Razões que me levaram a escolha vegetariana
Suzana Padua
Doutora em educação ambiental, presidente do IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas, fellow da Ashoka, líder Avina e Empreendedora Social Schwab.

Razões que me levaram a escolha vegetariana

Suzana M. Padua
quinta-feira, 22 janeiro 2015 20:31

Carne pendurada no refrigerador de uma unidade de processamento. Uma rotina que afeta os trabalhadores que a vivenciam. Foto:
Carne pendurada no refrigerador de uma unidade de processamento. Uma rotina que afeta os trabalhadores que a vivenciam. Foto:

 

 

Se os matadouros tivessem paredes de vidro, todos seriam vegetarianos“, Paul McCartney

 

Quem come carne pode ser responsável por muitas ações nada éticas, mesmo que não queira admitir. Por exemplo, o desmatamento da Amazônia e de outros biomas, agora e no passado, ocorre principalmente para a criação de gado ou o plantio de soja. Ambos tem relação com a produção de carne, seja diretamente, como o gado criado para o abate, ou, no caso da soja, para exportação, servindo de alimento para bois e porcos criados no exterior. São muitos os agravantes nesse processo, além da perda de biodiversidade e dos ciclos naturais que mantém a vida, ou o metano liberado na atmosfera advindo do gado ruminante. E o Brasil exporta muita água com essas atividades, uma vez que mais de 70% da água doce disponível vai para agricultura, que inclui a grama para o gado. Poucos países têm a disponibilidade territorial ou se submetem à perda de tanta água com esse tipo de produção. Segundo Yolanda Kakabadse, ex-ministra do Meio Ambiente do Equador, hoje Presidente do WWF internacional, cada bife de 500 gramas consome seis mil litros de água para ser produzido, o que é especialmente significativo nesse momento de escassez hídrica do país e, portanto, merece reflexão.

Outro aspecto antiético é o próprio abate dos animais. Não é possível que nós humanos sejamos coniventes com a forma com que os animais são mortos. Na verdade, preferimos não ver e nem saber o que ocorre para não sentirmos culpa. Mas, como ouvi de alguém lúcido, se um matadouro fosse bonito e honroso, seria envidraçado para os consumidores apreciarem. A situação é tão violenta que os trabalhadores responsáveis pelo abate e separação da carne sofrem danos físicos e psicológicos acima da taxa observada em outras atividades trabalhistas. Imigrantes, sem opção de algo melhor são muitas vezes levados a preencherem as vagas nos matadouros, pois quem tem qualquer possibilidade de escolha opta por outra profissão. Essa é a realidade no Brasil e nos Estados Unidos. Aqui, haitianos que têm imigrado para o Acre estão sendo contratados para os frigoríficos de diversas regiões do país, por não serem legalizados e assim não terem como reclamar das péssimas condições de trabalho a que serão submetidos.

Sofrimento animal e trabalho precário

“Segundo o Ministério da Previdência, no abate de aves e suínos, existem 3,41 vezes mais trabalhadores com transtorno psicológicos do que na média de todos os demais setores do Brasil”

Os frangos também sofrem no processo de produção. Pintinhos considerados inaptos são triturados ainda vivos para não atrapalharem os demais, e viram ração ou algum insumo para outro produto vendável. A forma com que os animais são criados e alimentados raramente favorece o bem-estar deles. E certamente nem dos humanos, já que a quantidade de hormônios e alimentação desequilibrada ultrapassa a recomendação dos “standards” da saúde. Os animais não são mais vistos como seres vivos, e sim como um produto a ser comercializado.

É o que confirma um Relatório da Human Society International – Brasil, quando descreve como inadequados e nefastos os locais de confinamento de galinhas poedeiras, porcas prenhas e outros animais. A maioria fica no escuro e em espaços que impedem a mobilidade mínima para não perderem energia e crescerem rapidamente. Esses são os modernos sistemas intensivos de produção industrial, cujas práticas não se alinham ao bem-estar dos animais. Apesar disso, o documento menciona a existência de inúmeras pesquisas que indicam que as pessoas se importam com a forma com que os bichos são tratados, mas, diz o trabalho, “o agronegócio industrial continua a ver estes animais como mercadorias, ao invés de indivíduos sencientes, capazes de experimentar alegria e frustração, dor e sofrimento”. Outra constatação do relatório é que “produtividade não é sinônimo de bem-estar, e igualar um ao outro não tem respaldo cientifico”.

Segundo o Ministério da Previdência Social – MPS, no abate de aves e suínos, há 3,41 vezes mais trabalhadores com transtorno psicológicos do que na média de todos os demais setores de trabalho do Brasil. De acordo com o site Escravo Nem Pensar, coordenado pela Repórter Brasil, o trabalho nos frigoríficos é comparado ao escravo, pois os direitos dos trabalhadores são desrespeitados e o tratamento é abusivo. Mas, o setor é poderoso. Os três maiores frigoríferos do país ganharam o BNDES não como financiador mas como sócio, sendo um deles o notório FRIBOI.

