As antas também amam

Cristina Ávila*
sexta-feira, 15 julho 2005 14:36

Especialista em Etologia, ciência que estuda o comportamento animal, Marli Custódio de Abreu tem nas costas, bem na altura do sutiã, a marca de uma lição que aprendeu na prática. É a cicatriz de uma mordida de anta, o maior mamífero terrestre nativo da América do Sul.

Ela foi atacada por uma das últimas que restaram no Rio Grande do Sul, durante um trabalho que visa à reprodução do animal em cativeiro. A espécie (Tapirus terrestris) já foi extinta em quase todo o território gaúcho. Hoje, só há registro de dois grupos vivendo em ambiente natural: na Terra Indígena Nonoai, no município de mesmo nome, e no Parque Estadual do Turvo, em Derrubadas.

Marli é pesquisadora do Laboratório de Reprodução Animal, do Departamento de Veterinária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Ela investiga a reprodução de antas em cativeiro para que sejam devolvidas à natureza.

A pesquisadora trabalha em parceria com Lisiane Becker, coordenadora da organização não-governamental Projeto Mira-Serra. As duas biólogas acompanham o desenvolvimento de um grupo de quatro fêmeas adultas e três filhotes com idade em torno de um ano.

Os mamíferos vivem soltos em sete hectares com açude, pastagem e pequenas áreas de mata nativa, no campo experimental da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), em Montenegro, a 43 quilômetros de Porto Alegre. São considerados em semicativeiro. No Brasil, o número de antas em cativeiro não chega a 100. E no Rio Grande do Sul é inferior a duas dezenas. Não há informações sobre o número de animais que vivem na terra indígena e no parque.

As pesquisadoras têm quase 300 horas de trabalho de aproximação da manada, durante cerca de um ano. Nos primeiros contatos, ofereceram diversas espécies de frutas. Mamão, maçã, laranja, tudo era rejeitado. Até tentarem a banana. Conseguiram. Foram chegando cada vez mais pertinho, passando a mão cada vez por mais tempo. Conquistaram uma amizade calculada na desconfiança que separa homens e animais.

“É claro que sentimos medo. Mas enfrentamos por amor à ciência”, sorri Lisiane. Esse amor exige uma boa dose de coragem. Mesmo em ambiente cercado, o perigo é sempre iminente. Em caso de estresse, se correr, o bicho pega. E que bicho… é selvagem e pode chegar a 250 quilos, com dois metros de comprimento.

Um dos momentos de risco que as pesquisadoras enfrentam é quando as bananas acabam. As antas torcem a pequena tromba e perseguem o cheiro da fruta que fica impregnado nas mãos das mulheres. “A gente precisa saber a hora de se afastar”, comenta Marli. O contato físico também provoca certo pânico. As biólogas não tocam os bichos por acaso. Elas estudam o ciclo reprodutivo, e por isso às vezes precisam estimular-lhes a região peniana. Os machos confundem o toque clínico com carinho, e retribuem com mordiscadas, características de suas núpcias. Eles chegam a suspirar. Haja adrenalina.

Mas as biólogas acreditam que vale a pena enfrentar as dificuldades. Afinal, a espécie, Tapirus terrestris, é considerada “quase ameaçada” em todas as regiões que habita na América do Sul e “ameaçada – criticamente em perigo”, no Rio Grande do Sul. As classificações estão no Livro Vermelho da Fauna Ameaçada de Extinção no RS, a mais importante referência sobre a fauna gaúcha em situação de risco, publicada pela Editora da Pontifícia Universidade Católica (PUCRS) em 2003. Segundo a publicação, a anta originalmente distribui-se entre a Colômbia ao norte da Argentina e Paraguai e ao leste dos Andes. Na Argentina, já foi extinta nas províncias de Corrientes e Tucumán.

No RS, o extremo risco de extinção se deve à caça ilegal, ao desmatamento, à poluição de águas, à competição com o gado que tomou conta de seus ambientes naturais e a doenças transmitidas por animais domésticos. Tudo isso associado ao longo período de gestação, de 13 meses, com partos de um único filhote. Quanto mais tempo as espécies demoram para procriar, mais difícil fica o crescimento populacional.

A Tapirus terrestris é um animal herbívoro, se alimenta de frutos, sementes e folhas. “É um excelente dispersor de sementes”, comenta Lisiane Becker. Isso significa que espalha sementes por meio das fezes, contribuindo com a reprodução de espécies vegetais. “Achamos que existe relação entre o desaparecimento das antas e da araça-piranga (Eugênia multicostata)”, prevê a pesquisadora. Essa é uma árvore característica da Mata Atlântica, praticamente extinta no Rio Grande do Sul. As suas sementes têm cerca de sete centímetros e somente podem ser consumidas por animais muito grandes.

A presença das antas está associada a habitats úmidos ou próximos da água. Os banhados são muito característicos do território gaúcho original, mas foram em grande parte substituídos por lavouras de arroz ou por plantio de pastagens, depois de drenados. Também ocupantes de áreas florestais, esses mamíferos ainda sofreram forte impacto com a chegada dos imigrantes europeus no século 19. As matas foram reduzidas em decorrência da ação de madeireiros e de atividades agrícolas. Como agravante, os imigrantes caçavam, para se alimentar ou por esporte, seguindo tradição de seus países.

Segundo o Livro Vermelho, a população de antas apresentava-se em “extensa distribuição geográfica” no estado. Mas com registros de desaparecimento já em 1897, na região sul, na Serra dos Tapes. A publicação ressalta ainda a existência de denominações locais como “Rio das Antas” e “Poço das Antas” como indicativo da ampla presença da espécie no Rio Grande do Sul.

Motivação é o que não falta para pesquisas que assegurem a conservação. Mas não foi nada fácil manter o relacionamento com as antas depois da mordida que deixou Marli Custódio três dias sem caminhar. A lição foi dolorida. Ela, entretanto, enriqueceu um pouco mais sua experiência em etologia.

“Cometi três erros, e aprendi com eles”, conta a bióloga. “Eu estava dando bananas para um filhote macho, uma fêmea chegou e começou a roubar as frutas da bolsa que eu carregava nas costas. Tirei as bananas dela e continuei oferecendo para o filhote. Então, ela me mordeu. Errei porque deixei que a fêmea permanecesse nas minhas costas, não me afastando dela. Errei ao contrariá-la, tirando-lhes as bananas, e errei ao desrespeitar a hierarquia do grupo”.

Ao tirar as bananas da fêmea mais velha para dar a um filhote macho, Marli agiu com base em um conceito machista. Acreditava que o sexo era preponderante nas relações de poder. Enganou-se. “Viu hoje? O macho se afastou quando a fêmea mais velha fez um gesto violento com a cabeça na disputa pela banana… Aprendi que no grupo o mais velho é superior”, comenta a pesquisadora.

Mas, as biólogas ainda têm um longo caminho pela frente. Lisiane Becker tem experiência na reprodução de animais em cativeiro para repovoamento em áreas de população reduzida. Já trabalhou com espécies como o graxaim, quati, saracura carijó e outras. Ela calcula que ainda demore cinco anos até que as investigações estejam concluídas e as antas possam ser transferidas para ambientes naturais.

O trabalho não é tão simples. Inclui até um projeto de educação ambiental, para que as pessoas que moram em torno das áreas onde as antas vão viver sejam conscientizadas e aprendam a proteger a fauna. As pesquisadoras têm ainda a responsabilidade de acompanhar as antas durante dois anos depois que estiverem vivendo na natureza, para garantir sua adaptação à casa nova.

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