Suzana Padua
Doutora em educação ambiental, presidente do IPÊ - Instituto de Pesquisas Ecológicas, fellow da Ashoka, líder Avina e Empreendedora Social Schwab.

Gestão de unidades de conservação: pensamentos inspiradores

Suzana M. Padua
terça-feira, 9 outubro 2007 16:33

Durante o II Congresso de Parques Nacionais e outras Áreas Protegidas, realizado em Bariloche, Argentina, de 30 de setembro a 6 de outubro, muitas palestras enfocaram necessidades de mudanças para as Unidades de Conservação (UCs) se tornarem sustentáveis. Um dos temas mais abordados foi o de capacitação dos gestores de áreas protegidas e duas palestras ministradas por experientes conservacionistas merecem destaque: a de Kenton Miller e a de Eduard Müller.

Kenton Miller iniciou sua exposição chamando a atenção para a importância de se preparar gestores para a atualidade e para o futuro, e não para o passado. Com a tendência de se adotar apenas medidas já experienciadas, corre-se o risco de se permanecer no passado, sem que se ousem caminhos novos. Este perigo aumenta com as crescentes pressões sobre as áreas naturais e com o surgimento de novos problemas decorrentes da modernidade. Mencionou três principais categorias, hoje em constantes mudanças, e que merecem atenção especial por parte de todos, em especial dos gestores de UCs: biofísicas, sócio-econômicas e político-institucionais.

Na categoria biofísica estão mudanças que afetam espécies da flora e da fauna em decorrência de impactos como fragmentação de hábitat, expansão da agricultura e de centros urbanos. Outro exemplo é o aumento do nível do mar que está transformando as costas terrestres e causando danos aos manguezais, fundamentais à sobrevivência e ao equilíbrio dos ecossistemas marinhos. Projetos como oleodutos, estradas e loteamentos residenciais acabam priorizados, mesmo que causem danos irreversíveis ao meio ambiente.

A segunda categoria, a sócio-econômica, lida com crescimento populacional, uso da terra para produção de alimentos e moradias. Novamente, os tomadores de decisão raramente levam em conta a conservação de áreas naturais em face ao plantio de culturas, especialmente àquelas que representam divisas para os países, como produtos a serem exportados. Ao invés de se preocuparem com a conservação das áreas naturais, as decisões tendem a responder a pressões imediatistas, sedutoras pelos ganhos econômicos. No Brasil, este cenário é evidente no arco do desmatamento da Amazônia, marcado pela troca de florestas megadiversas por pastagens para a criação de gado e para o plantio de soja ou outras monoculturas.

O terceiro critério diz respeito a aspectos político-institucionais. Por exemplo, os acordos internacionais acabam estabelecendo compromissos de exportação de determinados produtos que raramente levam em conta à proteção da natureza. Em compensação, os tratados referentes à biodiversidade, às zonas marinhas e ao clima, não vêm recebendo a devida atenção e são frequentemente desrespeitados. O resultado de posturas tão irresponsáveis leva a realidades muitas vezes assustadoras, como no caso dos sistemas de água doce, hoje com mais de 20% destruídos. Em cenários degradados a flora e a fauna correm cada vez maiores riscos, além de favorecem a invasão de espécies exóticas.

Todas essas questões devem fazer parte do cardápio de um bom gestor de UC. Sua mente precisa estar aberta e disposta a colaborar com pesquisadores e trabalhar em conjunto para a busca de soluções dos problemas que emergem com as transformações da época moderna.

O que se pode fazer? De acordo com Miller, é preciso que a comunidade conservacionista se integre aos tomadores de decisão, tornando as UCs em prioridades nacionais. Essas devem ser lembradas nos planos de construção de estradas, hidroelétricas e outras obras ditas de interesse público. Proteger áreas naturais precisa também passar a ser interesse público, e por isso um bom gestor necessita habilidades múltiplas. Uma delas é ser um exímio comunicador, preparado para dialogar com políticos de modo a influenciá-los adequadamente. Para que isso ocorra, é necessário que saiba o que está na pauta para ser decidido e alimentar aliados nos ambientes de decisão, para que as informações sejam acessíveis antes dos fatos consumados. O ideal, segundo Miller, é que se consiga orquestrar uma sinfonia entre conservação e desenvolvimento, um servindo ao outro para seu fortalecimento.

