O Agronegócio matou o “Grande Sertão”
Reuber Brandão
Professor de Manejo de Fauna e de Áreas Silvestres na Universidade de Brasília. Membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.

O Agronegócio matou o “Grande Sertão”

Reuber Brandão
domingo, 11 setembro 2016 16:21
Rio Preto, Parque Nacional Grande Sertão Veredas. Foto: Elildo Carvalho Jr
Rio Preto, Parque Nacional Grande Sertão Veredas. Foto: Elildo Carvalho Jr

 

Num distante 11 de Setembro, nos fins do Século XIX, nasceu a pequena Maria Deodorina. Batizada em Itacarambi, nasceu para o dever de guerrear e nunca ter medo. Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins é o nome completo da personagem Diadorim, amor secreto do circunspecto e reflexivo Riobaldo, ou do jagunço Reinaldo, companheiro de armas do bando de Joca Ramiro.

Por coincidência, ou por alguma outra razão oculta na mente do genial Guimarães Rosa, Diadorim nasceu justamente no dia do Cerrado. E, portadora de uma rara sensibilidade, Diadorim conseguia enternecer o coração do jagunço matador de gente com os brilhos da noite, a beleza das muitas flores e a alegria das aves. Se Riobaldo passou a enxergar a beleza do Sertão, muito se deveu à maneira como os olhos verdes de Diadorim viam o verde do mundo, mesmo em uma realidade de sangue e ódio.

Embora muitas pessoas ainda imaginem que o Romance Grande Sertão: Veredas tenha como cenário o semiárido (talvez pelo uso do termo “Sertão”), praticamente todo o enredo se passa nos Cerrados de Minas Gerais, com incursões na Bahia e em Goiás. Sertão era o ermo, a solidão. Na cosmologia Rosiana, o Sertão é o âmago do coração, o ermo dos sentimentos, o isolamento da alma, a sequidão da existência, enquanto as Veredas são os caminhos que permitem que esse interior oculto e sombrio seja alcançado, tocado e refrescado pelas águas cristalinas que alegram a alma e nutrem os buritis, donos de toda a beleza. O Romance Grande Sertão: Veredas é considerado um dos 100 livros mais importantes da humanidade.
“Embora muitos imaginem que o Romance Grande Sertão: Veredas tenha como cenário o semiárido, praticamente todo o enredo se passa nos Cerrados de Minas Gerais (…)”
João Guimarães Rosa possui uma biografia quase tão interessante quanto seus livros. Assume cargo de diplomata no início da década de 1930 e abandona a medicina. Chega a ser Cônsul em Hamburgo antes da Segunda Grande Guerra. Junto com a segunda esposa, salva diversas famílias Judias, protegendo e facilitando a fuga, inclusive para o Brasil, de pessoas perseguidas pelo partido Nazista. Consegue retornar ao Brasil em 1942. Como diplomata, ocupa diversos cargos, em diferentes partes do mundo, mas sempre em contato com o povo e as paisagens do interior do Brasil, seja acompanhando tropas, seja mantendo uma intensa correspondência com o pai, dono de um comércio de secos e molhados em Cordisburgo, Minas Gerais, onde hoje está o Museu Guimarães Rosa. Curioso e detalhista, suas obras são um amálgama de rico enredo criativo com fatos, pessoas e lugares reais.

Devido a esse aspecto, é possível identificar nos livros de Guimarães Rosa, especialmente do riquíssimo Grande Sertão: Veredas, os locais onde os eventos descritos foram imaginados e se desenvolveram. Tal aspecto é hoje explorado turisticamente por pessoas, cidades e empresas que conduzem um séquito quase religioso de fãs de Guimarães Rosa aos confins de Minas Gerais. Um dos roteiros mais interessantes é apresentado pelo escritor mineiro Alan Viggiano, que reconstrói parte do roteiro geográfico percorrido por Riobaldo Tatarana no seu tempo de jagunço.

