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Não pode ser só pelo carbono

Estudos demonstram que não basta manter estoques de carbono para garantir a proteção da biodiversidade

Vandré Fonseca ·
19 de julho de 2018 · 3 anos atrás
Onde tem carbono, não necessariamente tem biodiversidade. Foto: Daniele Bragança.

Florestas de maior valor ecológico podem perder até 75% da biodiversidade, quando a preocupação em protegê-las leva em consideração apenas os estoques de carbono. A conclusão é de um estudo publicado esta semana na Nature Climate Change, por pesquisadores da Embrapa Amazônia Oriental e Universidade de Lancaster, Reino Unido.

Os pesquisadores compararam, ao longo de 18 meses, a absorção de carbono em florestas alteradas com a variedade de plantas, besouros e pássaros. Os estudos foram realizados em 234 áreas dos municípios de Paragominas e Santarém, no Pará. Foram analisadas desde florestas que tiveram pouca ou nenhuma intervenção humana até aquelas que já estão se recuperando, incluindo áreas que sofrem extração de madeira e queimadas.

Eles descobriram que, embora o crescimento dos estoques de carbono e biodiversidade tenham o mesmo ritmo nas áreas mais danificadas, isso não ocorre nas florestas que sofreram menos impactos de atividades humanas. Nas florestas menos impactadas, a biodiversidade se recupera mais devagar do que o carbono estocado. No final das contas, conforme o estudo, florestas com o maior teor de carbono não abrigam necessariamente a maioria das espécies.

De acordo com a explicação da bióloga Joice Ferreira, pesquisadora da Embrapa Amazônia Oriental e uma das autoras do estudo, em áreas menos impactadas a recuperação da floresta está sobre a influência maior de fatores como clima, solo, luminosidade, concorrência entre as espécies. Já nas áreas mais impactadas, esses fatores são menos importantes.

““As medidas de proteção aos estoques de carbono não apenas podem desacelerar os efeitos das alterações climáticas, como também têm o potencial de proteger a vida selvagem única e insubstituível das florestas tropicais”, afirma o pesquisador da Universidade de Lancaster, Gareth Lennox”

De acordo com a Embrapa, as florestas tropicais armazenam um terço do carbono terrestre do mundo. Perturbações como o desmatamento ou incêndios liberam esse estoque para a atmosfera, contribuindo para o aquecimento global. Os autores afirmam que o número de espécies de grandes árvores que podem ser protegidas aumenta em até 15% se a abordagem usada na proteção da floresta levar em conta tanto o carbono quanto a biodiversidade.

“As medidas de proteção aos estoques de carbono não apenas podem desacelerar os efeitos das alterações climáticas, como também têm o potencial de proteger a vida selvagem única e insubstituível das florestas tropicais”, afirma o pesquisador da Universidade de Lancaster, Gareth Lennox, que está entre os autores do estudo. “Mas para isso é fundamental colocar a biodiversidade no mesmo patamar de importância do carbono”, completa.

“Proteger os estoques de carbono das florestas tropicais deve permanecer um objetivo central em políticas de conservação e restauração florestal”, afirma a brasileira Joice Ferreira. No entanto, para garantir a manutenção da riqueza de espécies dessas áreas, a biodiversidade precisa ser tratada também como foco central desses esforços”, completa

 

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