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Eis a questão. As taxas de desmatamento continuam a aumentar e atingiram recentemente os mais altos índices já registrados nos últimos anos. Criar Unidades de Conservação – as U.C.s, no jargão dos ambientalistas – para compensar a perda e tentar salvaguardar o que resta de nossa rica natureza é, sem dúvida, pertinente e louvável. Mas quem garante que as U.C.s serão de fato protegidas? Parques de papel podem até ser melhores do que nada, mas com certeza são insuficientes. E as U.C.s estão longe de serem prioridade neste país. Quase todas carecem de recursos e de pessoal especializado para sua proteção, o que nos leva a crer que conservação não faz parte da pauta dos tomadores de decisão. Áreas enormes contam muitas vezes com quase nada para sua manutenção básica.

Este é o caso, por exemplo, da Estação Ecológica de Anavilhanas, no Estado do Amazonas, que até recentemente contava com apenas uma profissional credenciada para fiscalizar as aproximadamente 400 ilhas que a compõem no Rio Negro, um dos maiores arquipélagos fluviais do mundo. Mesmo que imbuídos de boa vontade e empenho, profissionais nesta posição esbarram com a falta de materiais básicos para desempenhar seus papéis de guardiões.

No caso de Anavilhanas, barco para percorrer a área até existia na época em lá estava esta única fiscal em 2001, mas seu estado de conservação nem sempre era adequado. Quando em ordem, comumente faltava combustível e equipamentos importantes para operá-lo, sem falar nos meios de comunicação para assegurar a proteção de quem se embrenhava pelas ilhas a dentro. Mesmo assim, nas saídas que eram possíveis, pegavam-se pescadores profissionais, coletores de quelônios, cortadores de madeira, balsas retirando areia do fundo do rio, e outras tantas práticas insustentáveis que ameaçavam a integridade da unidade.

Atualmente, este quadro melhorou um pouco em Anavilhanas, que agora conta com três fiscais para percorrem seus 350 mil hectares. Esses profissionais vêm desenvolvendo formas criativas de se juntarem a órgãos estaduais para otimizar os esparsos recursos disponíveis. Mas as agressões ainda são muitas e para se proteger a área efetivamente seria necessário muito mais do que se tem hoje.

O caso de Anavilhanas ainda pode ser discutido por ser uma Estação Ecológica, o que restringe seu acesso à visitação. Em Estações Ecológicas é permitido apenas fazer programas de educação ambiental e pesquisa científica, embora estes sejam raros, devido, também, à falta de verbas disponíveis para tais atividades. Mas, e os parques nacionais e estaduais, que não têm restrições à visitação? Normalmente enfrentam desafios semelhantes aos de Anavilhanas, como um número de profissionais capacitados muito aquém do necessário e uma grande escassez de equipamentos. Tratados como ‘terras de ninguém’, eles e outras áreas ‘protegidas’ (que de protegidas só têm muitas vezes a nomenclatura formal), sofrem agressões de todo tipo.

A meu ver, a agressão e as pressões são fruto de um não envolvimento do público local com essas U.C.s. Como promover orgulho, envolvimento, motivação e compromisso para com a proteção dessas áreas, se as pessoas que vivem muitas vezes na mesma região não as conhecem, ou não têm oportunidades de perceberem seu valor?

São poucas as áreas protegidas que ousam assumir uma gestão mais inclusiva. Contudo, as perdas de áreas naturais são crescentes e cada vez mais espécies entram para as listas das ameaçadas de extinção. Os próprios ciclos naturais muitas vezes não se completam para garantir a vida dos ecossistemas tal como os conhecemos.

As U.C.s não parecem pertencer à nação ou aos brasileiros. Pertencem ao governo, aos órgãos que as administram ou quem quer que seja, que lhes impõem restrições e as fecham com a intenção de melhor protegê-las. Pois o passado indica o contrário. Fechar as portas representa desligar as pessoas dessas áreas e com isso manter as agressões. Este modelo de gestão impede que a espécie humana se conecte afetivamente com as áreas naturais e assim valorizá-las. Como disse o budista Babr Dioum Dioum: “No final, só se conserva o que se ama; amamos apenas o que compreendemos; compreendemos somente aquilo que nos é ensinado”. Sendo assim, como será possível passarmos a amar a natureza de modo a conservá-la devidamente?

Não existe receita pronta. Mas, um passo importante é, sem dúvida, propiciar razões que podem levar as pessoas a se sentirem conectadas e orgulhosas das áreas naturais de sua região. Divulgar conhecimentos e curiosidades sobre a biodiversidade, ou sobre espécies endêmicas (aquelas que só existem em uma determinada localidade), pode ser um meio valioso de se enaltecer as riquezas naturais. Oferecer oportunidades de vivência e de experimentação direta com o mundo natural é outra estratégia que pode levar as pessoas a se sensibilizarem com a natureza. Sentir o cheiro do mato, ouvir o canto dos pássaros e até sentir a picada de insetos podem ser experiências inesquecíveis. Oportunidades desse tipo são raras, principalmente porque a maioria da população brasileira vive em centros urbanos. Mas, essas vivências podem representar a grande chance de se descobrir valores que incluam maior amor pela natureza e pela vida em geral.

Uma análise do passado com o modelo de gestão de U.C.s de portas fechadas nos remete às agressões e às perdas que vemos atualmente, e nos leva a perceber a necessidade de mudar. Precisamos buscar investimentos para implementar infra-estruturas que garantam uma visitação pública de qualidade. Programas de educação ambiental bem estruturados devem fazer parte de qualquer visitação pública, pois podem disseminar conhecimentos e inspirar a valorização das U.C.s. É fundamental que as pessoas se sintam parte da natureza, que tenham orgulho das U.C.s e que as vejam como patrimônio, como algo de valor que lhes pertence. Só assim as pessoas poderão sentir que as U.C.s são dignas de envolvimento e empenho para sua efetiva proteção. Quem sabe este tipo de postura pode trazer maiores chances das U.C.s sobreviverem ao processo avassalador de destruição que temos presenciado em nossa geração? Precisamos ousar mudar nossas abordagens e assumir que podemos acertar mais se tentarmos novos caminhos.