Uma UC deveria contar com uma equipe multidisciplinar afinada, cada um contribuindo com sua especialidade. Jornalistas e outros comunicadores, por exemplo, são capazes de transformar a linguagem científica em algo palatável, para ajudar a tornar as áreas naturais em focos de orgulho, merecedoras de esforços conservacionistas de todos. Outros que deveriam ser envolvidos na gestão das áreas protegidas são os líderes locais, pois falam diretamente aos corações das pessoas que vivem nas regiões onde estão inseridas. Proteger a natureza é ético e moral e por isso, segundo Miller, não é uma mensagem difícil de ser repassada.

Como, em geral, os orçamentos são reduzidos, a tecnologia pode ser uma valiosa aliada no mundo atual. Acesso à internet, por exemplo, ajuda o gestor e sua equipe a se manterem informados e atualizados. Pode, inclusive, propiciar ensinos à distância, um meio que certamente tende a se tornar popular para quem trabalha em locais remotos. Outra forma de aprendizado é o estágio ou a troca de especialistas em determinados campos entre as UCs. Intercâmbios técnicos deveriam ser incentivados, pois tem o potencial de contribuir para a eficácia da gestão em si e para o estímulo dos envolvidos.

Finalmente, menciona a possibilidade de se construir elos com o mundo empresarial quando são percebidas necessidades comuns. Por exemplo, uma produtora de cerveja, que depende de água pura, pode facilmente compreender a importância de se proteger uma UC com nascentes e cursos d’água e assim se dispor a contribuir para sua conservação. Este é apenas um exemplo em um leque de possibilidades que Kenton Miller considera possível neste processo de câmbio de cultura. Enfatiza que a equipe de uma UC deve ser incentivada a criar soluções e ter autonomia para implementá-las, integrando gente e natureza. Para tal, o gestor deve ser um líder que incentive o crescimento profissional de sua equipe e não mantenha todas as rédeas do controle sobre sua guarda.

As idéias de Eduard Muller, reitor da Universidade para a Cooperação Internacional, na Costa Rica, coincidem. Confirma a necessidade do gestor moderno ter conhecimentos abrangentes, principalmente em administração e comunicação. Ironiza que até uma sapataria hoje contrata um administrador. Mais ainda, as UCs precisarem de serviços profissionais nesta e em outras áreas, sempre mantendo uma visão ampla do que está acontecendo nacional e internacionalmente. O olhar do gestor deve ir além de sua UC, incluindo o território onde está inserida, uma vez que os problemas, em sua maioria, ocorrem no entorno e, as pressões de fora para dentro.

Em termos globais, muitos países acompanham as metas do milênio, ou os tratados internacionais para sanar os efeitos da ação antrópica. Mas, poucos são as nações realmente comprometidas. Um bom gestor deve ter ciência dos fatos para cobrar dos tomadores de decisão sempre que tiver oportunidade. Conhecimentos atuais são indispensáveis, pois, hoje, as mudanças ocorrem em uma velocidade acelerada. Os desafios incluem temas variados como aquecimento global, que aumenta o degelo e causa a elevação dos mares e a perda do ecossistema dos ursos polares. Como lidar com a fragmentação e o manejo necessário para se evitar a perda de espécies por consangüinidade? Como evitar a morte de anfíbios em massa, que indica instabilidade e desequilíbrio? Como frear a “invasão” de uma camada privilegiada que compra terras ao redor de UCs em determinados locais do mundo? Esses são apenas alguns exemplos, uma amostra da gama de conhecimentos que um gestor moderno precisa ter.

A UICN teve uma presença significativa no Congresso no tocante à capacitação. A Comissão de Educação e Comunicação (CEC) organizou diversos simpósios e palestras magistrais, contando com conservacionistas de renome como Yolanda Kakabadse, ex-ministra da meio ambiente do Equador, e ex-presidente da própria UICN. Hoje ativa participante da CEC, chamou a atenção para os caminhos que a ciência precisa tomar para ser mais útil aos tomadores de decisão, não mais se restringindo aos meios acadêmicos. Faltam mecanismos de comunicação no repasse das informações científicas, mas, principalmente, na resolução dos conflitos, comuns na gestão de UCs. Um bom gestor deve estar preparado para enfrentar conflitos, percebendo onde existem lacunas de informações e como envolver os diversos atores sociais na resolução dos problemas identificados.

