso ali ? Por puro egoísmo do ser humano ! Então hoje acordei e nao adiei a soltura e me sinto muito bem pois fiz minha parte cuidei demos amor e carinho e soltamos na natureza onde é o lugar dele .

    Responder
  11. Isso é MUITA burrice, quando um pássaro domesticado é solto, ele não sabe como conseguir abrigo, comida e até como viver, por isso posso afirmar que você não ajudou em nada esses pássaros que soltou e só os condenou a morte.
    Além do mais que você não sabia se os pássaros eram soltos todos os dias, se viviam soltos e só estavam presos na hora em que você os soltou, etc… Admito que um pássaro que vive engaiolado é uma das piores coisas que o ser humano faz, mas você não tem o direito de soltar e matar eles. Fique sabendo que você matou mais de 100 pássaros com esse seu "heroísmo"

    Responder

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.