Interação com pesca é uma das maiores ameaças aos botos na Amazônia

Vandré Fonseca
quarta-feira, 5 julho 2017 13:35
Boto vermelho. Foto: Everson Tavares/ Instituto Mamirauá
Boto vermelho. Foto: Everson Tavares/ Instituto Mamirauá.

Tefé (AM) – Encalhes em redes e ataques de pescadores na área de pesca são ameaças graves aos botos da Amazônia que recebem pouca atenção nas ações proteção, segundo a oceanógrafa Miriam Marmontel, pesquisadora do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Miriam estuda botos na região desde o início da década de 1990 e considera a interação com a pesca um risco para os animais ainda maior do que a captura da piracatinga.

O boto-vermelho é a principal vítima dos pescadores, segundo ela, devido a fama que tem de roubar peixes das redes e até mesmo virar canoas, embora não exista comprovação de que botos sejam capazes de jogar os pescadores na água. “Há uma sobreposição de locais produtivos para a pesca e hábitats críticos para o boto”, afirma a oceanógrafa. “São águas mansas, com pouca movimentação de barcos e maior concentração de peixes. São áreas de aprendizagem para o filhote”, completa.

A piracatinga é um peixe que se alimenta de carcaças no fundo do rio. Após denúncias de abates de botos-vermelhos para servir de isca, o governo federal decretou uma moratória de 5 anos para a pesca e venda do peixe, sob pressão do Ministério Público Federal. A proibição começou a valer em janeiro de 2015 e vai até 2020. Durante esse período, os efeitos da decisão sobre a população de botos devem ser avaliados e se pretende buscar uma alternativa para a pesca, que proteja os botos.

Para Miriam, o uso como isca é uma ameaça ao boto, mas não a ponto de colocar as espécies em risco de extinção. “É mais um estímulo ao pescador que não gosta do boto-vermelho matar. Mas não é tão fácil abater um boto. É mais fácil um jacaré, que fica parado”, conta a pesquisadora. Um estudo desenvolvido pelo Instituto concluiu que eram abatidos três vezes mais jacarés do que botos para a pesca da piracatinga.
De acordo com a oceanógrafa, existe uma grande densidade de botos na Amazônia, que pode variar segundo o rio ou a região, mas não é possível saber se a população está em declínio. São necessários estudos como índices de mortalidade, parâmetros reprodutivos, número de filhotes por fêmea e dados sobre o passado.

Monitoramento por Drones

Pesquisadora do Instituto Mamirauá, Daiane da Rosa, faz o lançamento de drone. Foto: Everson Tavares/Divulgação.
Pesquisadora do Instituto Mamirauá, Daiane da Rosa, faz o lançamento de drone. Foto: Everson Tavares/Divulgação.

O Instituto Mamirauá, em parceria com o WWF, está testando drones para estimar de densidade populacional de botos na Amazônia. Equipados com câmeras de vídeo, podem chegar a locais inacessíveis às embarcações e reduzir o custo de expedições. Os drones acompanham equipes de observação que fazem a contagem dos botos e fazem imagens que ajudam a corrigir eventuais erros na contagem tradicional. Mas intenção é desenvolver uma metodologia em que as imagens geradas por eles sejam suficientes para realizar as estimativas.

“Se você tiver uma pessoa especializada ou dinheiro para contratar um piloto, podem ser feitas imagens e enviadas para um especialista”, exemplifica a bióloga Daiane da Rosa, pesquisadora do instituto. “Nas unidades de conservação da Amazônia, falta pessoal e faltam recursos. Os drones podem resolver em parte esse problema”, completa.

Em testes realizados em junho, foram usados dois drones que se revezavam. Eles são posicionados sobre a proa da voadeira (bote com motor usado na Amazônia), a 20 metros de altitude, que registra imagens do rio. Além do condutor, o barco leva dois pesquisadores à frente e um atrás, que contam os botos quando sobem para respirar. Em outro bote, vão dois pilotos de drone, um auxiliar e o condutor.

É uma estrutura bem menor do que a usada em expedições tradicionais para a contagem. No ano passado, no Rio Juruá, interior do Amazonas, por exemplo, o barco regional usado carregava 20 pessoas entre tripulantes e pesquisadores, que se revezavam para avistar os animais. O custo de uma expedição como gira em torno de 70 mil reais. Com o uso de drones, este valor pode ser reduzido a até 10 mil reais.

 

 

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Pesquisadora do Instituto Mamirauá, Daiane da Rosa, faz o lançamento de drone. Foto:

 

2 comentários em “Interação com pesca é uma das maiores ameaças aos botos na Amazônia”

  1. "…o uso como isca é uma ameaça ao boto, mas não a ponto de colocar as espécies em risco de extinção". "…mas não é possível saber se a população está em declínio. São necessários estudos como índices de mortalidade, parâmetros reprodutivos, número de filhotes por fêmea e dados sobre o passado"! PARABÉNS, finalmente uma manifestação razoável. Por mais que o abate de botos, ainda mais para esse fim (isca) deve ser combatido, tinha muito sensacionalismo sobre o risco de EXTINÇÃO do boto…#FAKE NEWS!!!

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  2. "O Instituto Mamirauá, em parceria com o WWF, está testando drones para estimar de densidade populacional de botos na Amazônia."

    O método de pesquisar botos usando drones foi desenvolvido pelo Instituto Araguaia desde 2014, conforme reportagem do próprio Eco:

    "https://www.oeco.org.br/reportagens/29111-drones-vigiam-o-parque-do-cantao-no-tocantins/"

    Os resultados foram aceitos para publicação como "Improving river dolphin monitoring using aerial surveys" pela revista Ecosphere, e também foram matéria do Globo Reporter no ano passado.

    Em junho de 2015 o Instituto Araguaia foi convidado pela WWF para uma oficina em Brasília, onde explicou em detalhe a metodologia e os resultados obtidos. Após essa transferência de tecnologia, a WWF começou também a usar drones para estudar botos. Infelizmente, as matérias sobre isso sempre dão a entender que o método foi desenvolvido pela própria WWF. Com seu poder de mídia muito maior, a ONG internacional abafa a ONG local e usurpa sua capacidade de levantar recursos.

    É uma pena, mas o Instituto Araguaia continua seu trabalho, agora abrangendo a população de botos-do-Araguaia em toda a bacia do Rio Javaés, altamente ameaçada pela retirada de água para irrigação. Quem sabe um dia as ONGs internacionais não passem a reconhecer e apoiar os esforços dos nativos…

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