Ironia: Exército abate mascote da Olimpíada

Vandré Fonseca
terça-feira, 21 junho 2016 23:58
Juma era mascote do 1º Batalhão de Infantaria de Selva do Exército. A onça foi abatida após ser exposta durante o revezamento da Tocha Olímpica em Manaus e escapar. Foto: Vandré Fonseca

Manaus, AM –  Juma, um macho de 18 anos e cerca de 55 quilos, era mascote do 1° Batalhão de Infantaria de Selva. Veterano de desfiles militares, foi incluído de última hora no trajeto da tocha olímpica pelo Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), em Manaus. Pouco depois de ser exibido em uma das passagens da tocha,  escapou dos militares que o conduziam.

Juma foi usada no desfile sem a devida autorização do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), órgão responsável pelo licenciamento do zoológico. O Exército diz que o animal estava ali para procedimentos veterinários. De qualquer forma, posou acorrentada para fotógrafos e cinegrafistas enquanto a chama olímpica passava de uma tocha a outra.

Embora seja uma prática condenada por especialistas em animais selvagens, onças-pintadas são usadas em desfiles militares em Manaus há décadas. Cada organização militar do Exército possui seu mascote, onças resgatadas quando filhotes que não puderam retornar a vida selvagem ou não encontraram outro abrigo. O do CIGS se chama Simba, e também estava na passagem da tocha. O próprio Comando Militar da Amazônia (CMA) tem a onça Jiquitaia. Os animais têm especial destaque nas paradas de comemoração da independência do Brasil, no 7 de setembro.

Símbolo Olímpico

Na passagem da tocha olímpica por Manaus, Juma não simbolizava apenas o poder do batalhão, era o próprio mascote da delegação brasileira nas olimpíadas do Rio de Janeiro. O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) escolheu a onça-pintada como mascote brasileira nos jogos, representada pelo personagem Ginga.

Segundo o COB, a opção demonstra “valores do respeito e da proteção da nossa fauna, para a atual e futuras gerações”. A preferência pela onça-pintada se justifica pela espécie ser classificada como “quase ameaçada”, pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, em português), e “vulnerável”, pelo Ministério do Meio Ambiente.

Infelizmente, a intenção do Comitê Olímpico Brasileiro de nada serviu a Juma, uma onça de verdade.

Tragédia pronta

Militares que acompanhavam o animal estavam apreensivos.  Juma estava mais inquieta do que o normal, pois estava em um local estranho e perto de outras onças do zoológico do CIGS. Havia movimentação de repórteres, atletas e gente da organização da Rio 2016.

E, então, Juma não fez mais do que seguir os seus instintos e fugiu.

De acordo com nota divulgada pelo Comando Militar da Amazônia (CMA), a equipe de veterinários militares tentou recapturá-la com o disparo de tranquilizantes, porém, após atingido, o animal foi em direção a um militar e acabou abatido.

“Como procedimento de segurança, visando a proteger a integridade física do militar e da equipe de tratadores, foi realizado um tiro de pistola no animal, que veio a falecer”, afirma a nota divulgada pelo CMA na tarde de segunda-feira (20).

O veterinário Diogo Lagroteria, analista ambiental do Instituto Chico Mendes e que já foi responsável pelo Centro de Triagem de Animais Silvestre (Cetas) do Ibama em Manaus, critica a exposição dos animais em eventos: “Quando eu era do Ibama, tentava persuadir a não fazer, até porque esse tipo de atividade é a receita para problema e vai contra tudo o que se diz hoje de bem-estar animal”. Entidades e pessoas que atuam na defesa do bem-estar animal em Manaus já lançaram uma petição, para convencer o Exército a não expor mais onças durante eventos.

Embora não fosse um animal do zoológico, diz Lagroteria, devia haver um plano para tratar de situações de emergência como esta, com armas de tranquilizantes. Mas, para preservar a vida humana, considera que a opção de abatê-la foi correta. “Um animal silvestre, quando está acuado, só tem duas opções, fugir ou atacar. Pelo que disseram, ele estava em cima de uma árvore, onde não tem para onde fugir. Então, ele vai atacar.”

O Comando Militar da Amazônia informou que já foi aberto um inquérito administrativo para apurar o que aconteceu.

 

 

Leia Também

Abate de animais em zoológico: fácil julgar, difícil agir

Mamirauá: onças-pintadas sobrevivem na selva inundada

Onça ferida por tiro acaba atropelada

 

 

 

14 comentários em “Ironia: Exército abate mascote da Olimpíada”

    • Angélica, o que aconteceu é muito triste. Mas essas onças saíram da mata devido ao tráfico ou caça. Elas são criadas em cativeiro, porque não podem mesmo voltar para a floresta. O ideal é que nunca tivessem motivo para sair, mas o desmatamento continua, o tráfico também e as caçadas idem.