Partindo da premissa de que grande parte das localidades, rios e serras citados em Grande Sertão: Veredas são reais e que João Guimarães Rosa, como funcionário do Itamaraty, tinha acesso às melhores bases cartográficas da época, como aquelas produzidas pelo Serviço Geográfico do Exército, o amigo Guilherme Braga Neves desenvolveu sua monografia de graduação buscando verificar o quanto ainda resta do Sertão descrito por Guimarães Rosa, se essa paisagem ecológica ainda se parece com o retratado pelo minucioso, detalhista e observador Riobaldo. Tão relevante quanto, é saber se essa paisagem, tão importante como identidade e valoração cultural de uma vasta região, contou com algum zelo na forma de políticas de conservação, ou se foi abandonada à sua própria sorte…

 

No Sertão Bravo de Guimarães Rosa as araras./"Subindo em esperança, de lá saímos, para chão e sertão. Sertão bravo: as araras". Foto: Ruanny Casarim
D0 “Grande Sertão”, de Guimarães Rosa, “Subindo em esperança, de lá saímos, para chão e sertão. Sertão bravo: as araras”. Foto: Ruanny Casarim

Para tanto, Guilherme registrou cuidadosamente os povoamentos, acidentes geográficos, fazendas e outras indicações do território citados no livro. Riobaldo cita 21 cidades ao longo da vida, sendo que as localizadas nos pontos extremos foram usadas para criar o polígono mínimo que representa o Sertão de Guimarães Rosa. Essa poligonal foi estimada em quase 26 milhões de hectares, em grande parte de Minas Gerais, mas também no Oeste da Bahia (hoje MATOPIBA), Goiás e parte de Goiás onde hoje é o Distrito Federal.

Dentro dessa paisagem, são citados mais de 60 cursos de água, dentre rios, córregos e lagoas, além de 14 localidades que foram elencadas por Guilherme como as mais relevantes à sequência de fatos relatadas na obra, sendo eles o Porto do Rio de Janeiro, córrego do Batistério, Fazenda Santa Catarina, Guararavacã do Guaicuí, Liso do Sussuarão, João Pinheiro (Serra dos Alegres e Serra das Maravilhas), Ribeirão Galho da Vida, Fazenda dos Tucanos, Os-Porcos, Cristalina, Itacambira, Fazenda do Hermógenes, Tamanduá-tão, e Paredão de Minas. Nestas localidades, Guilherme avaliou a mudança na paisagem com base no uso de solo, a partir de imagens de satélite.
“as 26 unidades de Proteção Integral presentes nessa paisagem protegem pouco menos de 890 mil hectares, o que corresponde a 0,034% do Sertão”
Para o registro destas localidades foi necessário avaliar diversas bases cartográficas, sendo que as cartas do Serviço Geográfico do Exército foram especialmente úteis. Muitas destas localidades são apontadas pela primeira vez como, por exemplo, o local do nascimento de Riobaldo. Outros locais apontados por Guilherme não correspondem àqueles sugeridos por outros estudiosos da obra de Guimarães Rosa, como o Liso do Sussuarão, localizado na Bahia e não em Minas Gerais, em acordo com o próprio livro e à base cartográfica consultada.

O resultado reflete o que ocorre em todo o Cerrado. As paisagens naturais do Sertão foram fortemente modificadas pela atividade humana. O Sertão das belezas sem dono foi tomado e fechado em arames. Acabaram as praias de rio, onde o manuelzinho-da-crôa fazia festa… Hoje, o fogo desembestado encobre o céu, ocultando a lua que, de tão clara, poderia cunhar dinheiro… Os campos com cheiro de flores, a ciganinha, roxa, e a nhiíca e a escova, amarelinhas, foram substituídos por monoculturas transgênicas nutridas a agrotóxico…

Bravo mesmo, ainda hoje, é o Liso do Sussuarão… Localizado no Município de Cocos, na Bahia, logo adiante do rio Carinhanha, com seu chão de areia branca, já está na mira do avanço da mesma lógica de agronegócio que arrasou o oeste da Bahia. O que se espera para o futuro?

