Suzana Padua
Doutora em educação ambiental, presidente do IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas, fellow da Ashoka, líder Avina e Empreendedora Social Schwab.

Estudo alerta para extinção mil vezes maior do que a natural

Suzana Padua
domingo, 1 junho 2014 17:00

O Urso Polar do Ártico (Ursus maritimus) está ameaçado pela perda de habitat devido ao degelo, consequências das mudanças climáticas. Foto: Wikipédia.
O Urso Polar do Ártico (Ursus maritimus) está ameaçado pela perda de habitat devido ao degelo, consequências das mudanças climáticas. Foto: Wikipédia.

Acaba de sair um artigo publicado na Science que evidencia taxas alarmantes de extinção. A humanidade é responsável pelo risco de espécies desaparecerem com 1000 vezes mais intensidade do que os processos naturais.

Os autores formularam estimativas diversas para chegarem a conclusão de que as taxas de extinção e de risco de extinção nunca estiveram tão altas. Hoje conhece-se mais do que existe e onde são encontradas muitas espécies, o que pode influenciar as estimativas, segundo os próprios autores. Mas, o número de espécies ainda desconhecidas e não descritas é enorme, o que dificulta um cálculo preciso, podendo elevar ainda mais a estimativa apresentada. Para se ter uma ideia, hoje existem aproximadamente 1,9 milhões de espécies descritas de animais e plantas, mas podem haver milhões ainda por serem conhecidas. Quanto às plantas, são aproximadamente 400,000 classificadas até o presente e a possibilidade é de haver mais 50,000 ainda por serem identificadas.

Junto com Stuart Pimm e outros renomados cientistas, Clinton Jenkins é um dos pesquisadores que assina o trabalho The biodiversity of species and their rates of extinction, distribution, and protection (Science, 30 de maio/2014) é professor visitante no Brasil, graças ao programa “Ciência sem Fronteiras”, da CAPES- MEC. Ele está há seis meses colaborando com o Mestrado do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas na Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade – ESCAS.

Os autores analisaram cenários distintos. O primeiro estimou as  taxas naturais de extinção baseada em fósseis e quando os animais ou plantas desapareceram. O segundo comparou a situação da Terra antes de 1900 e, por último , o o que vem ocorrendo de 1900 até o presente. Diversos fatores foram levados em conta e particularidades influenciam os resultados alcançados. Por exemplo, espécies de habitat restrito são mais vulneráveis e muitas podem desaparecer antes mesmo de serem conhecidas pela humanidade.  A Lista Vermelha de Espécies da IUCN indica esse tipo de variação, assim como o aumento de vulnerabilidade das espécies conhecidas. Muitas que vêm sendo descritas na atualidade já entram na Lista como “criticamente ameaçadas” no instante em que são conhecidas. Espécies com territorialidade mais ampla têm menos chance de desaparecer rapidamente, mas evidentemente dependem da disponibilidade de habitats que garantam sua sobrevivência na natureza. E como os habitats naturais estão se perdendo em ritmos acelerados, a esperança para essas espécies também não é grande a mais longo prazo.

Com modelagem estatística, estimaram que antes da humanidade evoluir uma espécie em cada dez milhões poderia se extinguir a cada ano. Hoje a extinção é 1000 vezes maior.

Tecnologia na conservação

Informações sobre a localização de determinadas espécies e os riscos que correm podem contribuir para as decisões tomadas acerca de maior proteção em determinados locais.

Os autores chamam a atenção para o uso de tecnologias como ajuda inestimável no monitoramento de espécies. Os “mobile apps”, Sistemas de Informação Geográfica (GIS) e “online crowdsourcing” geram dados via satélites que antes eram impensáveis. Informações sobre a localização de determinadas espécies e os riscos que correm podem contribuir para as decisões tomadas acerca de maior proteção em determinados locais. Informações que se restringiam ou eram mais comuns em Unidades de Conservação, locais mais estudados, agora ampliam-se para outras áreas e muitas vezes são relatadas por leigos, não mais só por cientistas.

Uma conclusão importante dos autores é que as áreas protegidas e as iniciativas de conservação reduzem em 20% a perda de espécies de mamíferos, pássaros e anfíbios (M. Hoffmann et al., The impact of conservation on the status of the world’s vertebrates. Science 330, 1503–1509/2010) .  Daí a responsabilidade ainda maior de se proteger habitats naturais sem deixar que sejam impactados pelo desenvolvimento desordenado. Aproximadamente 13% da Terra é destinada à proteção, mas os oceanos contam com apenas 2% de proteção, número muito aquém do mínimo necessário para garantir a sobrevivência de espécies marinhas.  

O desmatamento e outras formas de destruição dos habitats naturais e as mudanças climáticas advindas de processos provocados pela humanidade são os responsáveis pelo que pode ser a sexta extinção em massa, só que dessa vez, sem dúvida, causada pela irresponsabilidade humana.. Mais uma vez me questiono, como pode a espécie mais “inteligente” da Terra provocar tantos danos? Seremos mesmo os mais brilhantes? Temos sido aptos e nos adaptamos a todos as condições e cantos do mundo, mas inteligentes não creio – Darwin, com certeza, faria comentários inspiradores a respeito. O que sinto é que falta muito para sermos realmente evoluídos.

 

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