Alguns manguezais da Região dos Lagos

Arthur Soffiati*
quinta-feira, 22 setembro 2005 15:08

Até melhor definição, manguezal é um ecossistema que se desenvolve nas áreas costeiras da zona intertropical, entre a terra e a água, entre a água doce e a salgada, em ambiente de água salobra ou até mesmo com teores altos de salinidade. Embora crescendo em ambiente de transição, ele não é um ecossistema de transição, não é um ecótono, pois que apresenta unidade e características próprias. Há quem entenda o manguezal como um ecossistema dentro de outro maior, o ecossistema estuarino. Todavia, ele – o manguezal – pode vingar em três ambientes. A foz dos rios no mar é palco dinâmico do manguezal clássico, aquele em que se encontram as mais favoráveis condições para sua existência, recebendo água doce acima e água salgada, por meio das marés, abaixo. É o chamado manguezal ribeirinho. No entanto, ele consegue desenvolver-se em depressões com pequenas oscilações da lâmina d’água, dentro dos rios. Alguns resistem a longos períodos com lâminas espessas ou delgadas, no interior de lagoas costeiras. São os manguezais de bacia. Por fim, há manguezais que prescindem de fontes de água doce à sua retaguarda, vivendo apenas com a água salgada do mar, desde que a energia oceânica seja baixa.

Quanto aos tipos de substrato, podemos reconhecer quatro. O pantanoso e o turfoso são os mais promissores ao adequado desenvolvimento dos manguezais. Mas estes podem crescer ainda em substrato arenoso e pedregoso (foto acima). Este último normalmente conta com areia por baixo. Ambos não permitem um arraigamento mais profundo das árvores de mangue.

Ao sul do rio São João, na Região dos Lagos, estado do Rio de Janeiro, podemos encontrar os três tipos de manguezal: ribeirinho, de bacia e de borda, em solos pantanosos e areno-pedregosos. O fenômeno de manguezais nas praias, sem aporte de água doce, explica-se pela baixa energia oceânica e por salinidades toleráveis. Por outro lado, a hiper-salinidade da lagoa de Araruama leva os manguezais a condições de estresse. Por menores que sejam os manguezais da Região dos Lagos, sua importância está na diversidade tipológica, o que justifica um estudo mais detalhado deles.

Antes de passar a uma breve análise dos mesmos, cumpre salientar que este artigo se ressente de uma lacuna: o autor não percorreu a pé, seu método predileto de reconhecimento, o trecho que se estende do rio São João ao rio Una, onde sabe da existência de minúsculos manguezais. Trata-se de tarefa para um futuro próximo.

Manguezal do rio Una

Ao sul do rio São João, destaca-se o rio Una, o último a apresentar expressão no estado do Rio de Janeiro. Abaixo dele, encontramos apenas os pequenos rios da Lagoa de Araruama, da Baía da Guanabara, da Baía de Sepetiba e da Baía da Ilha Grande, todos eles bastante alterados por ação humana. O Una também padeceu de fortes interferências antrópicas. Em 1934, o engenheiro Hildebrando de Araújo Góes descrevia-o sumariamente em seu relatório “Saneamento da Baixada Fluminense” (Rio de Janeiro: Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense): “Com um curso aproximado de 30 km., atravessa os brejais de Itaí, Pau Rachado, Trimurunum, Angelim e Campos Novos até onde a maré se faz sentir. O Una, lançando-se diretamente no Oceano, cerca de seis milhas ao sul da barra do S. João, tem pequena profundidade na foz que é desabrigada. Só em marés de sizígia, é possível a entrada de canoas que navegam até Campos Novos”.

Informações de moradores antigos dão conta de que o rio Una era, na verdade, o escoadouro das águas de um grande banhado para o mar. Só junto à Praia Rasa, onde desemboca, era possível perceber o curso fluvial. Toda esta imensa área alagada foi drenada pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) com o fim de “recuperar” terras para a agropecuária, o que significa incorporar terras à economia agropecuária, e de sanear o grande brejo. Para tanto, o curso submerso do rio e de seus afluentes foi retificado quase até a foz (foto). Nesta, permaneceu ou reorganizou-se um pequeno manguezal, que foi examinado três vezes pelo autor.

Típico manguezal ribeirinho, ele conta com três espécies das quatro encontradas nas regiões Sudeste e Sul: mangue branco (Laguncularia racemosa), como de costume dominante em quase todos os manguezais passados em revista neste levantamento preliminar; mangue vermelho (Rhizophora mangle), pouco representado; e siribeira (Avicennia schaueriana), com poucos exemplares, alguns alcançando cerca de cinco metros de altura. Na margem direita da foz, formou-se uma linha das três espécies, ainda com dominância do mangue branco, indicando que, nesta região, no interior de enseadas e de fiordes, as condições se tornam propícias à formação de manguezais de borda. Além das espécies exclusivas de mangue, registre-se ainda a presença de espécies oportunistas, como rabo-de-galo (Dalbergia ecastophyla), de incontestável dominância; algodoeiro-da-praia (Hibiscus pernambucensis); e aroeira (Schinus terebintipholius). Chama a atenção a inexistência da siribeira Avicennia germinans, não encontrada até o momento abaixo do rio Macaé.