      Responder
  1. A estupidez humana não tem limites!!!! Qualquer um que tem mais de 2 neurônios não pensaria que o animal ia ficar estressado?
    E porque o IBAMA/ICMBio/MMA não impedem isso? A utilização destes animais como mascotes!!!
    A manutenção de animais silvestres pelo exército (um grande favor, como declarou o responsável pelo IBAMA por lá!!! ) não deveria dar o direito de treiná-los e usá-los como mascote em qualquer evento que fosse. Os animais que não podem mais retornar à natureza deveriam ser mantidos em cativeiros adequados, e em condições adequadas, que promovam o mínimo de estresse possível aos animais!!!!

    Responder
  2. Cade a representante dos zoos pra fazer uma matéria sobre o caso? Não esquece dos jacarés, da onça que comeu a colega de cela por não ter comida, do leão que morreu de fome… cadê?

    Responder
  3. Essas onças já estariam mortas se não fossem as FA… Quem conhece sabe como é na Selva… O qto vale uma pele de onça… Teve erro e será corrigido…

    Responder
    • Como eu disse, manter os animais que não tem como retornar à natureza, não dá o direito de fazer o que bem entender com eles! Esta prática estúpida e comum do exército na Amazônia de usá-los como mascotes para desfiles!!!

      Responder
  4. Salvo rara exceção, acidentes ocorrem sistematicamente quando os protocolos técnicos não são cumpridos. E a iniciativa de expor um animal selvagem acorrentado é totalmente infeliz, deprimente mesmo. Coisa de gente sem nenhuma noção ou bom senso. E tudo indica que, uma vez colocada em prática essa brincadeira de mau gosto, as cautelas necessárias não foram tomadas. Mais uma notícia no padrão ideal para esculhambar com a nossa imagem por conta de eventos internacionais que ocorrem no Brasil. Não bastasse a crise moral na política e na iniciativa privada, a indisponibilidade grosseira de serviços básicos à população, a falência de gestão dos governos e o crescente processo de degradação da natureza em todo o País, o Exército encontra uma forma de aparecer em cena, a partir de um procedimento de péssimo gosto e de conduta de manejo que certamente deverá se demonstrar desastrosa a partir de uma investigação. E se a atitude puder ser classificada como ilegal, deve gerar um processo contra os que proporcionaram esse lamentável episódio.

    Responder
  5. Assim como nosso país as FA são uma piada. Repleta de regalias a muito extirpadas do poder público, sequer auxiliam nas operações de combate a desmatamento e as mazelas a ele associadas (caça por exemplo) e agora vem posar de bom moço, pois se não fossem eles,estes animais já teriam morrido. Tirem as tropas dos quartéis e auxiliem verdadeiramente na proteção do maior patrimônio nacional, que é nossa natureza. Parem de brincar em exercícios com "inimigos" virtuais, pois em especial na amazônia, existem muitos e bem reais.
    Um evento tosco como este demonstra bem o nível do comando militar nacional.

    Responder
      • Tudo não sei mesmo. Mas manter uma mulherada cheia de filhos que não se casam no papel para garantir a mesadinha dos papais militares, ganhar uma baba para mudar para o Norte e morar em vilas militares, com uma baita segurança e ganhar outra baba pra voltar para o estado de origem, ficar brincando de polícia e ladrão, manter um monte de jovens para babar ovo de patentes superiores sem produzir nada, isto eu sei que fazem às custas do meu suado suor. E voltando ao assunto, auxiliar na preservação do patrimônio natural brasileiro, cri cri cri cri . Enfim, brasileiro sem regalia é tudo oreia mesmo, ou não…

        Responder
  6. Juma (onça-pintada) e nós? Todo dia morre uma ou mais Jumas ou outras onças-pintadas, veados, macacos, pássaros, tatus, pirarucus, pintados, baleias, tubarões, tartarugas-da-Amazônia, tartarugas-marinhas… mais que nada pela perda e degradação de habitats (desmatamento, barragens e outros tipos de conversação de ecossistemas, usos ilegais ou insustentáveis de pesca, caça, retirada de madeira etc.) e carência de parques e reservas e outras categorias de unidades de conservação e outros tipos de áreas protegidas . E todos temos a ver com isso, quando consumimos alimentos, energia, materiais de construção, jóias… sem procedência clara ou de produção não sustentável, e quando votamos.

    Responder

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.