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Elefantes em Botswana. Crédito: Blaire Van Valkenburgh.

Elefantes em Botswana. Crédito: Blaire Van Valkenburgh

Manaus, AM -- Um advertência foi dada esta semana em um artigo assinado por 43 pesquisadores de várias partes do mundo, inclusive Brasil. São necessárias medidas urgentes para impedir a extinção dos maiores animais que ainda existem sobre a terra, sob o risco de muitos não resistirem até o fim do século. O texto, publicado na revista Bioscience junto ao material suplementar escrito em sete idiomas, destaca a necessidade de intensificar as ações que já existem e de mudanças políticas globais, que incluem mais dinheiro para a conservação.

Os autores do texto destacam que grandes mamíferos são extremamente vulneráveis a ameaças devido à demanda por grandes extensões de área, baixa densidade populacional, principalmente entre os carnívoros, e questões evolutivas. Eles ressaltam que programas de conservação e mudanças culturais têm recuperado populações de algumas espécies, mas a maioria dos grande animais está em declínio.

Conforme dados apresentados no artigo, 59% dos grandes carnívoros, com massa média superior a 15 quilos, estão ameaçados de extinção pelos critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, em Inglês). Entre os herbívoros, a situação é bem parecida, 60% dos que em média chegam ou ultrapassam os 100 quilos estão ameaçados. A lista inclui alguns dos animais mais populares do planeta, como leões, gorilas e rinocerontes, que podem oferecer diversos serviços ambientais, sociais e econômicos.

"A perda destes magníficos animais seria uma tremenda tragédia", afirma Blaire Van Valkenburgh, professora de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade da Califórnia (UCLA) e uma das autoras do artigo. "Eles são tudo o que resta de uma megafauna muito mais diversa que povoou o planeta apenas 12.000 anos atrás. E mais importante, estamos apenas começando a entender o importante papel que desempenham na manutenção de ecossistemas saudáveis”, completa.

Com uma experiência de 15 anos de estudos sobre os maiores herbívoros neotropicais, que incluem a avaliação das consequências da retirada destes animais da natureza, o biólogo Mauro Galetti, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), faz parte do time que assina o artigo. “Muito do que sabemos hoje sobre o papel dos herbívoros vem dos estudos na África, mas nossos trabalhos recentes com antas e queixadas tem mostrado que mesmo em florestas tropicais esses animais são fundamentais na dispersão de sementes, herbivoria e até mesmo no estoque de carbono”, conta.

Ameaças conhecidas

As ameaças aparecem em várias frentes. O aumento da população humana, pecuária e mudanças no uso da terra têm causado conflitos, que geralmente resultam em impactos sobre os grandes animais selvagens. Hoje, de acordo com o estudo, existem 400 vezes mais grandes animais de criação, como bois, búfalos e cabras, na terra do que exemplares da megafauna. Mas existem outras causas para a ameaça de extinção generalizada.

Entre elas, está a caça, o que inclui ação individuais, de governos e até de grupos organizados e terroristas. Carne ou partes de grandes animais são vendidas em centros urbanos e contrabandeadas. A chacina de elefantes africanos para abastecer o tráfico de marfim; rinocerontes, pelos seus chifres; e tigres, por partes do corpo, são exemplos de atividades que afetam a população de grandes mamíferos.

Para os autores do artigo, apesar de já serem conhecidas as causas gerais para o declínio da megafauna, essas informações ainda não se transformaram em ações de proteção e conservação adequadas. Entre atitudes que podem ser tomadas, eles citam a reintrodução de espécies onde elas tenham sido extintas e a reabilitação de ecossistemas.

O texto publicado afirma que agir para evitar o declínio da megafauna é uma responsabilidade coletiva , mas destaca que o ônus principal deve ser dos países desenvolvidos, onde grandes animais já foram extintos. Segundo os pesquisadores, essas nações têm a responsabilidade de restaurar a megafauna em seus territórios e também apoiar as iniciativas de conservação onde ela ainda existe.

