James Hansen propõe taxar fósseis na fonte

Claudio Angelo e Cíntya Feitosa, do OC
sábado, 5 dezembro 2015 17:30
James_Hansen
James Hansen critica as chamadas políticas de “cap and trade” e defende um imposto sobre a produção de carbono. Foto: Claudio Angelo/OC

“Em ciência, quando você faz um experimento controlado e obtém um resultado bem documentado, você espera que, se fizer o experimento de novo, obterá o mesmo resultado.” Foi assim que James Hansen, 74, definiu sua perspectiva para o acordo do clima de Paris. Segundo o climatologista americano, a COP21 está repetindo a estratégia que deu errado no Protocolo de Kyoto, e deve fracassar em seu objetivo de estabilizar a temperatura do planeta.

A menos que a estratégia mude.

E a estratégia, diz Hansen, é muito simples: é preciso criar uma taxa sobre os combustíveis fósseis na fonte – na mina de carvão ou no poço de gás ou petróleo – ou no porto de entrada, de forma a fazer com que o preço desses combustíveis suba a ponto de desestimular seu uso. Em outras palavras, Hansen quer que preço do petróleo e do carvão passe a refletir o verdadeiro custo social desses combustíveis, que inclui a mudança do clima.

“E esse dinheiro teria de ser distribuído igualmente entre todos os residentes legais do país, de forma que as pessoas que reduzem sua pegada de carbono mais do que a média ganhariam dinheiro com isso”, afirma.

A ideia não é propriamente nova. Em 2006, o economista britânico Nicholas Stern chamou o aquecimento global de “a maior falha de mercado da história”. A mudança do clima e os prejuízos da poluição para a saúde são considerados “externalidades”, ou seja, custos que não entram na formação de preço dos combustíveis e são bancados por toda a sociedade. “Se seu filho tem asma, quem vai ter de pagar a conta do hospital é você, não a empresa de combustível fóssil”, afirmou Hansen, durante uma apresentação na COP21, em Paris.

Os impostos sobre carbono ou sobre atividades muito emissoras, como a aviação, são maneiras de tentar corrigir essa distorção. Muitos países, porém, resistem a eles, temendo seu efeito recessivo. Na Europa, por exemplo, tem vigorado uma política de limitação de emissões com comercialização de direitos de poluição (o chamado “cap and trade”).

Hansen chama essa política de “incompetente e ineficaz”. “É incompetente porque não tem como tornar isso global. E ineficaz porque não existe punição.” Segundo ele, limitações de emissão em um país ou em um conjunto de países têm um efeito perverso: elas ajudam a reduzir o consumo dos combustíveis fósseis nesses lugares, fazendo com que eles sejam queimados em outros. Políticas de desinvestimento, como as que vêm sendo propostas por organizações ambientalistas, têm o mesmo resultado: os preços do petróleo e do carvão caem, estimulando seu consumo em outros lugares.

Segundo ele, a única solução viável é essa taxação universal do carbono. “Um estudo feito para o caso dos EUA mostra que, se você tivesse uma taxa de US$ 10 nos combustíveis fósseis você reduziria emissões em 30% depois de dez anos e em 50% depois de 20 anos. Isso estimularia a economia, criando 3 milhões de novos empregos em dez anos”, afirmou. “Os países que não aceitassem estariam sujeitos a uma tarifa de ajuste de fronteira em alguns produtos, que nós vamos rebater para nossos produtores livres de carbono quanto eles exportam para uma nação que não participa”, afirmou o pesquisador.

Hansen é cientista aposentado do Centro Goddard de Estudos Espaciais, da Nasa. Em 1988, lançou um dos primeiros alertas sobre o risco de um aquecimento global descontrolado neste século, caso os níveis de gás carbônico dobrassem na atmosfera. Vinte anos depois, publicou outro estudo seminal mostrando que a concentração de CO2 que poderia ser admitida para evitar a mudança climática perigosa é 350 partes por milhão (hoje estamos em 400 partes por milhão).

Segundo ele, essa energia extra na atmosfera por conta das emissões humanas de carbono equivale a 400 mil bombas de Hiroshima por ano e causa o que ele chama de “maior problema da mudança climática” – o derretimento das geleiras e das plataformas de gelo da Antártida e da Groenlândia, que têm potencial de elevar o mar em uma dezena de metros no futuro.

“Nossos pais não sabiam que estavam causando um problema para as gerações futuras ao queimar combustíveis fósseis, mas nós não podemos fingir que não sabemos.”

 

Veja aqui toda a cobertura da COP21, uma parceria com o Observatório do Clima logo-observatorio-clima

 

 

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