Onça viva vale muito mais do que gado morto

Onça viva vale muito mais do que gado morto

Vandré Fonseca
quarta-feira, 7 junho 2017 20:02
Foto: Bart van Dorp/Flickr.
Foto: Bart van Dorp/Flickr.

Manaus, AM – Eventuais prejuízos provocados por onças a fazendas de gado no Pantanal podem ser facilmente cobertos por um programa de compensações financeiras, com recursos obtidos justamente pelo turismo de observação de grandes mamíferos. A proposta está em um artigo publicado esta semana no jornal científico Global Ecology and Conservation, por pesquisadores da organização não-governamental Panthera, engajada na preservação de grandes felinos, Universidade de Mato Grosso e Universidade de East Anglia.

“Este estudo é o primeiro a documentar o valor monetário de manter uma população saudável de onças no Pantanal”, afirmou o autor principal do artigo, Fernando Tortato, estudante de doutorado na UFMT e pesquisador da ong Panthera. “A maioria dos estudos envolvendo o relacionamento entre grandes carnívoros e humanos consideram apenas os danos causados por essas espécies ”

O estudo foi realizado em Porto Jofre, onde hotéis e pousadas convivem lado a lado com fazendas de gado. Fazendeiros se ressentem de ataques de grandes felinos ao gado e, segundo os responsáveis pelo estudo, chegam a contratar caçadores para abater as onças consideradas “problemáticas”. Mas para os pesquisadores, o resultado do estudo demonstra que existe um grande potencial para a conservação do felino nessa região.

O ecoturismo poderia gerar recursos necessários para reduzir esse conflito, segundo os pesquisadores. Os eventuais prejuízos causados por ataques dos felinos ao gado não chega a 2% do rendimento obtido pelo ecoturismo. Enquanto o rendimento com venda de pacotes turísticos para a observação de onças podem chegar a U$ 6,8 milhões de dólares (mais de R$ 22 milhões) ao longo de um ano, os prejuízos eventuais provocados pelo ataque dos felinos ao gado ficam em torno de US $ 121,5 mil (pouco menos de R$ 400 mil).

Os pesquisadores ouviram também turistas que visitaram o Pantanal, para saber se eles aceitariam pagar um pouco mais para reduzir os prejuízos provocados por ataques de onça-pintada. Quase a totalidade deles (98%) disseram concordar com um sistema para compensar financeiramente fazendas afetadas pela predação das onças. Os turistas (80% dos entrevistados) concordariam até mesmo em pagar um valor adicional, que sairia do bolso deles, para reduzir prejuízos de fazendeiros e proteger a onça-pintada no Pantanal.

Os pesquisadores destacam que existem práticas que podem ajudar a reduzir essa predação e que devem ser incluídas em um programa de compensações. Para o professor Carlos Peres, da Universidade de East Anglia, o avanço das atividades de subsistência sobre áreas selvagens tropicais torna cada vez mais necessárias compensações financeiras, que podem tornar proprietários de terras mais tolerantes à proximidade de predadores ferozes.

Editado às 14h34, do dia 08 de Junho de 2017.

Saiba Mais

The numbers of the beast: Valuation of jaguar (Panthera onca) tourism and cattle depredation in the Brazilian Pantanal

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2 comentários em “Onça viva vale muito mais do que gado morto”

  1. Parabéns ao Fernando Tortato pelo EXCELENTE trabalho realizado!

    Chama atenção ainda a ideia de criar um "fundo com dinheiro do turismo". Nesse caso cria-se também uma forma de fidelização dos proprietários das áreas, que ao receber esse recurso passam a ter responsabilidade para conservar a espécie, já que possíveis abates ou perseguição aos felinos gerariam descontentamento e afastamento de visitantes.
    A proposta é fantástica!

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