Finalmente, os peixes, segundo um ex-funcionário do Ministério da Pesca, nem são considerados animais, pois acabam medidos por toneladas coletadas. Aliás, a forma como os oceanos vêm sendo tratados, não retrata respeito ou admiração pelo mundo submarino. É cada vez maior a quantidade de peixes contaminados e intoxicados pelo lixo e materiais nocivos ingeridos, que em muitos casos se torna insalubre para o consumo humano.

Comer sem saber a origem

“a concentração urbana nos levou a perder o contato com a produção dos alimentos, seja animal ou vegetal. Além disso, os processos tornaram-se mecanizados e, no caso dos animais, cruéis (…)”

Muitos aspectos podem ter contribuído para essa nossa desconexão com o que acontece com os bichos mortos para o consumo humano. Hoje compramos a maioria de nossos alimentos prontos, empacotados e sem vida. Já se foi a época – a não ser no meio rural – em que acompanhávamos o crescimento dos pintinhos soltos no quintal, ou dos bezerros e novilhas, dos porquinhos, dos coelhos ou dos patos criados ao léu. Muitos se afeiçoavam aos bichos e ficavam com pena de os matar, e outros viam o processo como natural, mesmo que não houvesse a intenção de maltratá-los. Mas, a concentração urbana nos levou a perder o contato com a produção dos alimentos, seja animal ou vegetal. Além disso, os processos tornaram-se mecanizados e, no caso dos animais, cruéis, pois se espera eficiência máxima do nascimento ao abate, sem levar em consideração o que o animal sente e que nele há vida. Vale assistir Earthlings (Terráqueos).

Um livro interessante que tive acesso recentemente intitula-se Cozinhar: uma história natural da transformação. Mesmo que não seja partidário do vegetarianismo, o livro defende a volta ao costume de cozinhar. Aponta diversos fatores que nos afastam do ato de preparar alimentos. O “fast-food”, por exemplo, contribui por ser uma alimentação de massa, na qual não se pensa na origem ou nas consequências do que está sendo processado e consumindo. O autor, Michael Pollan (que já participou no Brasil da FLIP) defende que cozinhar pode ser uma forma de nos reconectar à natureza e perceber a riqueza que há nos mistérios da alimentação. É trazer o meio ambiente para a mesa, para uma realidade mais próxima de nosso dia-a-dia. A especialização do trabalho, segundo Pollan, nos afasta da noção das escolhas que fazemos. É como se o departamento de alimentação ficasse responsável pelo que eu vou consumir, quando não é assim que deve funcionar. Outro tabu que ainda não foi totalmente quebrado é a crença de que cozinhar é responsabilidade exclusiva da mulher. Ora, quando a mulher se emancipou, passou a trabalhar fora e deixou de preparar os alimentos da família, apreciando o que vem pronto ou semi-preparado. Outro aspecto interessante diz respeito à importância de se consumir o que é produzido localmente, sem agrotóxicos, de modo a favorecer a economia regional e alinhar-se aos ciclos de cada localidade. E. F. Schumacher já defendia essa ideia em Small is Beautiful, inclusive por economizar energia, mas é interessante observar como a ideia permanece atual.

A opção é nossa

“Quando pensei em escrever esse artigo, não imaginava que sofreria tanto. São inúmeras as matérias e os vídeos disponíveis mostrando as atrocidades pelas quais os animais abatidos passam. É um holocausto contínuo”

O meu ponto com tudo isso é que conhecimento traz responsabilidade. Nossas escolhas são nossas e de ninguém mais. O rumo que seguimos é, assim, feito de escolhas individuais e por vezes coletivas, e as consequências são condizentes com essas opções.

Por isso, se sei que um animal é morto para que eu possa desfrutar de um bife eu sou responsável pelo sofrimento daquele animal. E agora sei também que estou sendo conivente com as condições indignas dos trabalhadores responsáveis pela sua morte. Muitos estudos indicam que o consumo de carne é prejudicial à saúde. Sendo assim, serei ainda responsável pelo o que acontecerá com a minha saúde no futuro (Vejam o TED de Jenna Norwood).

Quando pensei em escrever esse artigo, não imaginava que sofreria tanto. São inúmeras as matérias e os vídeos disponíveis para quem quiser, mostrando as atrocidades pelas quais os animais abatidos passam. É um holocausto contínuo. São muitas as palestras nos TEDs que mencionam a crueldade aos animais, os males à saúde, os índices que refletem as situações de insalubridade física e mental a que são expostos os trabalhadores dedicados a essas atividades e como o mercado esconde as verdades para vender mais, fingindo ser salutar. O controle, hoje, está nas mãos de poucas grandes corporações que preferem omitir informações e manter o consumidor na ignorância do que ocorre de fato (Assista Food Inc.).

Com tantas matérias e vídeos disponíveis apontando as barbáries sofridas pelos animais e por quem trabalha nos setores do abate, submetido a maus tratos, a danos físicos e morais, fico cada vez mais convencida que o caminho é mesmo aquele que respeita a vida de maneira ampla. Ser vegetariana hoje é um orgulho que nutro na minha vida.

Earthlings (Terráqueos)

 

 

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