Chefes de parque do ICMBio falam dos impactos ambientais

Eduardo Pegurier
terça-feira, 23 julho 2013 20:09

Fabio Menezes de Carvalho, chefe da Floresta Nacional do Tapajós e Coordenador do ICMBio para o Oeste do Pará. Foto: Marcio Isensee
Fabio Menezes de Carvalho, chefe da Floresta Nacional do Tapajós e Coordenador do ICMBio para o Oeste do Pará. Foto: Marcio Isensee

De volta a Santarém, encontramos com Fábio Menezes de Carvalho, chefe da Flona Tapajós e coordenador do ICMBio para a região, e Javan Lopes, chefe do Parque Nacional de Jamanxin. O primeiro trabalha na cidade, mas o segundo estava em trânsito para destino ainda incerto por precaução contra uma ameaça de morte, feita por um grileiro local que derrubou mais de 300 hectares de mata. Os dois falaram da sua experiência amazônica e levantaram efeitos ambientais que podem decorrer da construção das usinas do complexo do Tapajós, incluindo as que estão previstas para o rio Jamanxin. Os dois são biólogos e Fábio tem um mestrado em genética pela Universidade Federal de São Carlos.

Trouxemos a eles questões que nos foram postas durante a viagem pelos ribeirinhos de Pimental, índios munduruku e administradores da prefeitura de Itaituba.

Migradores e tartarugas

A primeira grande pergunta é se as hidrelétricas serão danosas para os peixes e, caso sim, se haveria alguma solução tecnológica para o problema. “É o fim dos peixes migradores”, disse Fábio. Segundo ele, não há sistema eficiente que permita a esse tipo de peixe continuar a subir e descer o rio, ou a procriar. Não há muitas espécies nessa classe, mas tem importância ecológica e comercial na região. São os peixes mais apreciados como o surubim e o tambaqui. A enorme piraíba é outra espécie que vai sofrer. Fábio conta que as ovas dos migradores precisam da velocidade da corrente para eclodir, pois de outra forma afundam e não vingam. Mesmo que não acabem, disse, a chance de que as espécies migradoras sejam dizimadas é enorme.

Abaixo das barragens está o Tabuleiro de Monte Cristo, uma área de desova de tartarugas. “Toda a barragem esquenta a água”, disse Fábio, “e isso [a temperatura da água] influencia a determinação do sexo da tartarugas”. Uma temperatura mais alta, disse, pode aumentar a proporção de fêmeas.

Mudança de trajeto da Transamazônica (BR230)

Javan Lopes, chefe do Parque Nacional do Jamanxin. Foto: Marcio Isensee
Javan Lopes, chefe do Parque Nacional do Jamanxin. Foto: Marcio Isensee

O Parque Nacional da Amazônia margeia o Tapajós ao longo de mais de 100 km. Ele é cortado pela Transamazônica, que segue de perto o traçado do rio. Boa parte desse trecho da estrada será alagado e será necessário reconstruí-lo fora do alcance do lago da usina São Luiz do Tapajós. Mover a estrada será uma grande obra que vai exigir novos desmatamentos. “O Brasil tem uma característica curiosa”, disse Fábio. “Você começa um processo de licenciamento ambiental sem ter o projeto final da obra”. Até agora, por exemplo, não se conhece ou , aparentemente, foi decidido o ponto exato da barragem da usina São Luiz do Tapajós ou das outras. “Não vimos o projeto que mostra onde as rodovias serão alagadas”, completa Javan Lopes.

Vazão do rio Tapajós

As usinas não deverão mudar a vazão do rio, pois embora formem um lago (menor do que o tradicional por serem usinas do tipo fio d´água), não impedem que o rio continue a fluir com a mesma quantidade de água anterior. Mas isso não é verdade para o período de formação do lago. Enquanto o fluxo de água for reduzido para preenche-lo, a vazão do Tapajós deve diminuir. Dessa forma, faz sentido o medo de que ocorram efeitos a jusante (rio abaixo). Um dos temores é que o vilarejo de Alter do Chão, a maior atração turística de Santarém seja afetado. Na temporada de seca, entre julho e outubro, quando o Tapajós tem naturalmente seu fluxo reduzido, as águas marrons do rio Amazonas o invadem. Não é impossível que o período de formação do lago das usinas, combinado com a seca, possa levar as águas do Amazonas até Alter, turvando as águas límpidas do local.
Quebra do mosaico

Javan Lopes conta que o rio Jamanxin, bem menor do que o Tapajós, na época de seca, fica em alguns pontos com meio metro de profundidade. Essa fase baixa permite que o mosaico de 17,5 milhões de hectares, formado pelas Unidades de Conservação locais (veja o mapa) se mantenha interligado. Se os lagos das usinas Jardim de Ouro, Cachoeira do Patos e Jamanxin tornarem o rio Jamanxin mais largo e profundo, elas impedirão o trânsito de espécies que precisam de grandes espaços e cuja população não é nem mesmo conhecida. São espécies como onças, veados e tatus-canastra. “Uma barreira que impeça o movimento das espécies de uma área para outra reduz a integração e, por consequência, a variação genética da espécie. Os efeitos só se completarão em décadas”, diz Javan, lembrando que ainda se sabe muito pouco sobre a fauna local.

Beleza cênica perdida

As usinas hidrelétricas do Complexo Tapajós são do tipo fio d´água. Isso quer dizer que precisam de um lago menor para funcionar. Mesmo assim, o efeito é substancial. A área do espelho de água do Tapajós no trecho do lago da usina de São Luiz do Tapajós quase dobrará atingindo 722 quilômetros quadrados. Isso implica dobrar a largura do rio em um trecho de cerca de 100 km, alagando as florestas e locais de moradia de ribeirinhos e indígenas da região. A madeira que ficará embaixo d´água será cortada para que essa riqueza não se perca e para evitar igualmente que apodreça. Entretanto, contando também a usina de Jatobá, cerca de 200 quilômetros das duas margens do Tapajós serão afetados, destruindo ao seu longo as praias de areia clara, que são a marca deste rio. Boa parte do potencial turístico da região de Itaituba se perderá junto com esse alagamento.

 

 

 

 

 

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