Pouco da história pode ficar no futuro. Dentro dos limites descritos no livro, existem 39 unidades de conservação, de 10 diferentes categorias, sendo 15 Parques Estaduais, oito Áreas de Proteção Ambiental e quatro Estações Ecológicas. Grande destaque deve ser dado ao Parque Nacional Grande Sertão Veredas, localizado no coração do Sertão de Riobaldo. No entanto, as 26 unidades de Proteção Integral presentes nessa paisagem protegem pouco menos de 890 mil hectares, o que corresponde a 0,034% do Sertão. Considerando todas as unidades de conservação, apenas 1% dessa paisagem conta com o status de área protegida. No entanto, é sabido que unidades de conservação de uso sustentável não limitam o desmatamento do Cerrado. Desta forma, é urgente a criação de novas unidades de conservação de proteção integral nessa região. Neste caso, é importante a atuação do Governo Federal e do Governo de Minas Gerais, estado com forte vínculo de identificação com o autor e com sua obra. Por outro lado, em uma paisagem fortemente ocupada por atividades antrópicas, é importante a atuação de proprietários de terra visando a criação de Reservas Particulares do Patrimônio Natural. Neste caso, além do Patrimônio Natural, seriam também Reservas Particulares do Patrimônio Cultural.

Se o demônio se mostra nas Veredas-Mortas, é preciso coragem para enfrentar o avanço da morte. As Veredas-Altas mostram que não existe o demônio, mas apenas escolhas de homem humano. E, como gente vivente, temos capacidade de escolher outro destino aos Rios, Serras, Árvores e Bichos do Cerrado. Travessia. Travessia que se põe para quem nasceu para o dever de guerrear e nunca ter medo.

 

Imagens

Detalhe da foz do Rio de Janeiro, afluente do Rio São Francisco, onde é possível observar as diversas cicatrizes oriundas do desmatamento, inclusive às margens destes dois rios.
Detalhe da foz do Rio de Janeiro, afluente do Rio São Francisco, onde é possível observar as diversas cicatrizes oriundas do desmatamento, inclusive às margens destes dois rios.

 

Córrego do Batistério, onde Riobaldo reencontra o menino da foz do Rio de Janeiro, agora jagunço do bando de Joca Ramiro. O córrego verte no rio das Velhas, denotando a quase ausência de vegetação nativa e a forte ocupação da paisagem, inclusive das áreas de preservação permanente.
Córrego do Batistério, onde Riobaldo reencontra o menino da foz do Rio de Janeiro, agora jagunço do bando de Joca Ramiro. O córrego verte no rio das Velhas, denotando a quase ausência de vegetação nativa e a forte ocupação da paisagem, inclusive das áreas de preservação permanente.

 

Região de Lassance, possível região do Os-Porcos, local onde Diadorim passou sua infância, praticamente reduzida a uma paisagem unicamente agrícola.
Região de Lassance, possível região do Os-Porcos, local onde Diadorim passou sua infância, praticamente reduzida a uma paisagem unicamente agrícola.

 

 

Saiba Mais

Neves, G. B. 2015. Grande Sertão : Veredas – Resgate e Conservação de uma Paisagem Cultural. Monografia de Graduação, Departamento de Engenharia Florestal, Universidade de Brasília

FRANÇOSO, R. D.; Brandão, R.A.; Nogueira, C. C.; Salmona, Y.; Machado, R. B. & Colli, G. R. 2015.. Habitat loss and the effectiveness of protected areas in the Cerrado biodiversity hotspot. Natureza & Conservação,13: 35-40.

Viggiano, A. 1974. O Itinerário de Riobaldo Tatarana: Geografia e Toponímia em Grande Sertão: Veredas.

 

 

Leia Também

Cerrado: dores e amores aos 65 milhões de anos

Guia: Aves do Cerrado

O que é o bioma Cerrado

 

22 comentários em “O Agronegócio matou o “Grande Sertão””

  1. Bela matéria: transita entre o literário imaginário é a realidade quase instantaneamente, certamente para criar a ilusão necessária à formação de pessoas uma ideologia quase doente onde a convivência dos diferentes é impossível. Como sempre, generalizar a partir de um ponto de vista, desde que este sirva à "causa". Irresponsabilidade publicar uma matéria destas!

