O grande pomar dos índios pré-colombianos

Vandré Fonseca
quinta-feira, 2 março 2017 20:33
Esta é uma floresta com espécies domesticadas em Jkalo Ijkwala, comunidade Jotï, Venezuela. Crédito: Eglee Zent.
Esta é uma floresta com espécies domesticadas em Jkalo Ijkwala, comunidade Jotï, Venezuela. Crédito: Eglee Zent.

Manaus, AM — Um mapa amplo sobre a influência dos povos pré-colombianos sobre a biodiversidade na Bacia Amazônica indica duas fortes evidências de que a natureza não é a única responsável pela generosidade da floresta. Pesquisadores liderados pela bióloga brasileira Carolina Levis descobriram que a concentração de plantas domesticadas na Amazônia é cinco vezes maior do que as não domesticadas. O estudo revela também que a presença destas espécies é maior perto de antigas povoações indígenas.

Para chegar aos resultados, os pesquisadores cruzaram dados obtidos em mais de mil parcelas estudadas pela Rede de Diversidade de Árvores Amazônicas com um mapa de mais de 3 mil sítios arqueológicos encontrados na região. O foco do estudo foram 85 espécies de árvores sabidamente domesticadas por povos amazônicos, para alimentação, construção de abrigos e outros usos.

“É surpreende a grande abundância que essas espécies têm em dominância em toda a Amazônia. Elas dominam grandes extensões da floresta e estão distribuídas em uma área bastante extensa”, afirma Carolina Levis, estudante de pós-doutorado pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus, e pela Universidade e Centro de Pesquisa Wageningen, da Holanda. A distribuição e a abundância dessas plantas, de acordo com a ecóloga, só pode ser explicada pela ação humana.

Ajuda bem-vinda

A natureza precisaria de uma ajuda para colocar lado a lado espécies tão úteis quanto diferentes quanto açaizeiros — palmeiras que preferem solos encharcados –, e castanheiras, árvores de grande porte que se dão melhor em solos drenados. A pesquisadora pondera que se a explicação para essa abundância é a mão do homem então era previsível, e foi demonstrado, que as comunidades de espécies domesticadas estivessem perto de onde viviam as pessoas. “E a gente encontrou que a comunidade de árvores e palmeiras é mais abundância, rica, em florestas próximas a sítios arqueológicos, principalmente em duas regiões, no Sudoeste da Amazônia, na Bolívia e Acre, e no Leste, Foz do Rio Amazonas”, conta.

Para o biólogo Charles Clement, pesquisador sênior do Inpa, as descobertas colocam de lado mitos de longa data sobre uma Amazônia vazia. “Os primeiros naturalistas europeus relataram populações indígenas dispersas que viviam em florestas imensas e aparentemente virgens, e essa ideia continuou a fascinar os meios de comunicação, os formuladores de políticas, os planejadores do desenvolvimento e até mesmo alguns cientistas”, afirma Clement. ”O estudo confirma que muitas áreas da Amazônia que são vistas vazias hoje estão cheias com pegadas ancestrais”, completa.

Este é um machado de pedra encontrado na base de uma árvore, durante um inventário realizado no Parque Nacional Yasuní, Amazônia Equatoriana. Crédito: Nigel Pitman, The Field Museum.
Este é um machado de pedra encontrado na base de uma árvore, durante um inventário realizado no Parque Nacional Yasuní, Amazônia Equatoriana. Crédito: Nigel Pitman, The Field Museum.

Clement é um dos coautores do artigo e tem outros estudos que contribuem para a tese de uma floresta modificada pelos povos pré-colombianos. Estudos com a pupunha, da qual se aproveitam os frutos e o palmito, demonstram que há um gargalo genético, ou seja, a indicação de que houve uma seleção direcionada. Outros estudos em desenvolvimento na Amazônia demonstram que diversas espécies encontradas hoje na floresta, como açaí, castanha e mapati, foram domesticadas e selecionadas para atender aos interesses de populações locais. E é um processo que continua vivo.