No que toca aos crustáceos, é clara a presença do caranguejo-uçá (Ucides cordatus), embora as condições do manguezal lhe sejam cada vez mais adversas; do guaiamum (Cardisoma guanhumi), habitando a linha supra-maré, como se pôde ver pelo considerável número de tocas, o aratu (Goniopsis cruentata), agarrando-se às árvores; e um expressivo contingente de chama-maré (Uca sp.).

Os circuitos d’água parecem normais. Embora com pequena vazão, a água doce desemboca no mar e as marés não encontram obstáculo à sua entrada no sistema. A tendência da foz é deslocar-se para o sul, talvez em função da corrente dominante. Todavia, vários exemplares de mangue-branco revelam sinais de estresse, com raízes adventícias brotando do caule e raízes respiratórias (pneumatóforos) emergindo destas, acima do nível das marés. Outro fenômeno chama a atenção do observador: a erosão do solo. A remoção do substrato deixa expostas, em indivíduos de mangue-branco, raízes respiratórias que partem de raízes subterrâneas (nutridoras) e algumas árvores caídas por falta de profundidade do solo, passando a ser sustentadas por raízes adventícias.

A velocidade das águas do rio é muito pequena para estar produzindo a subtração de solo, assim como a força das marés também não parece capaz de tal proeza. Em conversa com pescadores da Praia Rasa, obtive a informação de que o manguezal se inclui no campo de provas da Marinha, sendo bombardeado por helicópteros, como indica uma placa afixada na margem esquerda do rio. Trata-se de uma hipótese não descartável, mas a ser confirmada.

Manguezal da Praia Rasa

Em direção a Búzios, há uma tendência à formação de manguezais de borda, como que formando uma parede às fracas ondas do mar, em solo arenoso ou areno-pedregoso. Na Praia Rasa, esta tendência começa na margem direita da foz do Una, como já observamos. Mais abaixo, encontram-se dois belos exemplares de siribeira (Avicennia schaueriana) em condições normais, com raízes respiratórias cobertas e descobertas pelas marés, embora repletas de lixo inorgânico, retido por elas. Adiante, avulta um bosque de mangue-branco (dominante) e siribeira em substrato areno-pedregoso muito raso, conquanto sustentando indivíduos relativamente altos. Mas a queda de árvores, com as raízes subterrâneas à mostra, não é rara. Tais árvores, todavia, continuam vivas pela alimentação das raízes que continuam enterradas. O lixo inorgânico trazido pelas marés também fica preso nas raízes respiratórias (foto). Os moradores locais chamam-no mangue de pedra e ele apresenta condições normais de existência. Nota-se que as pedras do substrato concorrem para a retenção de folhas que, decompostas, começam a mudar as características do solo, como no pequeno manguezal da praia de Imbetiba, em Macaé. Concorrem também para a retenção de sementes, que asseguram a renovação do manguezal. Este tipo só volta a ocorrer na praia da Foca, como veremos adiante.

Rio Trapiche

Ainda acompanhando o que escreveu Hildebrando de Araújo Góes, em 1934, lemos uma brevíssima referência ao rio Trapiche: “Nasce em Campos Novos, correndo a SE do Estado. Depois de um curso aproximado de 20 km, lança suas águas no Oceano, cerca de 4 quilômetros ao sul da foz do Una”.

Qual não é a surpresa do estudioso caminhante ao chegar ao local da foz do Trapiche e encontrar uma marina? Um morador explicou que o verdadeiro rio Trapiche desembocava mais ao sul, após o promontório de Búzios, perto do canal de Itajuru, que comunica oceano e lagoa de Araruama. Mapas antigos não permitem engano quanto à desembocadura do Trapiche. Assim, resta-nos uma explicação: seu curso inferior foi alargado, aprofundado e retificado para permitir a entrada de iates que ancoram junto às mansões de seus proprietários. Tudo indica tratar-se mesmo do rio, pois, no fundo da marina, corre uma estrada com um bueiro para permitir o escoamento de água. De onde? De um pequeno curso seco na estação da estiagem e com baixa vazão na época das chuvas. O roubo da foz do rio para privatização por parte de ricos foi um dos maiores atentados ao meio ambiente na região. Mesmo assim, alguns exemplares de mangue-branco tentam reconstituir o manguezal outrora existente.

Manguezais da Praia de Manguinhos

Continuando a marcha rumo ao sul, na Praia de Manguinhos, um pequeno curso d’água descendo das partes altas de Búzios desemboca junto a um píer, em local conhecido com o nome de Barrinha. O crescimento de Búzios transformou o córrego em vala de esgoto, que acabou sendo capeado. Apenas um mínimo estirão do trecho final ficou a descoberto. Agora, este trecho está sendo retificado para ser manilhado. Se esta obra for executada, o pequeno manguezal está condenado a desaparecer.

