A natureza que nós construímos ao longo do tempo

Vandré Fonseca
segunda-feira, 6 junho 2016 17:35
Proporção da megafauna conhecida extinta em cada região do globo em relação ao contato com humanos. O número ao lado de cada gráfico indica o total de gêneros da megafauna que existia em cada região. Foto: divulgação.
Proporção da megafauna conhecida extinta em cada região do globo em relação ao contato com humanos. O número ao lado de cada gráfico indica o total de gêneros da megafauna que existia em cada região. Crédito: divulgação.

Manaus, AM — Não há paisagem neste mundo que não tenha sofrido a interferência do ser humano. Ao longo de milhares de anos, nossos ancestrais provocaram extinções em larga escala, introduziram espécies em novos ambientes ou interferiram na paisagem, mudando os rumos e direcionando a evolução de bichos e plantas. Para afirmar isso, um grupo internacional de pesquisadores liderado pela arqueóloga Nicole Boivin, da Universidade de Oxford, fez uma exaustiva revisão de dados obtidos nos últimos trinta anos.

Os resultados foram publicados na edição desta semana do jornal científico Proceedings of the Nacional Academy of Sciences (PNAS). Com o uso de novos métodos estatísticos e computacionais, além de informações sobre DNA, isótopos estáveis e microfósseis, foi possível construir um cenário que demonstra como muitas espécies tiveram a evolução direcionada pela atividade humana. O estudo identificou quatro fases de maior interferência humana sobre os ecossistemas: a expansão humana durante o Pleistoceno, a propagação neolítica da agricultura, a colonização de ilhas e a emergência da sociedade urbana e comercial.

Nossos antepassados viviam, há cerca de 195 mil anos, na África Oriental. Durante milhares de anos, eles buscaram novos ambientes e ganharam espaço no globo terrestre. Há cerca de 12 mil anos, haviam chegado à Eurásia, Austrália e América. Esta expansão está associada a uma grande variedade de espécies extintas que significou a redução de dois terços das 150 espécies da megafauna, entre 50 e 10 mil anos atrás. O desaparecimento desse grande número de espécies teve efeitos sobre a estrutura do ecossistema e dispersão de sementes.

E depois de domesticar cabras, ovelhas e bois, no Oriente Médio, por volta de 10.500 anos atrás, levamos esses bichos à Europa, África e outros pontos da Ásia. As galinhas, domesticadas primeiro na Ásia Oriental, chegaram à Grã-Bretanha por volta da metade do último milênio e já superam o número de pessoas por lá. Aliás, há muito mais galinhas do que seres humanos no mundo, uma proporção de três para um.

Há muitos cães também. Eles se tornaram nossos melhores amigos antes da sociedade agrícola e hoje são estimados entre 700 milhões e 1 bilhão em todo o mundo. Infelizmente, a maioria dos vertebrados silvestres não pode contar com a nossa amizade. O número de espécies de vertebrados hoje é considerado pequeno pelos autores do estudo. Culpa da ação humana.

Na terceira fase, os seres humanos atravessaram o mar e chegaram às ilhas, carregando o mundo que conheciam. Os pesquisadores falam em “paisagens transportadas” devido à grande movimentação de espécies durante este período. Os novos ambientes foram transformados pelo fogo, desmatamento, predação e chegada de novas espécies.

Uma nova onda de transformações foi registrada na Idade do Bronze, com a intensificação da atividade agrícola para dar conta do aumento da população e o comércio no Velho Mundo. Árvores decíduas (que perdem a folha no inverno) foram trocadas por carvalhos sempre verdes no Oriente Médio. A floresta nativa foi transformada pelo cultivo de plantas de interesse comercial, como oliveiras, videiras e figueiras. Plantas encontradas em florestas francesas estão associadas possivelmente a assentamentos romanos. Roma teria sido responsável também pela introdução de cerca de 50 espécies de plantas alimentares entre os bretões.

“A evidência arqueológica é fundamental para identificar e compreender a história profunda de efeitos humanos”, afirma Boivin. “Se queremos melhorar a nossa compreensão de como gerimos o nosso meio ambiente e conservar as espécies hoje, talvez nós temos que mudar nossa perspectiva, pensar mais sobre como proteger o ar puro e água potável para as gerações futuras e um pouco menos sobre o retorno planeta Terra à sua condição original”, completa.

A arqueóloga enfatiza também a importância do estudo sobre os debates atuais sobre o papel humano no aquecimento global. A arqueologia, de acordo com ela, demonstra que o ser humano é mais do que capaz de remodelar e transformar os ecossistemas radicalmente. “Agora a questão é que tipo de ecossistemas irão criar para o futuro”, reflete. “Será que vão sustentar o nosso bem-estar ou de outras espécies ou vão fornecer um contexto para novas extinções em grande escala e alterações climáticas irreversíveis?”

Saiba Mais

Ecological consequences of human niche construction: Examining long-term anthropogenic shaping of global species distributions’, is by Nicole Boivin, Melinda Zeder, Dorian Fuller, Alison Crowther, Greger Larson, Jon Erlandson, Tim Denham, and Michael Petraglia.

 

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