“Até hoje as populações indígenas estão na Amazônia, em menor número, mas estão se utilizando dessa floresta e manejando”, diz Carolina Levis. “As espécies que foram incorporadas pelas populações modernas aumentaram mais ainda em termos de distribuição e abundâncias”, destaca. Ela cita o caso da seringa, do cacau, da castanha e do açaí, que atualmente possuem valor econômico. Há outras, porém que tiveram seu uso limitado. É o caso da palmeira caiué, oleífera do mesmo gênero do dendê, hoje pouco usada. Carolina Levis conta que essa espécie é muito comum, associada aos sítios arqueológicos e a Terra Preta, no Rio Madeira.

O estudo ainda não traz resposta para uma pergunta importante, sobre a sustentabilidade das atividades de povos pré-colombianos sobre a floresta. Há teses de que eles tenham causado grandes desmatamentos, mas os estudos dirigidos pela pesquisadora brasileira apontam em outra direção. Antes da chegada dos europeus e dos atuais conceitos de sustentabilidade, os amazônidas já sabiam usar a floresta sem destruí-la.

“Pelo que a gente tem encontrado, a grande abundância de espécies de árvores, não acredito que tenha tido um grande desmatamento, não”, afirma. “O que parece é que as pessoas estavam manejando a floresta como floresta, talvez realmente em diferentes áreas de clareira, áreas abertas, mas com pequenas manchas, mas manejando sistemas mais agroflorestais. As árvores não estariam sobrevivendo em grande quantidade, diversidade, em uma área totalmente desmatada”, acredita.

 

Saiba Mais

Artigo: Persistent effects of pre-Columbian plant domestication on Amazonian forest composition

 

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10 comentários em “O grande pomar dos índios pré-colombianos”

  1. Os primeiros exploradores reportaram populações densas na Amazônia do século XVI, que colapsaram após o primeiro contato com patógenos importados. A floresta se estabeleceu porquê os humanos foram dizimados e não é nenhuma surpresa que boa parte das florestas de hoje seja resultado da regeneração que se seguiu, baseada nas árvores que estavam disponíveis.
    É similar ao que teríamos 300-400 anos depois da população de São Paulo ser eliminada: uma floresta de ficus, tipuanas, leucenas, ipês, sibipirunas, paus-ferro, goiabeiras e palmeiras.

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    • Essa floresta seria povoada por uma fauna de poodles e angorás ferais descendentes dos milhares de cães e gatos mantidos pelos humanos no séc. XXI. Alguém já calculou a "pegada ecológica" dos totós e bichanos? Produção da ração e remédios e cosméticos e brinquedos+ frete destes produtos + eletricidade + destinação resíduos (gasto de água imenso) + banho e tosa (mais água) + predação de animais nativos + etc, etc, etc…

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    • Ué? Quando os primeiros exploradores chegaram não havia florestas? Elas se estabeleceram porque os humanos que havia antes da chegada dos primeiros exploradores foram dizimados, permitindo uma regeneração a partir das poucas árvores cultivadas que havia ali? Olha! Novas informações históricas interessantíssimas! Parabéns, comentarista!

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  2. Poucos sabem, mas a exuberância da floresta Amazônica esconde um solo pobre em nutrientes. Isso porque as altas temperaturas e umidade costumam fazer a matéria orgânica e os nutrientes armazenados no solo terem vida muito curta.
    De uma forma geral, a riqueza do latossolo (solo mais comum na região) é apenas superficial, e vem da decomposição de galhos, folhas e animais. Mas na imensidão da Região Amazônica existem manchas de um solo bem diferente: A TPI, ou Terra Preta de Índio.
    Ele é um solo antrópico, isto é: é resultado direto da ação humana. Isso explica por que são encontrados vestígios do dia a dia dos povos que habitavam estas áreas e nos leva a afirmar que a presença da TPI representa um dos mais marcantes registros da antiga ocupação humana na região amazônica. Estima-se que as áreas de TPI ocupam de 6 a 18 mil km quadrados da bacia amazônica.
    A espantosa fertilidade deste solo escuro chama a atenção de pesquisadores do mundo inteiro. (TV Brasil /Embrapa)
    Desde de 2007, em diversos trabalhos de campo realizados por técnicos e posteriormente com a criação do que chamamos de Estudo de Espécies Endêmicas e Biodiversidade (AFG Consultores), pudermos identificar facilmente esse tipo de solo em diversas localidades da Amazônia, mas também identificamos nestas localidades, uma incidência maior de espécies em um mesmo perímetro específico, o que se traduz em um processo de manejo não natural de espécies. onde permite-se verificar a ação humana nestes locais, não somente no manejo de solos, mas também no manejo de espécies de plantas. O interessante que entre as comunidades tradicionais como as indígenas, muitas possuem ainda a memória sobre a existência e a importância dessa prática em processo de subsistência, mas algumas comunidades que possuem o contato mais extremado com a chamada cultura do homem-branco, possui fragmentos de entendimento sobre essa prática junto aos seus anciões, mas considerado de pouco interesse entre os adultos de meia-idade e os mais jovens. Isso demonstra uma necessidade de realizar um trabalho junto a essas comunidades demonstrando a importância do resgate da realização dessa prática, bem como a sua disseminação entre outras comunidades tradicionais como quilombolas e ribeirinhos. (Henry Rizzardi / AFG Consultores)