A espécie de mangue dominante neste manguezal é o branco (Laguncularia racemosa), com uma população a indicar árvores antigas, pois que alcançam em média 4 metros de altura, com circunferências entre 0,50 e 0,60 metros. Todas as árvores, de mangue, e outras, estão numeradas à tinta vermelha. O bosque revela estar ativo, já que as árvores estão florescendo e frutificando, além de haver, no terreno, uma profusão de filhotes ou plântulas. Registrei, inclusive, a presença de uma plântula de mangue vermelho (Rhizophora mangle) e consideráveis tocas de guaiamum (Cardisoma guanhumi).

A obra de manilhamento está sendo realizada num terreno cercado com muros e cercas de arame, existindo uma placa voltada para o mar que informa ser propriedade particular da Companhia Imobiliária Metropolitana. Quem minimamente conhece manguezal sabe que esta obra destruirá o que ali existe. O mais correto é construir um sistema de tratamento de esgoto, aumentar a vazão do córrego e proteger o manguezal, inclusive promovendo o plantio de exemplares da espécie dominante nele e de outras, depois de estudos efetuados por especialistas. De antemão, pode-se arriscar a opinião de que não haveria nenhum problema em plantar mudas de mangue vermelho. Quanto ao mangue preto ou siribeira, a espécie adequada é a Avicennia schaueriana, que ocorre abaixo do rio Macaé, até o momento o ponto mais meridional de distribuição da espécie Avicennia germinans.

Na ponta da Praia de Manguinhos, há outro manguezal pequeno e também estiolado pela pressão urbana.

Manguezal da Praia da Foca

Na face sul da costa de Búzios, existem fiordes que amortecem a energia oceânica e criam condições favoráveis ao desenvolvimento de manguezais de borda ou costeiros. Era de se esperar a existência de um na Praia da Ferradura. No entanto, nada foi encontrado. Não assim no pequeno fiorde da Praia da Foca. Ali, cresceu um pequeno manguezal mono-específico de siribeira (Avicennia schaueriana). Sempre esta espécie de siribeira abaixo do rio Macaé, já encontrada por mim em Angra dos Reis e em Parati. Resta conhecer os fatores responsáveis por esta distribuição e delimitação.

O substrato é areno-pedregoso, o que limita as dimensões dos indivíduos. Todos eles, contudo, estão florindo e produzindo sementes. O estado de saúde é bom, levando-se em conta, sobretudo, que ele se encontra no interior do Parque Municipal da Lagoinha. Sabemos todos muito bem que uma unidade de conservação não é nenhuma garantia de proteção. Sucede que a Praia da Foca é muito pequena e pouco freqüentada. Talvez este detalhe contribua mais para proteger o diminuto ecossistema do que o Parque.

Manguezais da Lagoa de Araruama

Há um fator limitante fortíssimo para a afixação de manguezais na lagoa de Araruama: os altos teores de salinidade. Sabe-se que as espécies exclusivas de mangue adaptaram-se a áreas salinas e sabem como lidar com o sal. No entanto, há limites. Um manguezal pode instalar-se em ambiente hiper-salino, mas paga um preço: o estresse causado pelo sal. Este acarreta, sobretudo, a dificuldade de crescimento da planta. A energia gasta para enfrentar a salinidade impede a planta de alcançar sua estatura normal. Seu aspecto parece raquítico e as folhas mostram-se pequenas.

Contudo, há pequenos manguezais no interior da lagoa de Araruama. O principal deles é o de Porto dos Carros, na proximidade do canal de Itajuru, que liga a lagoa ao mar. A dominância continua com o mangue branco (Laguncularia racemosa), mas há também alguns exemplares de siribeira (Avicennia schaueriana), todos estressados. Aparece também o mangue-de-botão (Conocarpus erectus), espécie não exclusiva de manguezal, mas que se associa bem a ele.

As obras de duplicação da rodovia que dá acesso a Cabo Frio afetaram bastante este manguezal, pois nenhum cuidado foi tomado para protegê-lo.

Ainda na lagoa de Araruama, existem manguezais estropiados na foz de pequenos rios que desembocam nela. Examinei o que fica no rio Salgado. Com suas margens bastante ocupadas por moradias populares, o rio, em seu trecho final, está muito poluído e degradado. Este forte processo de antropização deixou o manguezal limitado ao mangue branco e ao mangue-de-botão. Esta última espécie, aliás, aumenta a freqüência à medida que se caminha para o sul, principalmente na restinga de Massambaba.

Lagoa de Saquarema

Impõe-se fazer um levantamento sistemático das áreas de manguezal no interior das lagoas de Saquarema e Jaconé, interligadas por um canal. Foi possível, num rápido reconhecimento, detectar a presença de mangue branco como dominante na lagoa de Saquarema. No início do canal, junto à lagoa de Saquarema, ocorre também o mangue vermelho. Já no canal houve intensa invasão de rabo-de-galo (Dalbergia ecastophyla). No geral, porém, o estado de ambas é sofrível.

* Arthur Soffiati é professor do Instituto de Ciências da Sociedade e Desenvolvimento Regional/UFF e Doutor em História.

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