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Estrada de governo Evo Morales é rejeitada por líder indígena

Polêmica da estrada que cortará Parque não cessou. Líder indígena afirma que autorização para a estrada é “inválida, ilegal e ilegítima”.

Alain Muñoz ·
19 de dezembro de 2012 · 9 anos atrás
Fernando desvirtuou a aceitação indígena da estrada pelo TIPNIS, anunciada pelo governo boliviano. Ele declarou também a internacionalização da luta.  Foto gentileza Fernando Vargas.
Fernando desvirtuou a aceitação indígena da estrada pelo TIPNIS, anunciada pelo governo boliviano. Ele declarou também a internacionalização da luta. Foto gentileza Fernando Vargas.
 

Bolívia ─ “A estrada pelo TIPNIS não será feita”, afirma Fernando Vargas, máxima autoridade do Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Sécure (TIPNIS). “Antes terão que liquidar-nos a todos os indígenas”, ameaçou, em clara referência a que terão que assassinar toda a população da zona − cerca de nove mil pessoas de três nacionalidades diferentes: Moxenhos Trinitários, Yuracaré y T’simane − para construir essa estrada.

Para Fernando Vargas, a “suposta reunião de líderes indígenas do TIPNIS” realizada recentemente na cidade de Trinidad pelo governo boliviano é “inválida, ilegal e ilegítima”. A consulta para a estrada dentro do TIPNIS foi realizada pelo governo de Evo Morales entre 29 de julho e 7 de dezembro; e segundo o governo, 55 comunidades indígenas – de 58 ouvidas –  aceitam a estrada no parque

“É um show político que viola mais uma vez a Constituição Política, a Convenção 169 da OIT, e a Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas”, acusou Vargas..

“Nossos usos e costumes, reconhecidos por essas leis, estabelecem que só nossas próprias instituições organizativas podem convocar reuniões com todas as comunidades. O governo não pode convocá-las; então, violaram nossas estruturas organizativas. Esse tipo de reuniões é usado para tomar decisões que afetam  todo nosso território”, explicou Fernando.

“Na reunião de Trinidad foram cerca de 40 pessoas, mas hoje tenho certeza que só representavam um máximo de 10 comunidades, das 63 que existem em total no TIPNIS.  Também tenho certeza que trouxeram cocaleiros (produtores de folhas de coca) do Chapare, para fazer acreditar que estavam os habitantes de todas as comunidades do TIPNIS”, detalhou.

“Além disso, nessa reunião, o maior número de participantes do TIPNIS são de um povo, os T’simanes, que são os mais vulneráveis. Se falassem com eles na língua deles, eles entenderiam e se negariam. Mas em vez disso, lhes falam em outro idioma, e eles não entendem bem. Pior ainda se levam eles comodamente, em avião, lhes dão bom hotel e boa comida. Para eles, isso é amabilidade, e eles acreditam que devem confiar em pessoas amáveis. Sem entender bem e confiados pela amabilidade, é fácil confundi-los”, explicou Vargas.

“Isso já aconteceu em San José del Sécure”, uma comunidade do TIPNIS. “Eles estão muito bravos e se sentem utilizados pelo governo para aprovar a estrada. Lhes ofereceram programas de saúde, de educação e agricultura, que não foram cumpridos até hoje. Então, eles não querem saber nada deles, nem sequer ouvi-los. Não vão deixar eles chegarem até sua comunidade”, exemplificou Fernando.

“Por que vocês acham que a reunião de Trinidad não foi dentro do TIPNIS? Será que o governo não leu as leis e os convênios internacionais que dizem que as consultas dever ser feitas nos territórios indígenas, por suas instituições representativas?”, interrogou Vargas. “É por isso que não os deixam entrar, não podem nem chegar, por mentirosos e porque já foram descobertos em sua má-fé”, respondeu.

“Existem irmãos que ¨cercaram¨ seus rios para não deixá-los passar”, informou. O ¨cerco¨ de rios consiste em estender, de uma beira a outra do rio, arames que os fazendeiros usam para cercar suas terras. “Assim os irmãos estão controlando a passagem das embarcações”, aclarou.

“Assim está o rio Isiboro na comunidade de Gundonovia; também o rio Sécure em três comunidades: Santa Lucía, San Vicente e Puerto San Lorenzo. Finalmente, Santiago e Concepción, duas comunidades do rio Ichoa, também ¨cercaram¨ seus rios”, contou o presidente do TIPNIS.

“Caminharemos desde a Bolívia até Washington, levando uma demanda à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, porque já esgotamos todas as instâncias nacionais”, anunciou. “Vamos convidar os povos indígenas do continente que queiram nos acompanhar nesta caminhada. Talvez se unam delegações mapuches, xingu ou sarayacu, por exemplo, que tem problemas similares”, indicou Vargas.

Ele também declarou que buscará visitas mútuas com os xingus, para conhecer melhor os problemas comuns e as estratégias que está usando cava povo indígena. Fernando reiterou que continuarão lutando “pacificamente e com humildade, porque assim é como se chega longe”.

“Os indígenas da América Latina e as sociedades urbanas conscientes da destruição do meio ambiente e do desmatamento devem assegurar o futuro das próximas gerações que são inocentes”, sentenciou. “Não podemos ser cúmplices desta destruição. Não devemos deixar que chegue o dia em que nossos filhos digam: ¨nossos pais não fizeram nada e deixaram que nos cheguemos para sofrer¨”, enfatizou Vargas.

Veja no mapa abaixo o desmatamento dentro do TIPNIS. Use o mouse para ler as informações. Gerado pelo Infoamazonia (Saiba mais)

 

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