“Como biólogos, ecólogos e cientistas da conservação, nós sabemos que nossos argumentos não são novos, e que nossas reivindicações são mais fáceis de serem escritas do que cumpridas”, afirmam. “No entanto, nosso objetivo em apresentá-los juntos é demonstrar um consenso em opinião em toda a comunidade científica global, de cientistas que estudam e conservam esses animais, enfatizando para o mundo a gravidade do problema.”

Rinocerontes também estão desaparecendo devido a ação humana. Crédito: Graham I.H. Kerley.

Rinocerontes também estão desaparecendo devido a ação humana. Crédito: Graham I.H. Kerley.

Aqui, a declaração publicada: 

Uma declaração para salvar a megafauna terrestre do planeta. Nós cientistas da conservação:

1 -- Reconhecemos que a maioria da megafauna terrestre está ameaçada de extinção e apresenta populações em declínio. Algumas espécies de megafauna que não estão globalmente ameaçadas sofrem extinções locais ou apresentam subespécies criticamente ameaçadas.

2--  Prezamos que o cenário mundial como se encontra resultará na perda de muitas das espécies mais icônicas da Terra.

3 -- Entendemos que a megafauna desempenha muitos papéis ecológicos que diretamente e indiretamente afetam processos ecossistêmicos e outras espécies nas cadeias alimentares; um fracasso em reverter os declínios da megafauna vai romper muitas interações entre espécies com possíveis consequências negativas para as funções ecossistêmicas, diversidade biológica, e também para serviços ecológicos, econômicos e sociais que essas espécies fornecem.

4 -- Compreendemos que a megafauna é símbolo da vida selvagem, exemplificando o engajamento público na natureza, e que esse é um incentivo para manter os serviços ecossistêmicos que eles provém.

5 -- Reconhecemos a importância de integrar e alinhar o desenvolvimento humano com a conservação da biodiversidade através do engajamento e apoio das comunidades locais no países em desenvolvimento.

6 -- Propusemos que as agências de financiamento e cientistas aumentem as pesquisas em conservação nos países em desenvolvimento, onde a maioria das espécies de megafauna ocorrem. Especificamente, há uma necessidade de aumentar a pesquisa diretamente para encontrar soluções para a conservação, especialmente para espécies pouco conhecidas.

7 -- Pedimos ajuda de indivíduos, governos, corporações, e organizações não governamentais para dar um fim as práticas prejudiciais a essas espécies e que se comprometam ativamente em ajudar a reverter os declínios nas populações de megafauna.

8 -- Lutamos pela consciência coletiva ao redor do mundo pela atual crise da megafauna usando a mídia tradicional, a mídia social e outras abordagens nas redes.

9 -- Buscamos um novo e compreensível compromisso global para conservação da megafauna. A comunidade internacional deveria tomar ações necessárias para prevenção da extinção em massa da megafauna e de outras espécies.

10 -- Instigamos o desenvolvimento de novos mecanismos de financiamento para transferir os benefícios atuais acumulados através da megafauna em pagamentos tangíveis para apoiar a pesquisa e a conservação nos locais onde a megafauna mais precisa ser preservada.

11 -- Defendemos um intercâmbio científico interdisciplinar entre nações para melhorar o entendimento social e ecológico dos culpados do declínio da megafauna, e também aumentando a capacidade de conservação da megafauna.

12 -- Recomendamos a reintrodução e reabilitação das populações degradadas de megafauna sempre que possível, seguindo as diretrizes da IUCN, da importância ecológica e econômica pela qual é evidenciada por um número crescente de sucessos, desde os lobos do Yellowstone (Canis lupus), até ao veado de Père David (Elaphurus davidianus) na China, e outras várias espécies de megafauna do Parque Nacional da Gorongosa em Moçambique.

13 -- Afirmamos ter uma obrigação moral em proteger a megafauna do planeta Terra.

Fonte: Revista Bioscience

 

 

Saiba Mais

Artigo: Saving the World's Terrestrial Megafauna.

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