Um guia para identificar morcegos pelos sons

Vandré Fonseca
domingo, 6 maio 2018 21:40
Morcego frugívoro da família Phyllostomidae, chamada de morcegos sussurrantes, dependem menos da ecolocalização do que outros grupos. Das nove famílias encontradas no Brasil, esta foi a única que ficou de fora do estudo. Foto: Vandré Fonseca.

O aparente silêncio engana. É preciso ligar gravadores especiais, que identificam frequência inaudíveis ao ouvido humano. E só a reprodução do áudio, tocado em velocidade dez vezes menor do que o registro feito, revela que alguns metros acima voava uma diversidade de morcegos. Lá no alto, eles não caem nas redes armadas pelos pesquisadores, que têm dificuldades também para encontrar os abrigos onde passam o dia. É uma biodiversidade escondida na quietude da noite.

“Quanto o morcego está voando, às vezes você escuta um barulhinho”, conta o professor Enrico Bernard, da Universidade Federal de Pernambuco. “Aquilo que você consegue ouvir é só um pedacinho do som que os morcegos estão fazendo. A maior parte das espécies está fazendo um monte de barulho, mas a gente não consegue ouvir”.

Bernard é um dos autores de um artigo publicado em abril deste ano,  na revista Mammal Research, que apresenta informações para identificação através dos sons emitidos por 93 espécies de morcegos que ocorrem no Brasil, de oito diferentes famílias.  Além de uma compilação de informações já publicadas, que permitiam a identificação de 65 espécies, o trabalho traz dados novos, que possibilitam reconhecer pelos sons 28 espécies cujos sinais sonoros ainda não haviam sido descritos.

“Assim como no caso dos passarinhos, em que você ouve um sabiá cantar e sabe o que é, você pode identificar algumas espécies de morcegos pelos sons que eles fazem”, explica o biólogo Enrico Bernard, que trabalhou com colegas de universidades brasileiras, além de instituições da França e de Portugal.

“No Brasil, já foram identificadas mais de 180 espécies de morcegos, mas a identificação pelo sinal sonoro não vale para todas. Ficou de fora a família mais numerosa, Phyllostomidae, com 92 espécies, que inclui os vampiros, além de morcegos frugívoros.”

Bernard explica que a captura de morcegos para identificá-los tem limitações. Aqueles que voam alto, por exemplo, dificilmente são pegos nas redes usadas pelos pesquisadores. É preciso encontrar o abrigo deles, e isso também não é fácil. A identificação pelos sons amplia as possibilidades de reconhecer a biodiversidade, segundo o professor.

“Quando você coloca a ecolocalização, você está ampliando muito a sua amostragem”, afirma. “Você tem vários artigos saindo, que dizem exatamente isso. Achava-se que era uma coisa só, mas os sinais gravados eram de frequências diferentes, mostrando que eram duas espécies e não apenas uma. Isso ajuda a descrever a chamada riqueza críptica, que é a riqueza que estava encoberta.”

No Brasil, já foram identificadas mais de 180 espécies de morcegos, mas a identificação pelo sinal sonoro não vale para todas. Ficou de fora a família mais numerosa, Phyllostomidae, com 92 espécies, que inclui os vampiros, além de morcegos frugívoros. Bernard explica que devido ao sinal fraco que emitem – os integrantes dessa família são chamados de ‘morcegos sussurrantes’– é difícil diferenciá-los pelo som.

“A gente fez uma seleção que foco em um grupo de espécies que a gente pode afirmar com bom nível de certeza que pode se identificar”, diz o biólogo. “Então, no Brasil tem nove famílias, nós focamos em oito.”

As informações são importantes em levantamento de fauna, realizados por exemplo em processos de licenciamento. De acordo com Bernard, as chaves de identificação ajudam tanto a melhorar o trabalho de consultores quanto a avaliação feita pelo órgão ambiental, que tem mais condições de analisar os dados apresentados.

“Hoje, grande parte do licenciamento ambiental de parque eólico depende de você gravar morcegos para saber se eles estão lá, quando eles estão lá e quantos estão lá”, conta o biólogo. “E quando você vai fazer licenciamento de hidrelétrica, que você tem que fazer levantamento de espécies.”

 

Saiba Mais

Artigo: Who’s calling? Acoustic identification of Brazilian bats.

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