Outra palestra importante, a de Keith Wheeler, atual presidente da CEC, descreveu as estratégias adotadas pela Comissão, principalmente na elaboração de uma “caixa de ferramentas” para gestores de áreas protegidas. Um esforço está agora sendo feito para se obter fundos que permitam a tradução deste material para o espanhol e para o português. Palestras de vários representantes de países da América Latina expuseram programas consolidados de educação e de comunicação, demonstrando que esses campos se tornaram maduros e profissionais. Sem dúvida, Bariloche acabou por confirmar como a linguagem defendida pela CEC, antes nem sempre valorizada, está agora reconhecida como fundamental entre os diversos campos da conservação.

Paralelamente às exposições formais, alguns encontros fomentaram discussões que podem estimular importantes mudanças. Mario Mantovani, da SOS Mata Atlântica, e Jaime Rios, do Departamento de Parques da Argentina, provocaram uma troca de idéias com administradores, gestores e líderes de ONGs da Argentina e do Brasil. O tema principal foi concessões em UCs, que tem por objetivo oferecer serviços de qualidade à visitação e ao turismo. A Argentina tem tradição em programas estruturados e bem organizados em suas áreas protegidas e conta com mais de 900 contratos de concessões para atividades como hotelaria, restaurantes, trilhas, “rafting” e outros esportes. Desenvolveu, também, carreira de guarda-parques, o que não existe no Brasil. Aqui um funcionário pode passar 20 anos na mesma função, ganhando o mesmo salário, independentemente de como exerce a profissão. O estímulo de uma carreira pode ser decisivo para estimular melhores desempenhos e maior envolvimento com as causas trabalhadas.

Enquanto a Argentina sempre se preocupou com visitação em suas UCs, o Brasil conta apenas com exceções. O Parque do Iguaçu, por exemplo, foi vanguarda na sua abertura ao público, mas sofreu enormes críticas quando o fez. Seu sucesso é inquestionável, mas acabou limitando o acesso a quem não tem poder aquisitivo para cobrir sua programação. Itatiaia, outra exceção, conta agora com um gestor de pensamento moderno, Walter Behr, que tem se esforçado para abrir adequadamente o nosso primeiro parque nacional. Outras exceções enfrentam desafios como o domínio de condutores de visitantes nos programas que oferecem ou a resistência dos tomadores de decisão, que muitas vezes defendem a não abertura como medida de segurança.

A dissertação de mestrado de Andréa Zimmermann, defendida no Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília em 2006, confirma essa tendência. Analisou a postura de três países diferentes em relação à visitação às UCs: Argentina, Equador e Brasil. Enquanto para os dois primeiros a visitação é um de seus principais objetivos, o Brasil tem a tendência de encontrar barreiras para seguir o mesmo caminho. Além de abrirem suas áreas protegidas, os dois países o fazem oferecendo uma gama de opções para acomodar expectativas e gostos variados. Os públicos locais são beneficiados com taxas reduzidas, pois são considerados prioritários, já que podem contribuir para a conservação de suas UCs.

O fato é que na comparação com nossos vizinhos Latinos o Brasil tem muito a aprender. Com humor, Mario Mantovani acirrou a velha competição entre Argentina e Brasil, afirmando que em matéria de gestão de áreas protegidas a Argentina está anos luz adiante do Brasil. Este estímulo serviu para uma troca de idéias que poderão levar nossos gestores a aprofundarem-se naquilo que lhes parecer adequado. O princípio que justifica a preocupação do acesso do público às UCs é dar a chance das pessoas conhecerem melhor seu patrimônio natural, se afeiçoarem por ele e, muitas vezes, se envolverem em sua proteção.

O evento de Bariloche pode ter sido apenas mais um. Mas, as idéias repassadas em palestras e em encontros deixam sementes para pensamentos estimulantes. As mudanças precisam ocorrer o quanto antes para que as UCs tenham de fato maiores chances de existirem e serem desfrutadas ao longo do tempo.

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