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Construção de hidrelétricas no Tapajós ameaça botos

O possível isolamento de subpopulações dos botos acima e abaixo dessas barragens pode levar a um processo de extinção desses animais, afirma estudo

Sabrina Rodrigues ·
13 de fevereiro de 2017 · 5 anos atrás
Boto tuxuci. Foto: Pedro Nassar.
Boto tuxuci. Foto: Pedro Nassar.

Em agosto do ano passado, o Ibama arquivou o processo de licenciamento ambiental daquele que seria o maior projeto de hidrelétrica na Amazônia: a usina hidrelétrica de São Luiz do Tapajós. Projetada para alagar o rio Tapajós, na região do município de Itaituba, no Pará, a usina seria a primeira de um grupo de 5 usinas que integrariam o chamado complexo hidrelétrico dos Tapajós. Em meio ao processo de licenciamento dessas usinas, um grupo de pesquisadores uniram-se para estudar os impactos que esse empreendimento exerceria numa espécie bem conhecida daquela região: os botos.

O trabalho, publicado na revista científica Endangered Species Research, focou nos botos tucuxi (Sotalia fluviatilis) e no cor-de-rosa (Inia geoffrensis). O objetivo era analisar o que pode ocorrer com as populações desses animais caso seja instalada as barragens nas corredeiras de São Luiz do Tapajós, quando ainda corria o processo de licenciamento da usina, agora arquivada.

Botos

Amplamente distribuídos nos rios da América do Sul, estando presentes na bacia dos rios Amazonas, Orinoco e Tocantins, os botos representam a maior diversidade de cetáceos de água doce do mundo. São animais que se deslocam ao longo dos rios e dependem que estes sejam ininterruptos para exercer funções vitais básicas, como alimentação e reprodução. Segundo o estudo, com as represas, haveria a transformação dos habitats, o fluxo d’água seria perturbado, aumentando as cargas de sedimentos rio acima, além de promover a alteração das condições térmicas e o equilíbrio de nutrientes.

“Sabemos que os botos são muito afetados pela construção de barragens hidroelétricas. Uma barragem é um obstáculo físico intransponível, mesmo para os botos, exímios nadadores”, explica Miriam Marmontel, líder do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do Instituto Mamirauá, unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

Segundo a pesquisadora, o estudo indica que o possível isolamento de subpopulações dos botos acima e abaixo dessas barragens – assim como a baixa variabilidade genética resultante destas subpopulações – podem levar a um processo de extinção desses animais no âmbito local. “Um fato como este traria consequências drásticas para todo o sistema do rio. Os botos, por se alimentarem de peixes, estão no topo da cadeia alimentar. Então eles têm o potencial de refletir o que acontece em toda a cadeia trófica”, diz Heloíse Pavanato, uma das autoras do estudo.

O documento aponta na direção de que não se pode olhar a Amazônia somente do ponto de vista da floresta, mas também a sua biodiversidade. “É a primeira vez que se se faz um estudo sobre as espécies de uma bacia hidrográfica antes do processo de licenciamento de uma obra de grande porte. Os resultados poderão redirecionar os empreendimentos ou mesmo ajudar a repensar modelos de desenvolvimento para a região amazônica”, afirma Heloise.

Boto cor-de-rosa. Foto: Pedro Nassar
Boto cor-de-rosa. Foto: Pedro Nassar

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  • Sabrina Rodrigues

    Repórter especializada na cobertura diária de política ambiental. Escreveu para o site ((o)) eco de 2015 a 2020.

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Comentários 4

  1. Helier diz:

    Hidrelétrica não é única energia limpa, aliás não é completamente energia limpa, pois pesquise o conceito de "eutroficação" e tu vai entender que por consequência há emissão de metano na atmosfera. Leia o impacto do metano na atmosfera. Se comparar com uma termoelétrica, ok! É mais limpa, assim como a solar e eólica, que por definição são também fontes mais limpas. O fato de ser limpa ou não, não está ligado a produção, pois se é por isso a construção da hidrelétrica deverá ser levada em conta também, logo não vai ser limpa. Fonte limpa se refere a produção secundária no funcionamento da geração de energia, ou seja, o que ela produz na geração de energia que tem impacto ambiental, principalmente poluentes, como gases do efeito estufa. Quando se analisa a construção de uma grande obra tem que ter em mente TODOS os impactos, tanto ambientais quanto sociais. Fala em falta de embasamento técnico, mas o que se vê são empreiteiras com nenhum embasamento técnico, com a única intenção de construir e lucrar.


  2. jhoni loro diz:

    Já vi muitos estudos como esse que não possui embasamento técnico suficiente para afirmar tal problemática. Uma barragem e sim um obstáculo intransponível, assim como uma cachoeira. Os botos habitam todos os rios da Amazônia, ou seja, se eles não conseguem migrar de um ponto ao outro do rio devido a barragem deve-se buscar meios para tanto, como escadas de peixe com características que se assemelham a um corpo hídrico, porem da maneira como a matéria e lançada percebe o claro contra a implantação das hidrelétricas, mesmo sendo elas a UNICA fonte de energia limpa, se alguém pensa que energia solar e limpa sugiro que estudo o processo de produção do silício (matéria prima para todas as placas inversores e demais componentes eletrônicos necessários), o mesmo vale para a energia dos ventos, estude como e feito a regulagem de tensão / frequência para que a energia possa ser transmitida / utilizada.


    1. Silvana diz:

      Não se está tratando aqui do tema de energias limpas. A matéria trata da conservação da biodiversidade, do isolamento genético da espécie e da real necessidade de se destruir o Rio Tapajós dentro com modelos errados de desenvolvimento.


  3. Sérgio Narciso diz:

    Importante este levantamento prévio.