A dona dos botos cor-de-rosa

Manoel Francisco Brito
quarta-feira, 27 julho 2005 17:21

boto_close_grOs botos vêm atrás da comida, para deleite da turistada, que mergulha com eles em local imundo, carregado de óleo diesel vazado dos barcos e do esgoto da cidade. Não resistem à oportunidade de nadar com um mamífero que, além de extremamente curioso e dócil, tem aspecto e colorido fascinantes. São mais longilíneos que seus “primos” que nadam no mar. Parecem torpedos bicudos. Suas peles, normalmente de tom rosado, por conta da refração da luz nas águas escuras do Negro ficam rosa-choque. Pelo “show”, Medeiros gostaria de receber de cada um dos estrangeiros 20 reais. Mas deixou pela metade, preço que geralmente pede aos raros nativos que aparecem por lá. “Tento cobrar mais caro porque são de fora do país. Mas na hora de abrir a carteira, querem sempre pagar como brasileiro”, diz ela. Faz sete anos que Medeiros “vende” os saltos do que chama de “seus botos”. O negócio começou meio por acidente há sete anos.

Thiago Straus Rabello, analista ambiental lotado na sede da Estação Ecológica de Anavilhanas, localizada em Novo Airão, corrobora a versão. “Essa coisa dela com os botos elevou o interesse dos habitantes do município em mantê-los vivos”, diz. E Medeiros fala com emoção dos bichos, prova de que de fato gosta deles. Pena, entretanto, que tudo isso ocorra ao arrepio da lei e de maneira absolutamente incorreta do ponto de vista ecológico. A incorreção fica por conta da atração dos bichos para águas imundas, próximas a uma língua negra e ao porto de Novo Airão, onde os barcos despejam combustível no rio sem qualquer controle ou cerimônia. A ilegalidade está no fato de que o que Medeiros faz é proibido por lei.

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Ela alimenta animais selvagens dentro de uma Estação Ecológica (ESEC) uma das mais restritivas categorias de Unidades de Conservação no Brasil. Nelas, a entrada de humanos é permitida apenas para fins de pesquisa. Os 350 mil hectares que compõem Anavilhanas foram demarcados, em 1981, na maneira típica em que Unidades de Conservação eram estabelecidas no regime militar, sem levar em consideração seu impacto na vida da população local. A Estação Ecológica engloba boa parte do rio Negro, uma das principais vias de navegação do Amazonas, de margem a margem. Como qualquer pessoa que mora em Novo Airão, por exemplo, o simples fato de Medeiros usar o rio já a transforma em fora da lei. O absurdo da situação, entretanto, não a redime do fato que ela foi além do que seria tolerável, abusando de um velho hábito nacional, o de privatizar bens públicos — no caso os botos que vêm visitar os fundos de seu restaurante — para ganhar dinheiro em benefício próprio.

“Os saquinhos estão em falta”, apressa-se em explicar. Pergunto se ela controla a quantidade. Jura que sim, mas logo depois admite que serve quantas porções os turistas pedirem para alimentar os mamíferos. “Não posso deixar de atendê-los”, desculpa-se, garantindo que não ganha um centavo com a operação. “Isso até me dá prejuízo. Vivo mesmo é do meu restaurante”, diz. Pode até ser. Seu estabelecimento é limpo e organizado, mas meio para o mulambento, capaz apenas de atrair os estômagos de turistas chegados a uma aventura gastronômica. No dia em que estive lá, as mesas estavam todas vazias. Multidão mesmo só nos fundos, onde nadavam os botos.

Turista alimenta o boto.
Turista alimenta o boto.

Medeiros insiste que não está alterando nada na vida dos bichos. “O cardume que vem aqui de manhã é diferente do que aparece de tarde. Quando não estão aqui, estão comendo também lá fora”, diz, com ar de autoridade. Na verdade, ela não sabe. “Ninguém sabe”, reconhece Rabello, do Ibama. Nunca se estudou o impacto do que a dona do Boto Cor-de-Rosa faz sobre os mamíferos. Mas o assunto preocupa o pessoal do órgão e também do Instituto de Pesquisas Ecológicas (Ipê), que está finalizando o plano de manejo de Anavilhanas, que começa a ser implantado no ano que vem. Nele, o ajuste da operação de Medeiros figura como uma das prioridades. O plano prevê o deslocamento do flutuante onde está seu restaurante para uma área do rio menos poluída. E muito provavelmente incluirá a proibição de alimentar os botos. Mas dessa última parte, Medeiros ainda não ouviu falar.

No dia em que estive lá, entre a dúzia de turistas que se divertiam com os botos, um casal de americanos permanecia afastado da confusão, com um ar para lá de constrangido. Provavelmente por conta de eu estar talvez transparecendo o mesmo sentimento, puxaram conversa. Era um casal de biólogos que vinha do Congresso Internacional de Biologia da Conservação que acabara de acontecer em Brasília. Achavam lindo o que viam, mas sabiam que se tratava de um absurdo. Chocaram-se ao saber que estavam infringindo a lei, fazendo turismo dentro de uma Estação Ecológica. “É mesmo?” perguntou a mulher. Virou-se para o marido e ordenou. “Vamos sair já daqui”. Pelo menos com esses dois, a fama de Medeiros, que já não parecia estar boa, ficou pior ainda.

 

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