  2. Como leitora voraz, ainda muito jovem li Grande Sertão Veredas e meu coração me trouxe para o sertão da Bahia, próximo aos gerais. Certo dia viajando da Chapada para Conquista, levava comigo o livro de Guimarães Rosa para meu filho, e ia lendo aleatoriamente, quando me deparo entre a descriçao e a paisagem da cachoeira do Rio Brumado descendo pelas Serra das Almas!! Sou Diadorim, Sou Riobaldo, Sou Sertaneja!

  3. Fala Reuber.

    Parabéns pelo texto. Nosso cerrado e berço das águas está sangrando. Se não tiver aqueles que abrolhos dos outros, quando forem ver, ficarão sem a beleza e riqueza da biodiversidade do Cerrado e claro, sem água pra beber!!!

  4. Parabéns pelo texto! Sensível e próximo. Um olhar diferenciado, nos faz navegar por este Sertão sem fim. Posso estar enganada, mas me inquieta suas considerações finais. Seria somente a criação de novas UCs de Proteção Integral? Em especial, me remeto ao território dá margem esquerda do São Francisco (coração do Sertao) cujo Cerrado ainda está em pé. Isso é graças a forte presença de comunidades tradicionais e das áreas protegidas. Ao mesmo tempo, está realidade vem mudando para essas comunidades, engolidas feito bebida em cálice de traição pelo avanço dá fronteira agrícola e de pivos desejando levar suas águas. Quem sabe se pensar o fortalecimento dos Mosaicos de Áreas Protegidas, fortalecer o que temos para serem apropriadas. Investimento na gestão das UCs e criação de novas RDS. Para as áreas prioritárias, tentarmos avançar no debate que nos assombra desde a década de 70. Já está na hora de nós reconhecermos que não é apenas na literatura que o Manuelzinho-da-Croa encanta jagunço. Na vida real o suspiro que damos ao de ver uma vereda é tão grande quanto a dor de vê lá queimando. Você provou isso com seu texto! Incluir, sempre! Gratidão! Damiana Campos, Norte de Minas, Grande Sertão.

    • Oi Damiana, obrigado pela atenção.

      Não tenho a menor dúvida de que a ação mais definitiva para a conservação da biodiversidade é o estabelecimento de unidades de proteção integral. Embora a presença de comunidades locais modifique a realidade de uso da terra, é apenas questão de tempo para que valores e interesses típicos do agronegócio seduzam e modifiquem tais comunidades. Embora existam pessoas nas comunidades que prefiram viver como viviam seus antepassados, a maior parte das pessoas quer crescer economicamente, querem fazer parte do mercado e isso é fatal para a conservação. O vínculo com a terra não necessariamente é vínculo com a biodiversidade da terra. Mesmo com a criação de UCs como RDS e Resex (que acho uma violência com essas comunidades, por diversas razões, mas especialmente pelo fato das pessoas não se tornarem proprietárias de terra), as pessoas mudam e seus interesses também. Isso não significa desmerecer ou minimizar a relevância das pessoas, mas apenas entender que as sociedades são dinâmicas, e que o uso dos recursos naturais é circunstancial, dependendo de diversos fatores e mudando de acordo com mudanças nesses fatores. Sou favorável à proteção das pessoas, mas não há garantia nenhuma (nem é justo com tais pessoas) de que futuramente essas pessoas continuem replicando modos de vida ancestrais porque achamos bonito, interessante ou menos impactante. Desta forma, o discurso de que não há necessidade de proteção integral por conta da presença de tais grupos humanos é frágil, falacioso e tende à contribuir para o empobrecimento ecológico da área e dos recursos naturais que, em um determinado momento, significaram um modo de vida diferenciado. Há território físico para diferentes formas de proteção da natureza, embora no campo da ideologia pareça que não, visto cartilhas pobres chamadas de "livro" que aparecem por aí…

  5. Recentemente assumiu a direção do Paraná Grande Sertão Veredas, o ex-presidente da cidade sede do Paraná. Sem histórico algum com a unidade de conservação. Mesmo com a não aceitação do conselho consultivo. O que esperar do ICMBio, com esta anuência?

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.