Parques do Rio sob as bênçãos de Delaroli, assessor de Bolsonaro

Parques do Rio sob as bênçãos de Delaroli, assessor de Bolsonaro

Emanuel Alencar
quinta-feira, 24 janeiro 2019 20:14
Marcelo Delaroli. Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados.

RIO – A nova gestão ambiental do Rio tem recorde de mulheres no primeiro escalão, nomeações técnicas, mas também um ex-adversário do governador Wilson Witzel dando as cartas na gestão de unidades de conservação. Assessor da Casa Civil da presidência de Jair Bolsonaro, o ex-PM de Maricá, Marcelo Delaroli (PR), é o todo-poderoso na Diretoria de Biodiversidade, Áreas Protegidas e Ecossistemas (Dibape) do Instituto Estadual do Ambiente (Inea). Foi dele a indicação do novo diretor, Tiago Rangel.

Advogado com passagens nas prefeituras de Maricá e São Gonçalo, Tiago comandará a pasta responsável pela gestão das 38 unidades de conservação fluminenses. Ele foi subsecretário de Meio Ambiente de São Gonçalo no governo de Neilton Mulim (2013-2016). É descrito por colegas de trabalho como uma pessoa simples e atenciosa, mas de conhecimento técnico limitado na área de conservação ambiental.

A transição na Secretaria do Ambiente e no Inea foi marcada por uma “limpeza geral” nos cargos indicados pelo ex-secretário e deputado André Corrêa, preso desde novembro. Remanescentes da gestão Corrêa têm se queixado de que o clima de desconfiança marcou a troca de comando. O novo presidente do Inea é Cláudio Dutra, ex-presidente da Rio Águas e com experiência no setor público. Ele e a secretária Ana Lúcia Santoro trabalharam juntos na autarquia da capital.

Homem do saneamento vem de Caxias

O saneamento, um dos focos da nova gestão, ficará no guarda-chuva de Omar Kirchmeyer, ex-secretário de Obras de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Engenheiro, com especialização em engenharia sanitária, Omar terá como uma de suas atribuições o Programa de Saneamento dos Municípios do Entorno de Baía de Guanabara (PSAM), que sofreu com arresto de verbas do BID em 2016 e 2017 e não teve validade sua prorrogada pela União. ((o))eco apurou que a indicação veio do secretário municipal de Meio Ambiente de Caxias, Celso do Alba (PMDB). A coordenação do PSAM ficará com o engenheiro Marcos Muffareg, ex-coordenador da Funasa no Rio.

O advogado Tiago Rangel comandará a pasta responsável pela gestão das 38 unidades de conservação fluminenses. Foto: Divulgação.

Omar substitui na SEAS o engenheiro Antônio da Hora, que teve bastante interlocução com empresários e gozava de prestígios na secretaria tanto nas administrações de Carlos Minc (hoje no PSB) quanto na de André Corrêa. Da Hora chegou a assumir recentemente o posto máximo ambiental fluminense.

Renata Bley Oliveira, nova subsecretária de Recursos Hídricos, recebeu da nova secretária a tarefa de pensar em estratégias para alavancar políticas de reúso de água de indústrias. Amiga pessoal de Ana Lúcia, tem robusto currículo acadêmico: é doutora em Ecologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Doutora em Botânica pela Escola Nacional de Botânica Tropical do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ), Eline Martins foi escolhida subsecretária de Conservação Ambiental e Clima. Ela também se caracteriza pelo perfil técnico. Sua postura é bastante elogiada por pesquisadores da área.

“Eline tem ‘dedo verde’, o que ela toca funciona. Muito técnica e diplomática, ao mesmo tempo que é executiva e determinada. O estado tem vocação para construir um modelo de adaptação às mudanças climáticas com base na biodiversidade e nos ecossistemas. Ou seja, usar conservar e restaurar como alicerce para adaptação às mudanças climáticas, inclusive gerando renda e reduzindo pobreza. Ela conhece os caminhos”, elogia o engenheiro florestal e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Fábio Scarano.

Completando a trinca feminina do primeiro escalão está Cristiane Jaccoud, com histórico no direito ambiental. Cristiane responderá pela gestão ambiental, acompanhando assuntos estratégicos para o desenvolvimento econômico do Estado, “em consonância com as diretrizes do governo”, segundo Ana Lúcia.

Com carreira na Polícia Federal, o ex-secretário de Transportes de Macaé, José Mauro Farias, responde pelo Planejamento. É quem coordenará projetos importantes como o Fundo da Mata Atlântica, carteira que reúne dinheiro das compensações ambientais de grandes empreendimentos.

Mudanças no licenciamento

Ecobarreiras que captura lixo flutuante durante as olimpíadas. Foto: Divulgação/Secretaria do Ambiente.

Ana Lúcia já anunciou uma mudança importante na dinâmica do licenciamento ambiental. Determinou que esse assunto volte integralmente ao Inea, o órgão executor das políticas ambientais. Na gestão de André Corrêa, empreendimentos de grande monta eram avaliados primeiro por técnicos do Inea e depois na própria secretaria. Mariana Palagano, ex-subsecretária que cuidava de um colegiado de grandes empreendimentos, vai para o Inea. A Diretoria de Licenciamento (Dilam/Inea) passa a ser ocupada por Alexandre Cruz, jovem que fez carreira na casa. Ele substitui Nestor Prado Júnior, também há anos no órgão.

“O Cláudio Dutra está elevando os quadros técnicos e de carreira. E isso é muito positivo para evitar politização das decisões”, diz uma fonte.

Ex-presidente do Inea, Marcus Lima diz que todas as informações foram repassadas para a nova gestão. Ele defende a reestruturação de cargos feita a partir de novembro de 2015, resultado de trabalhos de consultoria feitas pelas empresas Visagio e Falconi.

“Eles mandarem equipes para o Inea, ficaram seis meses acompanhando a rotina. É bom a nova gestão ter em mente que isso custou um dinheiro. Nada foi feito da cabeça do presidente do Inea ou da cabeça do André Corrêa. Deixamos tudo à mostra, com total transparência”, ressaltou.

Marcus Lima acrescenta que a prisão de André não afetou “em absolutamente nada” a transição. Ele defende a sua gestão, que conseguiu, segundo ele, agilizar as licenças ambientais, derrubando o passivo, em três anos, de 17.569 licenças para 3.500.

“Quem sempre fez os pareceres (das licenças) foram os técnicos do Inea. Por uma questão de eficiência, a gente chegou à conclusão de que os casos de significativo impacto ambiental deviam ficar na Secretaria, para facilitar o assessoramento do secretário”.

 

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