Notícias

ONG usa Satélite para flagrar pesca comercial em alto mar

Projeto Global Fishing Watch pode revolucionar o monitoramento dos oceanos ao tornar público dados sobre rota e localização das frotas.

Eduardo Pegurier ·
19 de novembro de 2014 · 6 anos atrás

No telão da Google, John Amos (à esquerda) e Paul Woods demonstram o projeto Global Fishing Watch, que pode revolucionar o monitoramento da pesca em alto-mar. Foto: Eduardo Pegurier.
No telão da Google, John Amos (à esquerda) e Paul Woods demonstram o projeto Global Fishing Watch, que pode revolucionar o monitoramento da pesca em alto-mar. Foto: Eduardo Pegurier.

Em vez de estandes convencionais, a Google e a Nasa instalaram telões no pavilhão de exposições do Congresso Mundial de Parques 2014, da IUCN. Nesta terça, passei a tarde entre as duas instalações, onde a cada hora acontece alguma demonstração interessante do uso de imagens para monitorar e guiar a conservação.

E numa delas a Sky Truth demonstrou o protótipo do Global Fishing Watch (algo como Vigilância Global da Pesca), uma tecnologia que pode ajudar a virar o jogo a favor da criação de áreas protegidas marítimas e da melhor regulação das frotas pesqueiras internacionais. Pelo menos, agora todo mundo vai saber o tamanho do problema.

A Sky Truth é um ONG que funciona de um pequeno escritório na Virgínia do Oeste, a uma hora e meia de Washington D.C. Ela se notabilizou por usar imagens de satélites para denunciar acidentes ambientais no mundo inteiro, especialmente vazamentos de petróleo, como o do Golfo do México, em 2010, ou o da Chevron, na Bacia de Campos, em 2011.

As embarcações oceânicas hoje são obrigados a usar um AIS (Automatic Identification System, em português, Sistema de Identificação Automática). O dispositivo manda informações sobre o barco, como sua nacionalidade,e fornece a sua posição. A Skytruth criou um software que usa a informação do satélite e analisa o trajeto de cada barco que se utiliza de um AIS. Caso ele se mova pelo mar com um padrão característico de quem está pescando, o programa o identifica e o separa de navios e embarcações de transporte.

Criado em parceria com a Google e a Oceana, os principais responsáveis pelo sistema na Sky Truth são John Amos, geólogo e presidente da ONG, e Paul Woods, desenvolvedor de software e diretor de tecnologia da organização. Os dois são velhos conhecidos de ((o))eco. John nos concedeu uma entrevista no CBUC 2012, em Natal (RN) e Paul colaborou com reportagem sobre flaringem plataformas de petróleo publicada em nossas páginas.

Eles estavam empolgados, e com razão. Usando as informações enviadas pelos dispositivos de identificação, a Sky Truth identificou 3,7 bilhões de dados referentes ao movimento de embarcações oceânicas. O software separou o joio do trigo e marcou aquelas cujo comportamento indica pesca. Isso reduziu o número para (apenas) 35 milhões de dados. A Google ajudou a transformar isso em um mapa. O resultado é espantoso. De repente, ao mirar uma imagem, você descobre que os oceanos do planeta inteiro estão coalhados de pesqueiros de alto-mar, invisíveis até agora, e que estão detonando as populações de peixes comerciais.

“Nós detectamos um navio pesqueiro nas águas de Palau e avisamos o seu governo”, contou John. “Imediatamente, Palau enviou um barco-patrulha para interceptar o pesqueiro. E na hora que a patrulha partiu, vimos pelo satélite o pesqueiro dar meia-volta e partir para águas internacionais, além de, pouco depois, desligar o seu dispositivo de identificação”. O fim da história é que o navio pesqueiro infrator fugiu a tempo para águas sobre as quais ninguém tem jurisdição. Mas agora eles sabem que não passam mais despercebidos.

Na imagem, as linhas finas e claras sobre o Oceano Atlântico mostram as fronteiras das águas nacionais, enquanto os pontos amarelos mostram os navios pesqueiros. Note como eles se mantêm em águas sem internacionais, onde a pesca não é controlada. Foto: Eduardo Pegurier.
Na imagem, as linhas finas e claras sobre o Oceano Atlântico mostram as fronteiras das águas nacionais, enquanto os pontos amarelos mostram os navios pesqueiros. Note como eles se mantêm em águas sem internacionais, onde a pesca não é controlada. Foto: Eduardo Pegurier.

Na maior parte dos casos, os grandes navios pesqueiros respeitam as áreas marítimas de cada país. As imagens mostram como logo além dessas fronteiras abstratas, já em águas internacionais, aglomeram-se para pescar pesqueiros da Coreia do Sul, Japão, Espanha e Rússia, para citar algumas bandeiras mais comuns dessas embarcações. Um caso é a Ilha de Trindade, que pertence ao Brasil. No círculo de oceano sob jurisdição brasileira os pesqueiros não entram. O exemplo sugere que áreas protegidas marítimas podem contribuir e muito para impedir que a pesca sem limites arrase as populações de peixes e ajudem a tornar o mundo submerso um deserto.

Veja abaixo o vídeo (em inglês) explicativo do projeto

 

 

Leia Também
Fundador da ONG Skytruth em entrevista exclusiva no stand de ((o))eco
“Flaring”, prática das petroleiras que polui e desperdiça
Abre em Sidney Congresso Mundial de Parques IUCN 2014

 

 

 

  • Eduardo Pegurier

    Eduardo Pegurier

    Mestre em Economia, é professor da PUC-Rio e conselheiro de ((o))eco. Faz fé que podemos ser prósperos, justos e proteger a biodiversidade.

Leia também

Notícias
11 de maio de 2021

Servidor que relatou ineficiência no Ibama denuncia ameaças feitas por assessor de Salles

Hugo Ferreira foi impedido de copiar documentos do computador onde trabalhava e sofreu ameaças após escrever um relatório para o TCU. Servidor denunciou o ato à corregedoria do Ibama

Salada Verde
11 de maio de 2021

Ministério revela dia e local de operação de fiscalização na Amazônia

Publicação assinada pelo ministro Ricardo Salles autoriza transferência temporária de gabinetes e revela datas e locais de operação conjunta com a Força Nacional

Notícias
10 de maio de 2021

Organizações são contra a votação da lei geral do licenciamento, chamada de ‘boiada das boiadas”

Ascema, ONGs ambientalistas e nove ex-ministros do Meio Ambiente publicaram cartas em repúdio à votação do projeto de lei do licenciamento, que sequer foi tema de audiência pública

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta