Os aprendizados de um brasileiro na Pacific Crest Trail
Jeff "Speedy Gonzalez" Santos é caminhante de longa distância. Formado em Comunicação com especialização em Marketing e mestrado em gerenciamento de eventos pela University of Technology, Sydney, Austrália.

Uma trilha nunca está pronta: as percepções de 30 dias na Pacific Crest Trail

Jeff Santos*
segunda-feira, 17 junho 2019 9:30
Logotipo da Pacific Crest Trail ilustra sinalização da trilha. Foto: Jeff Santos.

Há 30 dias eu dei início ao projeto de cruzar os Estados Unidos a pé. Eu não ando sem rumo: eu sigo a Pacific Crest Trail, uma trilha que cruza os estados da Califórnia, Oregon e Washington desde a fronteira com o México até o Canadá. No final, caso eu consiga completar meu objetivo, terei percorrido 4.250 quilômetros. Nesses primeiros 30 dias, já foram 900, uma média de 30 quilômetros por dia desde que saí da cidade de Campo. Houve dias em que eu fiz o dobro disso ‒ e houve dias em que não andei nada. Nesse último mês peguei neve e calor de 40 graus. Peguei chuva no deserto, frio durante o dia e muito calor à noite, ao contrário do que todos imaginam. Subi ao topo do Monte San Jacinto (3.330 metros) e ao Monte Baden-Powell (2.867 metros), nomeado em homenagem ao pai do escotismo, Robert Baden-Powell. Tive sede, calor, cansaço, sono, desânimo, mas continuo com o objetivo de cumprir cada etapa.

Além da realização pessoal, aproveito esse tempo e esses passos para aprender um pouco mais sobre essa trilha que foi concebida em 1932, oficializada em 1968 e finalmente terminada em 1993. É muito tempo e dedicação. E ainda assim o trabalho não está finalizado ‒ e nunca estará. A manutenção da Pacific Crest Trail (PCT) é constante. Grupos de voluntários trabalham regularmente para deixar o caminho acessível para as centenas de turistas que passam por ali.

Num dos pontos que passei, por exemplo, um deslizamento bloqueou a passagem dos caminhantes em uma das montanhas. Havia acontecido há apenas dois dias e os voluntários ainda não haviam chegado, portanto foi preciso escalar a rocha. Em outros trechos a manutenção vai levar ainda mais tempo: no ano passado a enchente do Mission Creek destruiu vários quilômetros da trilha, que exigirão anos de trabalho para serem refeitos.

Conversei com um dos voluntários e com um arquiteto paisagista especializado em parques e áreas públicas que está fazendo a caminhada sobre uma das características que mais me chamaram a atenção na PCT, o fato de raramente o percurso seguir em linha reta e até o ponto mais alto da montanha. Ela segue sempre acompanhando as curvas de nível do terreno, fazendo o que aqui é chamado de switchback, ou zigue-zague em bom português, que segue num vai e vem interminável.

No marco inicial da Pacific Crest Trail, na fronteira dos EUA com o México. Foto: Acervo Pessoal.

São dois os principais motivos, segundo ambos. Primeiro, isso deixa a trilha mais acessível. Mesmo que os trechos sejam mais longos é possível que pessoas com menos mobilidade possam fazê-los. Como a PCT também pode ser feita a cavalo, isso também ajuda quem opta por esse meio de transporte. O segundo motivo, segundo eles, é que ao seguir a elevação natural da montanha, é possível diminuir a degradação do percurso causada por erosões, por exemplo.

Além da manutenção do terreno e da trilha, a sinalização é outro ponto importante que tenho observado. Ao contrário da Appalachian Trail, que tem marcações simples ‒ um retângulo branco de 5×15 cm pintado em árvores e rochas ‒ e constantes, são cerca de 165 mil deles em 3.540 quilômetros de trilha, a Pacific Crest Trail utiliza diferentes tipos de sinalização. A principal é a logotipo da PCT: a imagem de um pinheiro em frente à montanhas dentro de um triângulo com os lados curvados e as inscrições Pacific Crest Trail ‒ National Scenic Trail. Esta logo está normalmente em marcos de metal nas laterais do caminho.

Outras formas de sinalização auxiliam o caminhante: setas, indicações da proibição de veículos motorizados e bicicletas, indicações de pontos de água. Pode-se notar uma tentativa de padronização, mas ainda sem sucesso. Apesar disso é uma sinalização eficiente. Aliada à boa manutenção da trilha, é difícil se perder.

A importância das marcações não se limita apenas à sinalização de orientação: marcos simbólicos (100, 200 milhas etc), livros de registros de tempos em tempos, informações sobre pontos turísticos e o monumento inicial, na fronteira com o México, se tornam importantes pontos de referência fotografados pelos turistas e tornam a trilha mais conhecida em redes sociais, por exemplo.

No meio da paisagem, a marca da Pacific Crest Trail resiste às intempéries. Foto: Jeff Santos.

Outra característica que notei nesses primeiros 20% da jornada que percorri até agora é o envolvimento das comunidades por onde a trilha passa. São pequenas cidades, algumas minúsculas e difíceis de achar no mapa ‒ tente encontrar Tehachapi, Califórnia, por exemplo. Para muitos desses lugares, as centenas de caminhantes que passam por ali todos os anos se tornam uma importante fonte de renda que movimenta hotéis, albergues, campings, restaurantes, lanchonetes, lojas de equipamentos esportivos, transporte local.

Muitos dos habitantes locais se tornam voluntários e trabalham para deixarem os trechos próximos a estas localidades ainda mais bem cuidados. Outros dedicam seu tempo (e dinheiro) pelo prazer de ajudar os caminhantes e fazer novas amizades. Organizam caronas, espalham postos de água em locais onde a seca é mais bruta, param os carros no cruzamento da trilha com estradas e distribuem lanches e sorrisos. E assim a PCT continua a seduzir mais e mais caminhantes e voluntários.

Em uma conversa com o pai de um caminhante que o esperava em um dos cruzamentos da trilha, na pequena cidade de Mount Laguna, fui alertado para a importância de trilhas de longa distância como a Pacific Crest Trail: “com o avanço do desmatamento e da mineração, por exemplo, essas rotas acabam se tornando importantes corredores não apenas para os turistas mas também para os animais da região”, ele disse.

“Existem trilhas de longa distância no Brasil?”. Ele me perguntou. Não foi o único. Em diversas conversas me perguntam sobre as trilhas no Brasil. E conto orgulhoso do trabalho da Rede Brasileira de Trilhas de Longo Curso e da intenção de sinalizar e unir os diversos percursos no país. “É muito trabalho”, é uma resposta que escuto com frequência. “Sim, tenho certeza que todos sabem disso”, eu digo. “Mas tenho certeza que todos sabem sabem do retorno que isso pode proporcionar”.

 

*Jeff “Speedy Gonzalez” Santos é autor do blog www.longadistancia.com.

Instagram: @distancialonga.

YouTube: /jeffsantos

 

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