Cientistas provam que a vida dos grandes felinos não é moleza

Vandré Fonseca
quinta-feira, 2 outubro 2014 22:00

Guepardo caminha no Parque Transfronteiriço de Kgalagadi, África do Sul / Botswana. Foto: Michael G.L. Mills | Clique para ampliar
Guepardo caminha no Parque Transfronteiriço de Kgalagadi, África do Sul / Botswana. Foto: Michael G.L. Mills | Clique para ampliar

Manaus, AM – Graças a métodos inovadores, cientistas estão conseguindo mapear em que atividades os felinos gastam mais energia. E os resultados geraram surpresas. Para felinos selvagens, perambular em busca de uma presa ou ambiente para a caça pode ser mais desgastante do que o ataque em si. Mais do que isso, eles são capazes de adequar a energia usada em um ataque ao tamanho da presa. E isso é muito importante para a sobrevivência de predadores, que arriscam a vida toda vez que precisam de uma boa porção de comida.

Dois estudos, com métodos diferentes, foram realizados com suçuaranas na América do Norte, onde recebem o nome de puma ou leão-da-montanha, e com guepardos na África do Sul, o felino mais rápido do planeta, para saber em que atividades os bichanos gastam mais energia e como eles ajustam esses gastos às calorias que conseguem se alimentando. Os artigos foram publicados na edição da primeira semana de outubro da revista Science.

O ecólogo John Laundré, um especialista na biologia de pumas, da Universidade da Califórnia, publicou na mesma revista um texto com comentários sobre a importância e as implicações dos resultados desses estudos. Ele destaca os impactos provocados pelo homem que resultem em mudanças na paisagem ou redução na abundância das presas. “A conservação adequada do habitat e da abundância de presas tornam-se primordiais nos esforços para a conservação dos grandes carnívoros”, escreveu Laundré.

Guepardos

Ao Sul do Equador, pesquisadores africanos, europeus e americanos queriam saber o real impacto da perda de presas abatidas por guepardos para leões ou hienas. A espécie teve a população reduzida de 100 mil animais no início do século passado para 10 mil atualmente. Imaginava-se que perder a caça para outros predadores tivesse contribuído significativamente para esse declínio. Entretanto, eles descobriram que a caça perdida na competição com leões não é suficiente para explicar essa redução no número de cheetahs (guepardos).

Os pesquisadores injetaram um isótopo solúvel em água e colocaram radiotransmissores em cheetahs de duas reservas sul-africanas. A presença do isótopo em resíduos deixados pelos animais permitiu as cientistas calcularem o gasto de energia na caça e outras atividades, além do quão significativo para o guepardo era ter a presa roubada por outros animais.

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A surpresa foi saber que ter a caça levada por um predador maior é menos desgastante para o felino mais rápido do mundo do que andar exaustivamente até encontrar uma presa potencial. Para que o roubo de presas tenha impacto significativo no declínio de guepardos, o problema deveria ocorrer em metade das caçadas, o que não ocorreu entre os animais observados.

Na verdade, em 25% dos casos, os guepardos perderam a caça para outros carnívoros. A busca por uma nova presa, nesse caso, não representou um excessivo gasto extra de energia. “Isto significa que guepardos podem cooperar com outros grandes predadores e eventualmente perder a comida sem que isso produza grandes consequências”, diz o biólogo Mike Scantlebury, da Queen´s University de Belfast, Irlanda do Norte.

Onças-pardas

na ilustração, uma onça-parda com colar eletrônico persegue um veado. Medição do acelerômetro da caminhada até a corrida é apresentada no fundo da imagem. Ilustração: © Corlis Schneider, 2011
na ilustração, uma onça-parda com colar eletrônico persegue um veado. Medição do acelerômetro da caminhada até a corrida é apresentada no fundo da imagem. Ilustração: © Corlis Schneider, 2011

Nos EUA, cientistas da Universidade da Califórnia estudaram a relação entre gasto de energia e comportamentos de onças-pardas que vivem nas montanhas da Califórnia, onde recebem o nome de leão-da-montanha. Eles desenvolveram um colar de localização capaz monitorar os movimentos e determinar quanta energia os pumas gastam para perseguir, atacar e superar as presas. Mas para a tecnologia funcionar, eles tiveram antes de calibrar os instrumentos e isto foi trabalhoso.

Os pesquisadores precisaram ensinar onças-pardas que cresceram em cativeiro a andar em esteiras. Após oito meses de treinamento, os exercícios começaram para que os cientistas pudessem medir a quantidade de energia que elas gastavam durante seus movimentos. Os testes mostraram que o animal não tem capacidade aeróbica para sustentar longamente atividades de alto gasto de energia.

“Eles têm uma capacidade de marcha rotineira lenta e de usar velocidade e força em ataques súbitos para derrubar ou dominar suas presas”, explica a professora de Ecologia e Biologia Terrie Williams, principal autora do artigo. Os felinos foram filmados usando o colete, enquanto faziam uma variedade de movimentos ao ar livre, para ser possível identificar o comportamento dos animais por meio dos dados obtidos pela coleira.

Toda esta tecnologia demonstrou que as onças-pardas são capazes de adequar a energia a ser gasta em um ataque conforme o tamanho da presa. Os resultados mostraram também quanto custa para as onças-pardas, em termos calóricos, a estratégia de perseguir e atacar. Para os bichos, é muito pior atravessar terrenos acidentados do que movimentos com baixo gasto de energia, como se camuflar na paisagem e esperar para o ataque, ou fazer emboscadas. Em um ataque súbito, muita energia é gasta, mas em um espaço de tempo pequeno.

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“O que é realmente excitante é que nós podemos dizer agora ‘aqui está o custo de ser um leão-da-montanha na natureza e o que eles necessitam em termos de calorias para viver no seu ambiente”, diz Terrie Williams. Agora, os pesquisadores querem conhecer os gastos de energia dos felinos em diferentes tipos de habitat, particularmente como alterações no uso da terra, provocadas pelo homem, e a fragmentação de habitat pode influenciar a demanda dos pumas por energia.

A bióloga destaca que muitos dos grandes carnívoros estão ameaçados e conhecer as suas limitações fisiológicas pode ajudar nos projetos de conservação. “Esta tecnologia nos dá toda um novo nível de compreensão sobre o que esses animais estão fazendo e o que custa para eles viver em estado selvagem, e também pode ajudar a avançar a ciência da conservação”, afirma Terrie Williams.

 

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