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  3. O estudo é serio e sem dúvida muito interessante. Não obstante, de uma parte, essa teoria não é nova. Um dos seus propulsores foi o mexicano A. Gómez-Pompa, que duas a três décadas atrás sugeriu que as selvas do Yucatan eram uma feitura dos Maya. Isso incentivou muitos a pretender que não deve se conservar as selvas tropicais de América porque os índios são seus melhores protetores. De outra parte, a diversidade natural se gera sem preocupação pela utilidade que possa oferecer a humanidade. O que relatam os pesquisadores são alterações da natureza que podem ser consideradas positivas apenas desde o ponto de vista utilitário. Ao final eles fizeram os primeiros passos da agricultura como foi feito em outros locais menos diversos… até chegar ao extremo da agricultura de commodities. Finalmente, o estudo esquece que os animais também gostam de frutas boas e que eles também as dispersam, tanto antes da sua domesticação como especialmente depois.

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    • Perfeito. No Yucatan as florestas que crescem sobre as ruínas maias são dominadas por espécies que eram mantidas ou cultivadas pelos Maya. E tb apreciadas pelos animais frugívoros que conseguiram sobreviver e prosperaram após o colapso daquela civilização

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  4. Um comportamento recorrente de nossa visão essencialmente antropocêntrica ressaltar ações humanas como responsáveis por alterações e impactos sobre o meio ambiente. De fato, é inquestionável que somos parte da história (muito recente) do que aconteceu e acontece com as áreas naturais do planeta. Apenas o cuidado para não enaltecer excessivamente o que fizemos ou fazemos em relação a resultantes positivas sobre a questão da conservação da biodiversidade. A pesquisa amplamente divulgada nos últimos dias sugere influência humana na formação atual da Floresta Amazônica, o que parece plausível e até previsível. No entanto, embora para muitos isso signifique a mesma coisa, não representam alterações ou impactos necessariamente favoráveis à conservação da biodiversidade. Notadamente, a extinção há poucos milênios, dos grandes mamíferos de toda a América Latina, inclusive na Amazônia, representa também um sinal evidente de nossa influência direta do que temos hoje ainda remanescente. Bem como a mais recente condição de Floresta Vazia em boa parte do território amazônico – "ainda bem conservado" – em função da caça descontrolada. De fato, cabe muito cuidado e responsabilidade para se propagar que somos grandes manejadores de áreas naturais, tamanhas as vulnerabilidades e inconsistências das práticas chamadas sustentáveis hoje praticadas na região. Precisamos cultivar, essencialmente, mais humildade.

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  5. A primeira coisa que esses "bons selvagens" fizeram com o "pomar" foi extinguir toda a megafauna… mas dizer isso não é politicamente correto, então ficamos tendo de aturar essas elocubrações rousseaunianas que se encaixam na narrativa ideológica de absolver as ditas "populações tradicionais" de seus – muitos – crimes ambientais… é um tédio.

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  6. Uma floresta rica e biodiversa, manejada por humanos. Muito à frente do agribusiness atual,pobre, devastador e ineficiente sob qualquer perspectiva que não seja a dos latifundiários, deputados ruralistas e multinacionais vendedoras de veneno, máquina e petróleo.

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